Balanço de Inverno (2)


Sérgio de Almeida Correia,

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2. Quanto ao PSD, embora não se saiba se ainda é o maior partido português, pelo menos é até ver o que tem o maior grupo parlamentar. Os desafios que enfrenta e os tempos que se avizinham não serão fáceis perante a necessidade de conciliar essa dimensão com o estatuto de oposição. O partido terminou, mal, um ciclo de poder incaracterístico, difícil e politicamente ingrato. Mal porque de nada lhe serviu a obediência aos ditames da troika e ao duo Merkel/Schäuble para se manter no poder. Fazer parte da coligação vencedora das últimas legislativas foi uma vitória de Pirro. O PSD não quis correr o risco de se apresentar sozinho, resguardou-se, mas vencendo o resultado final foi desastroso. Para além das centenas de milhares de votos que alienou, sinal de que a “excelência” da sua governação não foi reconhecida pelos eleitores que antes lhe deram o poder, foi deste apeado em circunstâncias atípicas; todavia, nem por isso menos legítimas ou menos democráticas. A tradição, felizmente, não é uma lei em democracia e essa também é a única forma de se mudarem as “más” tradições e se tentarem novos caminhos. A recandidatura de Passos Coelho à liderança do PSD é, por agora e à falta de concorrência, um péssimo sinal para o partido. Com a imagem de um homem sério com muitas fraquezas, rodeado por uma corte de apparatchiks e com o partido infestado de “negreiros” da política de interesses, senhor de uma liderança anódina e destituída da mais leve ponta de carisma, Passos Coelho é a imagem do rapaz da jota que, embora tendo sido primeiro-ministro, não tem futuro que o recomende para os interesses do partido. Sem o jeito de Relvas para se virar e meter nos negócios, tornou-se num empecilho. O seu regresso ao parlamento para dirigir a bancada nos tempos difíceis que aí estão, embora seja louvável do ponto de vista pessoal, é um sinal de vazio e de falta de projecção do partido para o futuro. Ao contrário do que fez o CDS/PP, onde Portas percebeu o esgotamento do seu “modelo de negócio” e procurou acautelá-lo em 4 de Outubro, antes de se retirar, no PSD foi dado um sinal de conformismo. O apagamento será inevitável e de nada lhe servirá fazer uma oposição quinzenal que se limite a agitar os papões dos mercados e do despesismo se o partido não for capaz de inovar o discurso político e de gerar um escol de dirigentes descomprometido com os seus anos de governação. Entalado entre um CDS/PP renovado e um Presidente da República que provocará o reposicionamento do PSD à esquerda para manter a sua base de apoio, a Passos Coelho só resta um de dois caminhos: aceitar uma ainda maior descaracterização da sua liderança, deixando que o partido se vá aos poucos apagando, ou ajustar-se aos novos ventos e gerar uma alternativa à sua liderança que faça face aos novos desafios e leve o partido a uma clarificação ideológica e programática perante o CDS/PP e o PS. O PSD vai ter de sofrer um processo de rejuvenescimento interno que o credibilize aos olhos do seu eleitorado. É que à medida que forem surgindo os rabos-de-palha deixados pela sua governação, dos quais alguns já começaram a ser conhecidos ­— BANIF, EFISA, nomeações de dirigentes paradas há um ror de tempo, descalabro na Saúde, nomeações na Segurança Social, privatizações à pressa para contentar as clientelas, aumentos de 150% dos salários de gestores da ANAC, etc. —, maiores serão as possibilidades de apagamento do partido e do seu presidente. E mais funda será a sensação de orfandade do seu eleitorado, que tenderá a refugiar-se no renovado CDS/PP ou a aceitar passivamente a governação PS (versão frente popular) de cada vez que lhe sejam repostos vencimentos, pensões, subsídios, feriados e caixas de biscoitos.

0 comentários em “Balanço de Inverno (2)”

  1. Existe uma afirmação de Séneca que é válida para todos os tempos: “Quando o Homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável”.

    O discurso zigzagante, e a acção nada fora desta trajectória, revelaram duas coisas: o eleitorado do PSD agiu com temor – este tipo de eleitores só muda perante factos consumados – e a governação, que se pretendia estilosa e austera em termos de imagem, não acompanhou essa mesma imagem, isto é, não possuía saber e rigor.

  2. …caixas de biscoitos… amendoins, tremoços, imperiais (“chocas”), só espero que, no fim e, novamente, não fiquemos todos engasgados com as pevides… o dinheiro pode faltar, evaporar mas, o que nunca falta neste país… são as cabeças de abóbora…

  3. O traço dado ao destino do PSD só pode ter por contraponto o sucesso da governação da frente esquerdalha.
    Ao PSD só lhe cabe de momento esperar para ver.
    E não terá de esperar muito, embora ainda não possa definir-se a unidade de tempo que vai de dias a anos.

  4. Esta análise, como wishful thinking, não me parece mal de todo, mas, e se as coisas não acontecerem exactamente como aqui descreve e o PSD passista, mantiver ou mesmo aumentar a sua base eleitoral de apoio, então, dentro do pouquíssimo espaço de análise que deixou, como explicaria isso?

  5. Sérgio, ainda é muito cedo para fazer análises deste género. Não se esqueça que as cadelas apressadas parem cães tortos. Ou, se quiser, não confunda a realidade com os seus desejos.

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