Negar o óbvio é tão fácil. Difícil é perceber o óbvio para o poder negar.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Negar o óbvio é tão fácil. Difícil é perceber o óbvio para o poder negar.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Não creio que seja novidade para alguém o estado clínico de Iker Casillas, guarda-redes espanhol ao serviço do FC Porto, que sofreu um enfarte agudo do miocárdio durante o treino. Felizmente Casillas está bem, está estável e com o problema cardíaco resolvido, mas outros houve, com o músculo mais debilitado, que não foram tão afortunados.
Algumas situações têm prognóstico muito reservado. Em outras menos graves, recorre-se a pacemakers e ao novíssimo HeartMate3, por exemplo, restando a solução do transplante com compatibilidade comprovada para aqueles casos considerados inviáveis do ponto de vista imunitário.
Um transplante bem sucedido e o paciente poderá viver alguns (vários) anos com o seu novo coração.
Como me foi dado a aprofundar recentemente que “não há comportamento humano que não tenha origem biológica”, poderei inferir que o órgão transplantado poderá ter um comportamento errático, por conflitos de informação no código genético existente no DNA e RNA? O dogma central da biologia sintetizará o código comportamental existente num músculo estranho à sua essência? Será pertinente cogitar que o paciente passaria a viver com dois códigos genéticos distintos, o que o tornaria na mítica quimera?
Claro que Hollywood pensou nisto tudo desde os primórdios, com o monstro de Frankenstein possuidor de um músculo em processo de decomposição reavivado por um desfibrilador trovejante, mais humano do que muito músculo pulsante. Poderemos considerar o transplante do Prometeu Moderno, como o primeiro transplante de coração de que há narrativa, ficcionada que seja, em que o comportamento tem origem biológica, apesar de se focar essencialmente mais na mecânica do que na química do processo da criação.
Menosprezando os muitos entraves e obstáculos que todas as “logias” possam colocar, é legítimo cosiderar que suturar um coração e vê-lo palpitar dentro de um peito clinicamente morto será o primeiro passo para um complexo de Deus?
Cogito ergo sum, ou então não.
Agosto já não cheira a Agosto.
O odor que paira no ar traz uma mistura de pó, fumo de escape, lixo, plástico quente, beatas ressequidas, cozinhados gordurentos e transpiração.
Agosto começava em Nandufe com o perfume das estevas, das azedeiras e da hortelã. Cheirava a verde pelas veredas estreitinhas e húmidas que iam da casa até ao rio , passando pelo tanque das lavadeiras onde o cheiro a azul e branco acompanhava o caminho por meio das silvas até à grande balsa feita com madeiras velhas e quatro bidons vermelhos de ferrugem, a cuja passagem os alfaiates moviam apressadamente as patas para fugir de onde o espelho abria em par. O ar era morno e doce , os olhos brilhavam acima dos pomos rosados e o tempo tinha milhares de minutos alegres e preguiçosos.
Agosto acabava em Alvor, com o cheiro a mar, a sal e a sorvete de morango. Os robalos pulavam na lota, o carvão crepitava com fumo almiscarado . O sol quente doirava a pele lentamente , naquele compasso arrastado das tardes de calmaria que convidavam à leitura e à modorra. O mar estava invariavelmente frio com dias de caldo verde, em que a temperatura da água convidava ao demolhe prolongado. Inesquecível o perfume do óleo de coco misturado com azul transparente e límpido.
Já não consigo encontrar o Agosto, nem nos aromas, nem na cor ou no sabor .
Agosto envelheceu mal. Tornou-se obeso, salobro, desagradável até. Agosto sucumbiu aos vícios humanos e embruteceu.
Não via a Maria João vai para 20 anos. Eramos as marronas da turma, companheiras de carteira e cúmplices, durante os dois últimos anos de liceu, naquele palacete dos Condes da Ribeira Grande, hoje em vias de se tornar Hotel Museu.
Curiosamente a Maria João está uma elegância. Ela que era referida carinhosamente como “a gordinha” conseguiu uma silhueta curvilínea e mantém uma forma impecável. Confesso que senti uma ponta de inveja e saudade de mim, de quando éramos as duas contra as revolucionárias de Santo Amaro, as que votavam nas greves para poderem ir para a praia.
Conversámos horas sobre tudo, sobretudo sobre as nossas peripécias de miúdas que em meses cresceram anos. As nossas campanhas no Liceu para as eleições presidenciais foram loucas. Apoiante incondicional da UEC e de Octávio Pato, a Maria João colava os seus cartazes por cima dos meus e pintava bigodinhos de Hitler nos “meus” Ramalho Eanes. No fim do dia arrumávamos as trouxas e seguíamos a rir que nem umas malucas das peripécias do dia. Foi sempre assim. Unia-nos uma forte amizade e uma loucura saudável que todas as colegas e professores aceitavam, apreciavam e até acarinhavam. Depois das escaramuças ideológicas, a política ficava sempre relegada para aquele plano em que não belisca a amizade.
A Maria João nunca teve filhos. Foi como cooperante de PCP para as ex-colónias e o que viu e viveu por lá marcou-a de tal modo, que a ideia de pôr filhos no mundo deixou de fazer sentido.
Senti-a calada e reticente durante grande parte do tempo em que tagarelámos interruptamente, mais eu e as minhas lembranças. A dado momento olhou-me fixamente, apenas para dizer que o “terceiro marido” era a Guilhermina Parada, que estavam juntas há quase 10 anos e que nunca se tinha sentido tão realizada.
Sorri-lhe. Depois de um amigo e colega se revelar transsexual e de o meu surfista dourado, a minha grande paixão de adolescente me apresentar o marido, ver a minha melhor amiga feliz com quem escolheu para companheira, só me pode encher de alegria.
A Maria João continua a dar aulas, contando os dias para a reforma dourada que ambiciona, repleta de projectos e planos para uma volta ao mundo a dois. Falava da itinerários, povos culturas, paisagens… ah a reforma, são apenas mais cinco anos.
Despedimo-nos com a promessa de não esperarmos outros 20 anos, até porque quem sabe, nem os temos para esperar.
Quem sabe nem cinco anos teremos e a utópica reforma nunca chegará. Penso nisso todos os dias.