Até onde desceremos?


Sérgio de Almeida Correia,

Para lá das lutas políticas, do confronto de ideias, bem para lá do patamar da ética, onde tudo se confronta e tudo se dilui, existe um outro que traz à superfície aquilo que de mais bárbaro possuímos. Fruto da desregulação dos mercados, do alheamento dos Estados, das crises, das catástrofes naturais, da incompetência dos governantes ou da nossa própria ignorância, há sempre qualquer coisa mais que nos faz olhar para dentro e temer o pior. Diariamente somos confrontados com notícias que nos dão conta da desumanização progressiva da nossa espécie e de um aumento desmesurado da crueldade em relação ao próximo. A forma como as nossas sociedades têm tratado os deserdados da sorte, os emigrantes, as crianças e os velhos, ou como se aceita a violência, é algo que hoje tem tanto de banal como de inaudito. Esta notícia do El Confidencial faz-nos mergulhar ainda mais no buraco da alma humana. A utilização de deficientes mentais para a realização de combates numa escola pública de Corpus Christi (Texas) faz-me perguntar até onde seremos capazes de descer. Perante isto, falar de democracia, discutir as eleições, a pantomina do 31 da Armada ou o défice, torna-se surrealista. É nestas alturas que sinto verdadeiro asco da minha condição.  Não há limite para a barbárie. Antes coral nos mares do Sul. Ou, como escreveu o Ruy Cinatti, a purga pelo fogo. E não sei se seria suficiente.

6 comentários em “Até onde desceremos?”

    1. “Até onde desceremos?”

      Citando o Anarca Constipado: Quando parecer que batemos no fundo eis que alguém envia uma retro-escavadora e acrescenta mais uns KMs ao buraco…

  1. Caro Sérgio, este teu apontamento é excelente!
    Vivemos num mundo onde essas situações deixaram de impressionar. Ou melhor, as pessoas impressionam-se, mas cinco minutos depois já esqueceram, porque têm de tratar das suas vidinhas. O ser humano é cada vez mais bárbaro, mas anda distraído e feliz, desde que tenha acesso à parafernália de inutilidades que a sociedade de consumo lhe oferece.

  2. Obrigada por estas palavras, Sérgio. De vez em quando é bom que alguém nos faça repor as prioridades e nos obrigue a devolver cada coisa à sua devida proporção. Este texto serve-nos de espelho, e precisamos cada vez mais de um espelho limpo e claro, mesmo que nos mostre o que não queremos ver.

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