Estava escrito. Foi a licenciatura…
Leio agora os biitaites e os de profundis que perpassam na imprensa e nas redes sociais e, sem espanto, verifico como os comentadores se espremem em ataques de tiques e se esmifram em patéticas taquipneias, agarrados às moralizadoras interpretações pavlovianas do costume, como se delas lhes viesse a santidade cívica que pretendem.
Somos um povo baralhado, não há dúvida…
O caso, em si nada edificante, justificará tamanha sanha justiceira dos analistas, por oposição a outros da nossa memória recente?
– E a Sócrates, alguém lhe exigiu a cabeça numa situação que foi, em tudo, eticamente similar?
Pasmo com a dualidade de tantos doutores e engenheiros, provindos sabe-se lá de que universidades da mula russa.
Estava escrito, sim – mas por outras razões – que saisse Miguel Relvas, o compagnon de route de Pedro Passos Coelho.
Aquele que o assistiu pelas antecâmaras do poder, preparando, palmo a palmo, a vitória eleitoral contra Manuela Ferreira Leite e, depois, contra Paulo Rangel e Aguiar Branco. E que, uma vez limpo o caminho, preparou de seguida o seu triunfo em eleições legislativas nacionais, rumo à suma e escorregadia cadeira de primeiro-ministro.
Mas com ele, saiará sobretudo o resto: um par de boas pegas, mesmo de cernelha, às sinecuras da RTP e das autarquias locais.
O poder é antropófago, exige cabeças.
E o povo é feliz.
– Não sentem este enorme alívio nacional?


Se for coerente, Nuno Crato também anulará a licenciatura de José Sócrates.
Fico à espera… sentado…
Também eu. Voilà la différence.
Alívio?! Não, nem por sombras!
Há um meio termo entre guilhotinar Miguel Relvas e achar que ele é só mais um entre muitos (já agora: sim, muita gente pediu a cabeça de Sócrates pelo mesmo, e pediu muito bem).
No meu caso, e para não fugir à sua questão, dá-me um prazer pequenino (mas não envergonhado) vê-lo pelas costas, mesmo sabendo que nada mudará e que, para ele, a possibilidade de «novas oportunidades» começa verdadeiramente agora.
Claro: e é esse distanciamento que faz falta e a ele que apelo.
Seja como for, o perigo destas dramatizações é que, em situações difíceis como a nossa, qualquer coisa que mude e cabeça que role, neste momento, dá lagosta a comer aos patetas de serviço.
Grande post Laura, assino por baixo.
Quantos destes doutores e engenheiros que andam a arrastar os fundilhos das calças pelas cadeiras do comentário televisivo terão conseguido os seus canudinhos com passagens administrativas e outros truques parecidos?
Exactamente, Alexandre. Muitos rabos de palha. Mas muitos!
É o que sinto. E disseste-o tão bem!
Ainda bem que concordas. Porque é mero bom senso, não é, Teresa? Estes moralistas de pacotilha não servem, nem na paróquia dos próprios.
Sinto por aí é uma enorme azia.
Perdeu o chefe/tacho foi?
Uma descarga de pólvora completamente ao lado, Pedro Almeida. Errou em toda a linha: lamento muito.
Mas obrigada pelo seu comentário, que muito agradeço, mesmo… Por ser a oportuna e retumbante ilustração da mentalidadezinha portuguesa, agora noutra típica faceta daquela própria idiossincrasia que refiro no post: em cada moralizador de paróquia, seguidista, mas bota abaixista quando a sorte muda, mora sempre o lambe botas do chefe.
Não julgue os outros por si.
Sim, sinto-me aliviada, Laura. Em momento algum a história de Sócrates, que é diferente apesar de tudo, pode legitimar alguém que tem um percurso académico duvidoso, ou melhor, percurso académico nenhum, uma trafulhice para desvirtuar o espírito da lei e esfregar na cara dos pobres de espírito um canudo de coisa nenhuma. É bom que saia, pena ter sido tão tarde.
Diferente, como, Leonor? Por não vir adornada com o ‘plus’ de umas tramas judiciais, só se for…
E não: não legitimo nada na história da licenciatura de Relvas. Pelo contrário. Acho muito bem que Nuno Crato leve as coisas até ao fim. Muito bem mesmo.
