Amanda Shires, álbum My Piece of Land.
Composto durante a fase final de uma gravidez, longe do marido (Jason Isbell andava em digressão), é um trabalho de subtilezas, reflectindo solidão e inquietudes, mas também esperança no futuro.
Amanda Shires, álbum My Piece of Land.
Composto durante a fase final de uma gravidez, longe do marido (Jason Isbell andava em digressão), é um trabalho de subtilezas, reflectindo solidão e inquietudes, mas também esperança no futuro.
Warpaint, álbum Heads Up.
Há uma incursão pela pop em New Song, o terceiro tema. De resto, o álbum mantém a sonoridade complexa e ligeiramente arrastada habitual nas Warpaint.

Porto, 2016.
The XX, álbum I See You.
O título não podia ser mais adequado. Ao terceiro álbum, os XX sacodem (ainda que ligeiramente) a tendência para a introspecção e olham para fora.
Bat for Lashes, álbum The Bride.
Um álbum conceptual, de acesso não exactamente imediato, sobre uma mulher cujo noivo morre no dia do casamento. A ideia-base podia ter constituído receita para um conjunto intragável de lamentações, mas Natasha Khan é demasiado inteligente para cair nessa armadilha. Ainda assim, não será o trabalho ideal por onde começar a descobrir a música da londrina.
Sean Riley & The Slowriders, Sean Riley & The Slowriders.
O regresso, após quatro anos, de uma das bandas que me chegaram a fazer pensar haver uma ligação subterrânea entre Coimbra e o Sul dos Estados Unidos (as outras: D3Ö, Bunnyranch, os projectos de Paulo Furtado). Tê-lo-ia assinalado antes mas o José Maria Gui Pimentel adiantou-se.
O caso da TSU do salário mínimo ilustra bem os tempos em que vivemos. Uma medida que se traduz no aumento de poder de compra a curto prazo transporta consigo incentivos perversos de contenção dos salários mais baixos a médio e longo prazo. O acordo do salário mínimo é, na prática, uma política que defende uma economia de salários baixos.
Steve Gunn, álbum Eyes on the Lines.
Suave, fluído, quase sempre com a guitarra em primeiro plano. Talvez o melhor álbum de 2016 para ouvir enquanto se conduz.
(Para além de Gunn, no vídeo surge o guitarrista Michael Chapman – bem como a casa deste, situada no condado inglês de Northumberland.)

