O novo cartaz do PS


Rui Rocha,

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Mal recuperado do outdoor de inspiração mística ou messiânica que foi rapidamente retirado, o PS volta a falhar redondamente em termos de estratégia de comunicação com um novo cartaz. Eis alguns dos pontos que fazem com que esta nova versão constitua um absoluto desastre:

1 – Na melhor das hipóteses, a mensagem é ambivalente. A Senhora que surge no cartaz foi para o desemprego quando governava um executivo do PS; o governo da coligação não lhe assegurou prestações substitutivas da remuneração. A mensagem de um cartaz deve ser curta, directa e unívoca. A deste cartaz deixa o eleitor na dúvida. O que é pior? Desemprego ou falta de subsídio? O que é pior? PS ou Coligação? O cartaz não promove a decisão do eleitor. Paralisa-o pela dúvida.

2 –  A mensagem do cartaz, para além de ambígua, é negativa. O PS pretende ser governo. Tem de impor-se pela alternativa, pelas propostas. O momento devia ser de afirmação. O objectivo (falhado) do cartaz seria salientar aquilo que o PS considera serem erros da governação da Coligação. Mas… e as propostas do PS onde estão?

3 – Não há coerência no rigor de concepção. Houve a preocupação de salientar o número quase exacto de pessoas que supostamente estarão na mesma situação da Senhora: mais de 353.000. O número não é redondo como seria, por exemplo, mais de 350.000. Mas depois de tanta preocupação com o detalhe, não se fazem contas sobre o início da actual legislatura. Não se encontra um exemplo de alguém que tenha ficado desempregado durante o governo de Passos Coelho? Com o exemplo dado, o PS expõe-se involuntariamente a todo o tipo de associações à governação de Sócrates e à velha ideia de que o PS tem dificuldade em fazer contas, em governar com rigor: não consegue fazer uma simples operação matemática (2015-5).

4 – A sequência de comunicação está invertida. No limite, a mensagem crítica que o PS pretendia passar (e não conseguiu) sobre o governo da Coligação devia ter precedido o cartaz messiânico. Numa abordagem racional, primeiro critica-se o adversário, depois apresenta-se uma visão de futuro (a luz, a esperança, etc.). Não seria grande coisa como proposta política, mas pelo menos teria uma sequência lógica.

5 – As decisões sobre a comunicação não estão, nunca podem estar, nas mãos de uma só pessoa nem na dependência da equipa de marketing. É óbvio que a responsabilidade não é só, nem é sobretudo, de Edson Athayde e dos seus técnicos. A aprovação destes materiais tem sempre de ser colegial e política. A Direcção de Campanha não avaliou o cartaz? Ascenso Simões não o viu? António Costa não o aprovou? Se não viram, é mau. Se viram e aprovaram é péssimo.

Mas existe, para além de todos estes pontos, um outro que pode assumir particular gravidade. O cartaz, tosco na sua concepção como é, refere-se  a uma situação concreta. A de uma Senhora cuja fotografia está no próprio cartaz e que é colocada a falar em discurso directo (são usadas aspas). Ora bem. Esta Senhora existe mesmo? Tem um nome? Ficou mesmo desempregada há cinco anos? É que o pior de todos os cenários seria o de o PS ter usado uma cara e uma situção fictícias como se fossem reais. Tal constituiria uma clara falta de respeito perante as situações reais de muitos milhares de portugueses que se viram confrontados com situações de verdadeiro desemprego e privação. Se tal tiver acontecido (não sei se sim, se não), será caso para parafrasear o próprio cartaz numa recomendação dirigida agora ao PS: “Não brinquem com os números, respeitem as pessoas”.

Uma literatura sem personagens


Rui Rocha,

A contabilidade das rivalidades, fobias, invejas, choques e altercações entre escritores é tão longa que daria, ela própria, um romance grande ou até, eventualmente, um grande romance. Poucos terão atingido, é certo, os patamares de violência verbal de Mark Twain. Sobre Jane Austen, só para dar um exemplo, Twain afirmou que, depois de ler Orgulho e Preconceito, era tomado por uma indomável vontade de “desenterrar a autora e de a golpear no crânio com a sua (dela) própria tíbia”. Uma bela metáfora. Esperemos… Mas, para além do prolífico Twain, não faltam casos de mimos entre escritores. Sobre Hemingway disse Faulkner que “nunca foi conhecido por utilizar palavras que obrigassem o leitor a usar um dicionário”. E, no uso de direito de resposta, Hemingway não evitou um contido “pobre Faulkner que acredita que os grandes sentimentos vêm das grandes palavras”. Virginia Woolf também não foi meiga com Joyce: “Ulisses é o trabalho de um universitário entediado enquanto espreme as suas borbulhas”. Ou algo do género. Como meigos não foram Vargas Llosa e Garcia Márquez quando decidiram discutir o mérito das suas obras, literárias ou mais prosaicas, não se sabe, ao murro e à estalada. Pois bem. Se tudo isto é normal, se os escritores, grandes ou menores, não deixam por isso ou por causa disso de serem humanos, sujeitos às misérias das invejas que nos roem, dos odiozinhos que nos assolam, das dores de cotovelo que nos comem as articulações e a lucidez, é natural que os escritores portugueses também não tenham escapado. E aí tivemos Saramago e Lobo Antunes a prová-lo. Todavia, se os autores portugeses,  nesta coisa da ciumeira e do picanço, não fogem da comezinha normalidade, apresentam todavia uma nota de originalidade que me intriga. A literatura faz-se dos escritores, das obras, das ideias, do estilo. Mas também se faz das personagens. E aí estão, quantas absolutamente inesquecíveis, Quixote, Daedalus, Madame Bovary, Sherlock Holmes, Harry Potter, Tom Sawyer, Raskolnikov, Josef K, Alice, Leopold Bloom, Ana Karenina, Miguel Strogoff e tantas, tantas, que se fizeram muitas vezes maiores do que os autores, maiores do que a obra. Ora, como se sofresse de uma anomalia genética, a literatura portuguesa, tendo produzido grandes obras e escritores, nunca foi capaz de dar ao mundo extraordinárias personagens. Às personangens portuguesas falta invariavelmente espessura, golpe de asa, coragem e liberdade para se soltarem das páginas dos livros em que nasceram, abraçando a universalidade. Temos uma literatura de escritores, de livros, de estilos, de pensamento, mas não uma literatura de personagens. Como se os autores, para além das corriqueiras rivalidades com outros escritores, agissem deliberadamente com o objectivo de abafar as pessoas fictícas que dão à luz, não lhes permitindo superar em fama e proveito o próprio criador.

À atenção dos marketeers do PS


Rui Rocha,

Pelo visto, os famosos cartazes do PS vão ser retirados. Os turistas que nos visitam por estas alturas perdem assim um dos aspectos mais pitorescos da nossa paisagem. Terão de conformar-se. Ainda ficam o sol, o mar, a afectuosidade das gentes, a história e a gastronomia. Em todo o caso, parece que a missão foi cumprida. Pretendia-se introduzir uma uma linguagem de ruptura com a comunicação política corrente para marcar a viragem de página e reforçar a associação de confiança a António Costa e ao PS? Objectivo alcançado. Agora fica o desafio de manter o nível da comunicação. Não querendo intrometer-me no trabalho de Edson Athayde, que nestas coisas não precisa de lições de ninguém, proponho, para começo de conversa, uma nova geração de outdoors do PS:

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