Mas também te digo… nunca senti Relvas a esfregar-me o canudo na cara. Não me lembro de tal coisa.
Aliás, o caso é tão estúpido que um político como ele nem precisava fabricar títulos, porque – goste-se ou não – tem aquilo que falta a muitos: CV e provas dadas.
Até nisso o patíbulo que escolheram (e escolheu) é caricato.
Não foi o Relvas que nos esfregou o canudo na cara, era uma imagem. O que eu queria dizer é que neste país é preciso ter canudo para ascender a alguns cargos políticos.
Aí é que mora o ‘mal cultural’, Leonor… Estamos de acordo.
Trabalhei anos e anos num meio onde grassavam decisores políticos de 1º grau sem habilitações superiores. E sabe Deus quantas vezes deitei as mãos à cabeça por constatar o quanto careciam de bases para votar matérias cujo alcance não podiam abarcar, na sua mera essência.
Portugal tem um nível de tecnicidade baixo em múltiplos patamares, onde pontificam os actores sociais.
Mas coisa diferente é ficarmos ‘possidónios do canudo’ e não percebermos que há muito caminho que se faz fora das bancadas dos anfiteatros de escola. É isso.
Ou pedir equivalências ad nauseam. É negar a essência da formação superior.
Completamente.
O patíbulo que ele próprio escolheu. Já o disse.
Tenho pena.
A questão do suposto regozijo pelo pedido de demissão de Miguel Relvas nada tem factores Pavlovianos ou revanchistas. É mais fruto do sentimento de profunda indignação pela forma como esta gente (obviamente não me refiro exclusivamente a MR) se serve da proximidade do poder para colher frutos, que de outra forma, lhes estariam vedados por mérito próprio. Basta analisar os seus CV’s, começando no actual leader do PSD e PM e estendendo-se ao outro lado da barricada, com José Seguro, outro exemplar produto das “Universidades Privadas”, das Universidades de Verão partidárias e das Jotas, para nos convencermos de que a escolha, parafraseando Fernando Pessoa, é entre um Zero e Coisa Nenhuma. Relvas não representa nada, é tão só mais um átomo desta inapelável mediocridade que caracteriza, desde tempos imemoriais, os portugueses.
Coisa nenhuma, é? Hum…
Fala de MR com conhecimento do que ele fez e não fez? – A sério?
Mande daí o seu CV.
Hummm, gostaria imenso de poder satisfazer a sua incomensurável curiosidade, mas perdoar-me-á tal de nada contribuiria para enriquecer o post “Até o comemos”. Quanto aos CV’s das citadas personagens, eles estão acessíveis a todo e qualquer mortal. E são lindos de morrer… de nojo ou de apoplexia!
Cumprimentos.
A minha curiosidade é nula, mas já que precisa de legenda, perceba então que apenas faço questão de não destratar um comentador, compreende?
É terrível ter de explicar a boa educação… que seca…
Sob o sortilégio de uma pessoa detentora de um CV desconhecido, fica-nos então o testemunho de um não- mortal, o seu. Confortavelmente invisível e, claro, opinador ‘ex cathedra’.
Também penso que o Relvas já há muito deveria ter saído do governo. Mas também me parece que agora muitos dos que falam, calaram a vergonha da licenciatura do Sócrates, o que é feio.
Dito isto, faço votos para que, no meu país, ser ou não ser licenciado, ter ou não ter um canudo, deixe de servir de condição para ser ou não ministro, mas que seja apreciado apenas o que cada um fez na vida, o seu carácter e a sua lisura. Quando isso acontecer, estou convencido que a qualidade dos nossos governos melhorará bastante.
Tiro ao Alvo: o seu ‘statement’ corresponde ao meu ‘understatement’.
De facto, este é o provincianismo nacional no seu melhor, o dos doutores e engenheiros de aviário, em que o título ainda confere preço acrescentado e valor facial ao portador… Como se bastasse.
E ainda por aí tanto canudeiro borlista caladinho…
Eu pertenço ao grupo do povo baralhado. Mas sou uma ‘baralhada’ que neste momento faz parte do tal pacote de “alívio nacional”.
Quanto ao ‘povo feliz’. Ainda não é por aí. Existe todo um caminho ainda pela frente. Se o povo se sentisse feliz só com a saída do Relvas, estaríamos muito mal. Muito trabalhinho ainda para ser feito…
Fico contente por si, Maria.
