Ary dos Santos


Patrícia Reis,

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

 

exame nacional de Português, 9º ano


Patrícia Reis,

O miúdo chegou a casa descontraído.

O teste? Ridículo. Adjectivo dele.

Entrevista ao Mário de Carvalho por Carlos Vaz Marques e um excerto de Memórias de Cubas Brás de Machado de Assis.

Entregou-me o teste e sorriu.

 

Nada de especial.

 

Perguntei pelo próximo, o de matemática. Ao contrário dos Lusíadas ou do Auto da Barca do Inferno, a matemática é mesmo uma equação estranha para a minha criatura adolescente.

 

Já não levanto a nota, mãe, esquece.

 

Já esqueci. Depois, sem grande alarido, o miúdo diz ainda

 

O terceiro ciclo já está. Venha o secundário.

 

 

 

Mia Couto


Patrícia Reis,

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto in ‘Raiz de Orvalho’

Luís Vaz de Camões


Patrícia Reis,

 

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.


É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.


Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.


Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

(obrigada à poetisa Margarida Ferra que se lembrou deste poema no dia de Camões)

 

Deixa lá isso


Patrícia Reis,

Os filhos podem ser mais intrusos ou mais íntimos. Depende de cada um, da personalidades da fase em que estão (na adolescência é para esquecer). Hoje, o meu filho mais novo disse-me que a vida seria diferente se as pessoas fossem diferentes. Menos auto-centradas, foi o que ele disse e respondi Deixa lá isso. Depois compreendi que o meu adolescente é um quase-homem, o mundo roda, a vida atrapalha, o tempo corre. E tudo passa.

One, recebi um email do Bono


Patrícia Reis,

ONE

Dear Patricia

A lot has changed in a decade.

10 years ago, Facebook existed on a computer in a college dorm. There were no tweets, hashtags or iPhones. The only people occupying Wall Street wore suits and the Tea Party had a colonial Boston accent. And ONE was but a few.

It was started mainly because, truth be told, Nelson Mandela and Archbishop Desmond Tutu asked us to. And really… who says no to the two of them?

What was needed, they felt, was a demonstration of support for the world’s poorest… citizens around the globe standing in solidarity with one another and calling on leaders to do more of what helped and less of what hurt the most vulnerable people on the planet.

And so, ONE was born.

A few of us gathered near the Liberty Bell in Philadelphia to launch a campaign to lift millions out of poverty. We knew each person could make a difference, but we believed that if we worked together as ONE – we could change the world.

10 years later, I am blown away by what you’ve accomplished, by working together across continents and ideologies, and by holding tight to the belief that the fight against poverty isn’t about charity, but about justice and equality.

And you got busy. Watch this. Spread it. Share it. Pass it on.

10 years together

Debt relief for dozens of countries in Africa that helped put an extra 54 million kids in school. Aid made more effective and accountable. Tough laws passed to help ensure the oil, gas and minerals under the ground in poor countries aren’t stolen from the people living above them. 7.5 million people in Africa are thriving on ARVs; malaria death rates have been cut in half in 13 countries across the continent. Political leaders from left, right and centre hit with calls, letters, town hall meetings and tweets and forced to take a stand on the fight against extreme poverty.

ONE’s tagline is one of the few things that has stayed the same: “We’re not asking for your money. We’re asking for your voice.” So today, ten years on, we want to thank you for using your voice – whether through a click, an email, a letter, a phone call, a conversation, a demonstration, a sit-in, a stand-up…

Your voices together – that has made all the difference.

Thank you.

Bono

 

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Maria Teresa Horta


Patrícia Reis,

OS SILÊNCIOS

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
e dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

(“Só de Amor”)

:)


Patrícia Reis,

Egoísta ganhou o Grande Prémio de Design na edição anual dos Papies. Foi ontem de madrugada na Figueira da Foz. Os prémios que a revista tem recebido ao longo dos anos são todos o reconhecimento do nosso trabalho (isto só quer dizer que nenhum envolve dinheiro) e são uma benção para nós que estamos no atelier 004. Obrigada por saberem que nos esfolamos a trabalhar para termos uma revista como esta, há 14 anos, propriedade da Estoril-Sol. Obrigada a todos os que colaboram connosco (e são muitos!) Ao fim deste tempo, não sei como faremos melhor, mas faremos:)

E depois de votar


Patrícia Reis,

 

