A política é um jogo em que Passos e Portas fazem tudo errado e no fim quem perde é o Tó Zé


Rui Rocha,

Assistimos, na passada semana, a um triste espectáculo político em que Passos e Portas fizeram tudo errado. Do primeiro-ministro fica a ideia de uma total falta de capacidade de liderança. Essa é a conclusão que se pode tirar da carta de demissão de Gaspar. Isso é o que resulta de toda a trapalhada que veio a público a propósito da demissão de Portas. Que tipo de líder permitiria que uma situação desta natureza derrapasse para a opinião pública como sucedeu nesta crise? Já no que diz respeito a Portas, o que fica são as ruínas de toda a credibilidade que pudesse ter. A partir daqui, é praticamente impossível construir qualquer proposta política sobre uma reputação tão arruinada. Todavia, o jogo político tem particularidades verdadeiramente surpreendentes. Numa espécie de tacada às três tabelas, a verdade é que António José Seguro acaba por ser um dos mais prejudicados pela tempestade. Vejamos. Se  há coisa que ficou clara para os portugueses, é que a instabilidade política pode trazer consequências desastrosas. Bolsa a afundar, juros da dívida a dispararem e ameaça de descida dos respectivos ratings pelas agências de notação. Durante a crise, Seguro apostou na irreversibilidade da queda do governo e cavalgou estes sinais. Sabe-se agora que foi um tremendo tiro no pé. Se, como tudo indica, a situação política estabilizar nos próximos tempos, os mercados recuperarão, num claro sinal de que é preferível o mau conhecido do que o bom por conhecer. Neste contexto, com que cara continuará Seguro a forçar o cenário de eleições antecipadas, situação que trará evidentemente uma ameaça de instabilidade, até porque não é claro que do acto eleitoral resulte um cenário de clarificação? É óbvio que Passos Coelho e Portas serão duramente punidos em próximas eleições. Mas é também certo que a percepção generalizada é agora a de que é preferível que prolonguem tanto quanto possível o governo que detém o mandato para a actual legislatura. É neste contexto que Passos se assemelha cada vez mais a um Forrest Gump da política portuguesa. Sem qualidades que permitissem prever qualquer tipo de sucesso, lá vai andando. Quanto a Seguro, fica cada vez mais claro que é alguém a quem os portugueses só recorrerão por absoluta falta de alternativa e como solução de último recurso. Para quem esteve tão perto de chegar ao poder durante a passada semana, a lição política que fica pode ser resumida numa célebre frase do próprio Forrest Gump: a vida é uma caixa de bombons e nunca se sabe o que está lá dentro.

Ganhos e perdas


Rui Rocha,

Do ponto de vista da hierarquia política, Vítor Gaspar perde. Deixa o lugar de primeiro-ministro e abandona o governo. Paulo Portas ganha. Passa de número 3 do anterior governo, a número 1 do novo. Passos Coelho mantém a posição. Continua a ser o número 2. Antes de Gaspar, agora de Portas. Já de outros pontos de vista, as contas são diferentes. Com excepção de Gaspar, que apenas perde credibilidade técnica, todos os outros perdem a face.

Política à portuguesa


Rui Rocha,

O primeiro-ministro e o ministro dos negócios estrangeiros, líderes dos dois partidos que suportam o executivo, passam dois anos a tecer loas à estabilidade. Passos Coelho, há 15 dias, criticou a troika por deixar vir a público a existência de desentendimentos entre os seus membros. Depois de vários episódios caricatos nos tempos recentes, Portas e Coelho armam a tenda perante o olhar incrédulo de milhões de portugueses com o estômago às voltas de tantos sapos e suópes engolidos nos últimos anos, rebentando num dia com os resultados que eles (os portugueses) conseguiram com o seu sacrifício. Faz sentido.

 

Paulo Portas apresenta a demissão irrevogável por considerar que a escolha de Maria Luís Albuquerque implica a continuidade da política do governo e que isso é inaceitável. De acordo com as informações que correm, o acordo entre Passos e Portas poderia passar pela continuidade de Maria Luís Albuquerque e pela saída de Álvaro Santos Pereira. Faz sentido.

 

Tó Zé Seguro, Mário Soares, toda a outra oposição à esquerda e uma boa parte dos que têm acesso a opinião publicada passaram os últimos meses a exigir demissões, dissoluções e outras coisas terminadas em ões como eleições. No dia em que  governo está por um fio, apresentam-se muito indignados pelo estouro sofrido nos mercados devido à instabilidade política. Faz sentido.

 

Tudo isto faz mesmo muito sentido. Nós é que não percebemos.

Portugal dos pequeninos


Rui Rocha,

Seguro tem razão. O nosso é um problema de crescimento. Antes de mais, e sobretudo, dos líderes políticos. Coelho, Portas, Relvas, Sócrates e ele própio são raquíticos. E o mais grave é que não só são pequenos, como se recusam a crescer. E vivem, assim, como meninos perdidos numa Terra do Nunca, uma fantasia de histórias de piratas, fadas, crocodilos, traições e juramentos. O problema é que as nossas vidas dependem das aventuras destes garotos. Das suas jogadas, dos seus caprichos e cumplicidades. Os acontecimentos das últimas horas seriam uma brincadeira de espadas de madeira num conto infantil, mas só podem ser considerados uma traição se ainda quisermos acreditar que temos um país. Traição ao esforço, ao sofrimento e ao sacrifício de milhões de pessoas nos últimos anos. Não se trata já de falta de sentido de estado. Estamos, mais do que isso, perante a ausência total de sentido de estrado. A começar em Passos e a acabar em Seguro, esta gente perdeu já qualquer noção do ridículo.