Trata-se de um começo auspicioso.
Bem escrito !
O que falta é mesmo coerência , imparcialidade e carácter , qualidades que muitos eleitos não têm dai a sanha que existe contra os políticos e bem pois quem semeia ventos colhe tempestades.
Vamos ver se surge algo positivo embora creia que não pois como o povo diz e bem : o que nasce torto , tarde ou nunca se endireita.
Relvas caiu para gáudio de muitos inclusive os que lhe teciam elogios em privado mas o que sobra ainda tem centelha suficiente para nos levar ao fim.
Quanto aos aspirantes é coisa nenhuma pois são fruto da mesma árvore.
É assim. William: o que interessa é que caia! Banana, coco ou ministro.
Está a defender um delito criminal num estado de direito?
=O lugar deste senhor é na prisão.
Assim como o de todos os burlões, corruptos e vigaristas que por ai campeiam.
Mas assim entendo aqueles, para quem a Constituição da Republica não conta para nada.
jojo, está a ‘apreender’ demais…
Eu não disse nada disso do que quer ler.
Fora esse comportamento desviante em causa – ilegítimo, censurável e abusivo – criminalizado como pretende, e teríamos amanhã mesmo um bunch incomensurável de detidos a encher os EP de Portugal.
Mas, claro: pode sempre fazer um a acção de formação junto dos juízes do TC.
Qual o lugar para essa gente?
Também tem rabos de palha?
Quem não deve não teme, apenas tem de ter medo de aldrabões e vigaristas.
Quem? Os do TC? Rabos de palha, não me consta.
Mas que começam a demonstrar gritantemente, se não o relativismo do sacrossanto princípio da legalidade, pelo menos a velha querela entre legitimidade e legalidade (realidade e lei), começa a ficar por demais evidente.
Acha?
Que tal o PR decretar o estado de guerra e suspender a constituição?
Houve um pandego que desempenha um cargo politico, que comparou a situação actual à guerra colonial.
Mas pandego em portugal é coisa que não falta.
Venho discordar. Puxo galões bloguísticos, para que não se diga que são meros aposteriorismos. Passei anos a protestar in-blog, até a exagerar, até a perder o tino, desesperado com o consulado socratista, essa destruição do país, porventura inicialmente inconsciente, depois calculada forma de (apenas) manter o poder. Até a indispor-me com amigos, até a cortar com amigos. Continuo irado, quem esteve com Sócrates até ao fim (até ao fim, que caminhos comuns podem-se apartar) traíu. Execrável personagem, até pela trapalhada da sua engenheirice, ali cabulada no fim. Sócrates brincava com o assunto em pleno conselho de ministros, dizia quem frequentava o mesmo. Deixemo-nos de coisas, o mal de Sócrates não é a licenciatura cabulada. Mas é também aquela licenciatura cabulada, atamancada (se é que isto se escreve), símbolo da desfaçatez, da mediocridade, do alarvismo arrivista.
Acontece, no entanto, que Sócrates estudou. Pouco, muito ou mal ou bem, não sei, não fui professor dele nem colega. Depois interrompeu e voltou para ser “senhor engenheiro” da maneira que, vergonhosamente, sabemos.
Acontece que Relvas não estudou. Pura e simplesmente. Não veio terminar nada no aldrabismo. Veio, totalmente, aldrabar.
E ao longo destes anos, mesmo de longe, tenho encontrado muito boa gente incomodada com estes aldrabismos. Sem Sporting nem Benfica – como tal me parece que o seu postal é redutor, como se todos fossemos membros holigões de claques partidárias.
Em relação aos comentários permito-me um comentário lateral: não sou anti-estado furioso. Nem na educação nem no resto. Mas agrada-me a ideia de que o estado não colonize a sociedade. Em muita coisa e, também, no ensino superior. Francamente não consigo perceber qual o défice de legitimidade que os licenciados (ou com outros graus) obtidos em universidades privadas têm para opinar, como cidadãos (já nem falo como trabalhadores) – e digo isto tendo estudado em universidade pública e sendo professor em universidade pública.