Porto, 2016.
A economia cresceu menos do que em 2015. O crescimento deveu-se não ao previsto aumento do consumo interno mas ao turismo e às exportações. Agora o governo diz que a aposta são o investimento e as exportações. Tudo indica que o crescimento permanecerá anémico.
A dívida pública aumentou. Apesar das medidas do BCE, as taxas de juro subiram, tanto no mercado primário como no secundário.
A operação de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos foi adiada para 2017. O processo incluiu uma tentativa governamental para contornar legislação existente. Seria mais grave noutros tempos.
Descontando operações de recapitalização de bancos, o défice público deverá baixar cerca de 0,5% em 2016 (contra uma média superior a 1,3% nos cinco anos anteriores). 0,3% dessa redução ficará a dever-se a um perdão fiscal a que o governo não gosta de chamar perdão fiscal. Além disso, as cativações permanentes subiram e os pagamentos em atraso provavelmente também.
Apesar da construção de hotéis e da abertura de espaços vocacionados para o turismo no centro de Lisboa e do Porto, o investimento caiu. Em percentagem do PIB, o investimento público caiu para níveis da década de 1950. Parece que até os socialistas entendem que é necessário apertar em algum lado. Há uns anos, quem imaginaria que o fizessem aqui?
A taxa de desemprego desceu. É uma boa notícia. Provavelmente teria descido mais com mais investimento. De preferência, privado.
Os impostos indirectos aumentaram. Em 2017 continuarão a aumentar.
Os «lesados» do BES vão ser salvos pelos contribuintes. Com um pouco de boa vontade, a Cornucópia também.
O sistema de Educação conseguiu bons resultados a nível internacional. A análise ainda não abrangeu as mudanças introduzidas pelo actual governo.
Na Concertação Social, o governo conseguiu um acordo para aumentar o salário mínimo. Logo a seguir, um ministro comparou os parceiros sociais a gado. Estes nem mugiram.
Marcelo viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies. Considerando que tomou posse apenas no início de Março, em 2017 deverá conseguir viajar, falar e tirar selfies ainda mais. Poderá ter problemas em manter taxas de crescimento significativas a partir de 2018.
A «geringonça» aguentou-se. Parabéns a António Costa. Bloco e PCP estão mais domados do que CDS alguma vez esteve. Como se viu no caso da TSU, até os termos dos «acordos de entendimento» já podem ser violados.
Mas, globalmente, parece que os portugueses andam satisfeitos. Óptimo. Sempre apreciámos o status quo. E, no fundo, estamos habituados à mediania.
Bom 2017.
Justice, álbum Woman.
A electrónica de outro duo de franceses (i.e., não os Daft Punk), cantando em inglês, num vídeo que inclui uma actriz norte-americana e um carro japonês. A globalização ainda não perdeu a guerra.
(Colocar Susan Sarandon, de óculos escuros e cabelo solto, ao volante de um descapotável traz de volta certas memórias…)
Imaginemos uma fila para aquisição de bilhetes para um espectáculo muito concorrido e com os ingressos prestes a esgotar. Um idoso ou um portador de deficiência passa à frente de quem chegou primeiro?
Obviamente.
(…)
Porque é que o Governo entendeu legislar sobre esta matéria? Haverá uma generalizada falta de bom senso entre os portugueses? Porquê legislar e ter força de lei aquilo que por muitos é visto como bom senso?
A razão é exactamente essa. Esta é uma situação que é vista como bom senso e o bom senso como se costuma dizer é algo como o oxigénio ou o ar que respiramos: só sentimos a falta dele quando de facto não está lá.
Entrevista da Renascença à Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência.
Houve um tempo em que a esquerda afirmava acreditar na bondade humana; hoje, prefere desconfiar, controlar e punir. Bom senso seria legislar sobre o essencial e deixar em paz tudo o resto. Mas não apenas organismos públicos diversos e secretarias de Estado para a «Inclusão» têm de justificar a sua duvidosa razão de ser como o Estado vive da imposição e do controlo de regras. Quanto mais existirem, mais Estado pode existir.
Repare-se que a lógica da secretária de Estado é extensível a quase tudo. O bom senso também recomenda que não se ande pelas ruas em fato de banho durante o Inverno, que não se vá engripado a locais onde esteja muita gente, que se ajudem indivíduos à procura da rua x ou da praça y, que se modere o humor diante de desconhecidos, que não se ingiram (e que não se disponibilizem) produtos com elevados teores de açúcar, gordura ou álcool. Mas será necessário legislar sobre estes assuntos?
Os defensores da hemorragia legislativa acreditam que ela torna a sociedade mais justa e solidária. Na verdade, é mais provável que contribua para o aumento do nível de acrimónia. Em primeiro lugar, o excesso de legislação faz com que as pessoas sintam, justa ou injustamente, que os outros estão mais protegidos do que elas: há legislação conferindo privilégios a tantos grupos específicos e até a animais; que legislação se preocupa comigo? Em segundo, leva-as a sentirem-se menorizadas: ao Estado não basta informá-las de que determinado comportamento é preferível a outro; força-as a ele, plasmando-o em lei (a qual, reconheça-se – até um Estado gargantuesco tem limites -, fica muitas vezes por aplicar). Finalmente, converte gestos de boa vontade em imposições – e enquanto ceder voluntariamente o lugar numa fila gera satisfação, ser obrigado a fazê-lo dá azo a reservas e desconfianças. Não pode ser coincidência que, nas sociedades ocidentais, a leis cada mais «perfeitas» pareçam corresponder níveis de individualismo e de falta de cortesia cada vez mais elevados. Num ambiente em que todos os comportamentos se encontram legislados, a única liberdade reside no egoísmo.
É desta forma que, perante o aplauso de muitos e o silêncio indiferente, ignorante ou cobarde de muitos mais, o politicamente correcto se vai transformando em ditadura. Proíbem-se actos, proíbem-se palavras e, quando for possível ler pensamentos, proibir-se-ão todos os considerados impróprios. Sempre em nome de magníficos princípios, numa sociedade cada vez mais crispada.
Carla Dal Forno, álbum You Know What It’s Like.
Texturas sombrias e roufenhas onde a voz procura um lugar.

Serra da Estrela, 2016 (ontem).
The I Don’t Cares, Wild Stab.
Após encontrar na cave de Paul Westerberg (The Replacements) muitos temas escritos ao longo dos anos mas nunca utilizados, Juliana Hatfield (um dos ícones da década de 1990) convenceu-o a formar uma banda com ela. O resultado é ligeiramente desconexo mas totalmente isento de pretensiosismo: dezasseis temas low-fi, com arestas por polir, que soam mesmo a material gravado numa cave, em dias de descontracção.
Angel Olsen, álbum My Woman.
Da indie ao rock quase puro (i.e., retro), a palete de Olsen continua a expandir-se.
Conor Oberst, álbum Ruminations.
Um dos trabalhos mais intimistas, minimalistas e pessimistas de Oberst, composto em Omaha no Inverno passado (enquanto ele recuperava de “laringite, ansiedade e exaustão”) e gravado em 48 horas.
M.I.A., álbum AIM.
A dificuldade de muitos artistas com mensagens políticas radicais é conseguirem conjugá-las com o desejo, tão humano, de estrelato (ou, numa versão mais benigna, de atingirem um público vasto). Houve uma época em que a raiva de M.I.A. parecia genuína. Hoje, encontra-se demasiado estilizada para convencer plenamente. Há boas canções em AIM (a do vídeo acima, por exemplo), mas também há (demasiadas) canções fracas e, acima de tudo, nenhuma constitui um desafio, lírica ou musicalmente; em nenhuma o ouvinte sente o desconforto de ver a sua mundividência posta em causa.