As térmitas*


José Meireles Graça,

Não há demasiado tempo, qualifiquei Carlos Moedas como uma rolha do regime.

Reli o texto, que se baseava numa entrevista de Maria João Avilez (uma socialite do jornalismo político que tem muitas qualidades, mas não as suficientes para estar no meu altar de tais personalidades, um lugar escassamente povoado), e não tenho nada a retirar.

A certa altura, escrevi: Moedas é ainda muito novo e logo que acabe de ornar a Gulbenkian com as suas luzes pode bem ser que regresse à vida pública, através do seu partido de sempre.

Premonitório: Moedas é o candidato do PSD e CDS à Câmara de Lisboa. E tratasse-se apenas de eleger um intendente para os esgotos, arruamentos, jardins, trânsito, parques, licenciamento da construção e o mais de que se ocupam as câmaras, a mim, que não sou cidadão de Lisboa, tanto se me daria. Mesmo que o inenarrável Medina seja o típico autarca socialista: tachos para a família partidária (e, se respeitar a prata da casa socialista, para a propriamente dita), quadros pletóricos de funcionários, políticas urbanísticas e de trânsito erráticas uns dias, asneirentas outros, patrocínio de empresas municipais opacas e sôfregas, etc.; e ainda que tenha uma incomodativa visibilidade pública que obriga o resto do país a lobrigar-lhe a cara atónita e as banalidades de que se alivia, sob pretexto de que é um putativo sucessor de Costa.

Infelizmente, a Câmara de Lisboa não é como as outras: o país bastante, e os locais sobretudo, veem a cidade como a capital do Império que já não é, o centro cultural para o qual não há massa crítica e o sítio onde vive a nata (porque assim se considera, e o resto do país engole sem pestanejar a patranha) da cultura, da moda, da cozinha, do saber, do gosto e das tendências. Tudo óptimas razões, aliás, para parasitar o resto do rectângulo.

Mas é em Lisboa que está o centro do poder político e do económico. E, queira-se ou não (eu não quero, o que importa rigorosamente nada), o colar com que se enfeita o mayor local é interpretado como uma espécie de unção para voos mais altos. Mas isto ainda será o menos. O mais é que o resultado das autárquicas no país, e em particular em Lisboa, tem uma leitura nacional.

E em vez de abundar nos motivos porque é assim, e não de outra maneira, remeto para este artigo de Rui Ramos, de que não compro inteiramente os fundamentos, mas a cuja conclusão adiro: “O país não é Lisboa. Mas pode começar a mudar por Lisboa”.

A mudança é mais difícil porque o Chega!, encandeado pelo destino que julga que vai ter de ser o maior partido, se pôs fora de coligações. E porque a IL, a ser verdade o que conta Helena Matos, que não se costuma enganar, foi tratada com menoscabo por Rio, uma ilustração ambulante do princípio de Peter.

Na minha terra, por cujos destinos tenho um moderado interesse e cuja câmara é encabeçada igualmente por um socialista (as térmitas são um insecto muitíssimo difundido), nem preciso de saber quem é o candidato de direita – é nele que voto.

Assim em Lisboa façam o mesmo. Porque o país tem de mudar e vai mudar, só não sabemos é quando – mas quanto mais tarde pior.

* Publicado no Observador

10 comentários em “As térmitas*”

  1. Portanto: Carlos Moedas é uma rolha do regime mas o JMG recomenda o voto nele apenas e tão-somente para retirar da Câmara uma pessoa do PS e apenas e tão-somente porque o maior partido da direita optou por apresentar essa rolha como seu candidato.
    Parece-me uma argumentação fracota a favor de uma rolha.

  2. ” Nem preciso de saber quem é o candidato de direita – é nele que voto.”
    Ora aqui está o exemplo de um voto consciente, sério e informado.
    E é esta mesma gente que se queixa do excesso de boys.
    A inteligência política é tão grande que preferem um governo de direita com um chega maioritário e um PSD debilitado, do que um governo centro esquerda com um PSD ainda com alguma autoridade.
    A pensar assim, não há dúvida, iríamos ter um governo com uma estabilidade e uma duração que só iria beneficiar Portugal.

  3. o resultado das autárquicas no país, e em particular em Lisboa, tem uma leitura nacional

    Não creio que assim seja. Todos os jornalistas sabem que Lisboa, tal como qualquer município em particular, é um caso especial, com uma correlação de forças especial. Lisboa tem uma população com certas caraterísticas e preferências, diferentes das de outras cidades ou municípios. (A título de exemplo, veja-se a votação que a IL obtem em Lisboa, muito mais alta do que em qualquer outra cidade do país – exceto precisamente as cidades-satélite de Lisboa.) Não creio portanto que a votação no município de Lisboa seja alguma vez apontada como exibindo qualquer tendência a nível nacional.

    1. “Não creio que assim seja.”

      É melhor crer. Se forem de Esquerda é assim que funciona. Porque o complexo jornalista que está na maioria em Lisboa fala sempre mais e melhor de quem está próximo e pensa como eles.
      Sampaio, Costa são bons exemplos.

  4. na santa terrinha não votarei PS (um dinossaurio), mas a estadia do PSD na autarquia também não deixou boas recordações. Até aparecer uma lista independente com pessoas que vivam e conheçam o concelho, vai branco ou partido da terra

  5. Bem, Moedas parece-me ser da região da cortiça. Logo, fica-lhe bem o título e melhor ficaria se doasse este produto para isolamento termo-acústico das habitações em Lisboa.
    Lisboa e Porto são na realidade aglomerados onde encontro mais provincianos, e provincianas, para não discriminar, por m2. Não fossem as cidadãs de leste, bonitas, cultas, afáveis e cosmopolitas, a dar vida e estas terras seriam uma pasmaceira.
    Portanto, como cidadão penitente só me interessarei pela política autárquica destas aldeias quando os mayor´s, ou menores, discursarem sobre uma maior abertura das terrinhas a esta dimensão universal, para que um marinheiro, pelos sete mares celestiais andarilho, encontre refúgio capaz e vistas florais e monumentais dignas de um estado-novo.

  6. “Infelizmente, a Câmara de Lisboa não é como as outras: o país bastante, e os locais sobretudo, veem a cidade como a capital do Império que já não é, o centro cultural para o qual não há massa crítica e o sítio onde vive a nata (porque assim se considera, e o resto do país engole sem pestanejar a patranha) da cultura, da moda, da cozinha, do saber, do gosto e das tendências. Tudo óptimas razões, aliás, para parasitar o resto do rectângulo.”
    Bela pérola o texto acima.

    Mas o voto não faz sentido. Carlos Moeda não é de direita é um aparatchik do globalismo. Ele não vai dizer não a nenhuma moda do momento. E por isso Carlos Moedas é um perigo para a Liberdade.

    “It’s naive to think that you wouldn’t have taken part in historical atrocities once considered normal if you embrace all the trendy ideas of today.”
    Ayishat Akanbi

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