Finalmente. Relvas foi um bom ministro? Enfrentou interesses estabelecidos de contornos ilegítimos ou contrários ao bem comum, como depreendo do seu postal? Porventura. Discuta-se, com factos e opiniões. Tem um tipo que falsifica a sua formação uma legitimidade para governar? Eu acho que não tem. Nenhuma. Seja ele José ou Miguel. E, neste caso particular, pior ainda (malgré tout) sendo Miguel.
E discordarás sempre muito bem, jpt.
Mas eu não luto contra moinhos que não vejo, observo apenas aquilo a que assisto.
Tenho, também, espírito comparatístico: o normal e comum…
Carrego um CV alicerçado no que há de mais clássico e entediante do mundo: rijo e fiável, no que de objectivo tem, está claro, quando a coisa piava fino e não era para brincadeiras. Difícil, na pura acepção do termo. Por aí não vou…
– Universidades públicas e privadas? Quem falou nisso?
Embora o tema sirva lindamente a questão e eu pertença à mais velha dos tempos portugueses.
…
Branquear a titularidade académica de Relvas não está na minha agenda. Pelo contrário.
Só quero que não nos fiquemos por aí!
Às vezes é preciso dizer estas evidências.
A minha referência às universidades privadas não deriva do postal, sim do comentário colocado pelo comentador Paulo Gil, invectivando-as e a Seguro por delas derivar (não estou aqui a defender Seguro).
Regressando ao postal, assim mais a frio. Será óbvio que no pequeno-mundo do comentarismo político que abunda aí (vejo um pouco-pouco, muito pouco, na TV – e que brota muito da radialização da televisão, forma barata de encher as horas de emissão) e no bloguismo político, há muita gente entrincheirada, um pensamento topológico paupérrimo. E que o conteúdo do postal se lhes poderá aplicar. Mas não nos esqueçamos do fundamental: precisamos de melhor, de melhores gentes, de melhores práticas. Até mesmo de melhores erros.
saudações
Precisamos, sim, jpt…
Precisamos de melhor na vida política, e desde há muito tempo.
Melhor em sentido global: técnico, humano e ético. Algo que uma verdadeira universitas deveria dar, por vocação, mas também não dá.
Porque fugirão os melhores?…
O caso do Sócrates é bastante diferente. O Sócrates obteve um bacharelato numa escola pública. Esse bacharelato, nos dias de hoje, com Bolonha, já daria para uma licenciatura. O Relvas, como já foi dito antes nunca estudou.
“E o Sócrates, alguém lhe exigiu a cabeça”. Está a falar a sério? O Sócrates, exigiam-lhe a cabeça por não ter deixado gorjeta num restaurante. Antes do Relvas, e se calhar mesmo com o Relvas, não huove político mais perseguido que o Sócrates. Desde a sua suposta homosexualidade (recorde-se o episodio com o Santana Lopes), às duvidas de como é que ele paga as propinas em Paris. O Público deixou de ser um jornal para passar a ser a Newsletter contra Sócrates. As alegadas escutas feitas ao Presidente da República… enfim…
“Estava escrito, sim – mas por outras razões – que saisse Miguel Relvas”, concordo plenamente. A licenciatura é só a cereja no topo do bolo. Desmonstrasse ele um minimo de preparação para o cargo que ocupava, ainda lá estava. Mas não. foi incompetente desde o primeiro dia. Acho que o seu último acto oficial terá sido a nomeação do vendedor da banha da cobra do empreendedorismo, porque viu um video no youtube.
cenas underground : «esse bacharelato, nos dias de hoje, com Bolonha, já daria para uma licenciatura».
Vejo aí a sístole da pura essência do pensamento RVCC …
E o que não vale a velha 4.ª classe hoje em dia? O 9.º ano… E o velho 5.º ano dos liceus? O 12.º ano… E o velho 7ºano dos liceus? O bacharelato…
Tenha cuidado que ainda o contratam para ministrar a cadeira de «Introdução ao pensamento equivalenciar » …
… «Não houve político mais perseguido do que Sócrates».
(Ui, como a memória de Portugal pós-abril é curta!)
«Desde a sua suposta homossexualidade (…) às duvidas de como é que ele paga as propinas em Paris».
Acha isso perseguição? Pois eu não. Considero que é uma dúvida e uma dúvida pertinente para qualquer bom pai/mãe de família que lhe conheça a história.