O  meu filho mais velho votou hoje pela primeira. Consciente do que fazia. Informado. A escola onde votámos estava vazia. A abstenção parece que vai vencer, mais uma vez, estas eleições. É muito triste. Depois pergunto-me: será que a minha avó sabe exactamente o que faz um deputado europeu? Que responsabilidades tem? Que diferença faz? Talvez não. Como ela, existirão muitos, digo eu. Culpa dos partidos e, mea culpa solidária com quem é da profissão, dos jornalistas. Os americanos aprenderam o sistema político que têm com uma série televisiva, “Os Homens do Presidente”. Os europeus também agradeceram essa oportunidade. Cá quem explica o quê? Neste dias, apesar de me saber longe das redacções, penso que gostaria de voltar ao jornalismo. É um sentimento que dura um nanosegundo. Vejo os jornais e tenho pena. Vejo os jornais na televisão – começam com o Palito (um caso triste, claro, mas há destes todos os dias no CM e no JN) e depois as malas dos jogadores do país vizinho. As grelhas televisivas são iguais, é a contra-programação e o serviço público está nas mãos de comentadores que, há anos, vivem disso: comentar. À saída da escola onde votámos estavam dois bombeiros, um homem, uma mulher. Tinham uma maca e estavam a fazer um peditório para os Bombeiros de Moscavide. Eu tirei uma nota do bolso. A maca estava cheia de moedas. Tive vergonha de ter uma nota para dar. É triste? Sim, é a minha tristeza. 

 

(Sérgio, desculpa repetir a tua imagem, mas é tão certeira que não resisto)

Blogue da semana


Patrícia Reis,

O meu olhar, é um blogue de Jorge Monteiro, onde podemos encontrar um portfolio extenso de fotografias desde 2008.

Gosto de lá ir para olhar.

Fotografar é uma forma de ver o mundo, de não influenciar, ser espectador.

Um bom fotógrafo também é isso, alguém que consegue não constar da paisagem.

Gosto do blogue e há um pormenor que aprecio: o profissionalismo. Logo ao entrarmos, Jorge Moreira avisa:

 

©ALL RIGHTS RESERVED Todas as fotografias contidas neste blog estão protegidas por lei, pelo que é expressamente proibida qualquer cópia, utilização, modificação, venda, publicação, distribuição ou qualquer outro uso, total ou parcial, comercial ou não comercial, das mesmas. Exceptuam-se os usos livres contemplados na lei, nomeadamente o direito de utilização, desde que inequivocamente identificada a origem e os casos que foram expressa e previamente autorizados. O autor deste blog reserva-se ao direito de proceder judicialmente contra os autores de qualquer infracção e declina qualquer responsabilidade derivada da eventual utilização não autorizada, por terceiros.

 

Infelizmente, existe uma pirataria constante, tanto nas fotografias como na arte em geral. Parece que a internet nos permite ser ladrões com perdão, abusando do outro, do profissional ou amador que tem direitos, tem a sua propriedade intelectual e artística que deve ser defendida. Por isso, espreitem, comentem, partilhem, mas não se esqueçam de dizer quem fotografou, pintou, escreveu etc e tal.

 

O Meu Olhar – Fotografia

Vamos ficar calados?


Patrícia Reis,

 

“Las ninas por Rosa Montero, hoje no El País

 

Las más de 250 niñas secuestradas en Nigeria desaparecieron el 14 de abril, o sea, hace un mes. Amnistía Internacional acaba de denunciar que el Ejército nigeriano fue advertido del secuestro y que no hizo nada. De hecho, en los primeros días apenas si se dio importancia a la noticia, porque las niñas no llevan petróleo en las tripas, ni diamantes, ni minas de uranio. Luego la cosa empezó a convertirse en un escándalo y los Gobiernos se han visto obligados a actuar. Las niñas fueron raptadas por ir a la escuela. Como Malala. Pero el tiro en la cabeza de Malala es un horror liviano comparado con el destino de estas chicas. Alguna que escapó ha dicho que las violan 15 veces al día y que si se resisten las degüellan. A estas alturas todas tendrán sida, por no hablar de las lesiones físicas y psíquicas, seguramente irreparables.

El miserable que las secuestró lo ha hecho porque podía, porque su entorno propicia y acepta esta violencia. En el norte musulmán de Nigeria la mujer no pinta nada y las niñas son vendidas como ovejas por elevadas dotes. Las secuestradas provenían de familias más abiertas (algunas cristianas), familias que se arriesgaban a enviarlas a la escuela. Al destrozar a sus niñas, están mandando un aviso a la población: todo lo que sea darle a la mujer más consideración que la que se da a una cabra será castigado. Por eso, porque esa violencia atroz forma parte de la violencia habitual, fue por lo que nadie se movió, aparte de los desesperados padres. No sólo hay que rescatar a las niñas ya, también hay que dar un castigo ejemplar a las alimañas que hacen esto y demostrar que no se puede mantener a media población en semejante nivel de abuso y sufrimiento. Me pregunto qué tara feroz, qué oscura patología arrastran algunos varones, para que ese odio delirante hacia la mujer se repita tanto a lo largo de la Historia.”

David Mourão-Ferreira


Patrícia Reis,

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

Poucos ou muitos?


Patrícia Reis,

Os doentes com lúpus, diagnosticados e identificados, são quinze mil. Os medicamentos deixaram de ter comparticipação. Como é uma doença invisível, uma doença que a maioria não entende e que afecta sobretudo mulheres, pois não se diz nada. Entre corticóides, imunosupressores, medicamentos para as articulações e de protecção solar, venha o Diabo e escolha. Este é mesmo o Estado a que chegámos.