Pacheco Pereira, ficamos a saber pelo próprio, foi convidado para ir (imagino que cozinhar) ao programa de Cristina Ferreira e declinou. Fez muito bem, pode até ser que tenha dedo para a culinária mas é improvável que conseguisse estar calado.
Cristina Ferreira escreveu um livro, parece que a queixar-se dos insultos de que é objecto nas redes sociais, e Pacheco transcreve um, odioso, de um tal Paulo, um desses milhares de anónimos que expectoram a sua bruteza com impunidade, e que reza assim:
“esta cristina na cama deve ser um cronho, k eu digo vos uma coisa, avaliar pela pessoa que se vê na tv, na cama deve ser um trambolho muita fava pouco vinho, vai te cronho, deves pensar k es a ultima bolacha do pacote, velha caduca…” .
Pacheco acha o comentário um crime, porque “o que é lei cá fora devia ser lei lá dentro”.
Não vejo onde está o crime: ter opiniões idiotas é uma banalidade, haver quem as exprima grosseiramente num espaço público onde os visados não estão fisicamente presentes uma inevitabilidade, e combater este estado de coisas por forma diferente da indiferença um perigo. Já hoje os donos das redes se permitem censurar sem apelo posts sob pretexto dos grandes males que pode causar a difusão de ideias que não subscrevem. Mas nunca houve limitações à liberdade de expressão com outro fundamento, pelo que convinha que quem verbera este estado de coisas se desse ao excessivo trabalho de explicar como o remediaria.
Cristina, se se quer pôr ao abrigo da contemplação destes dejectos, tem bom remédio: apaga os comentários no seu mural e bloqueia os autores. Pode fazê-lo no Facebook, ignoro se também no Twitter (que é de todo o modo um esgoto a céu aberto mas cuja frequência não é obrigatória – não é razoável frequentar um bordel e apresentar queixa porque lá há putas).
Não fez, parece, nada disto: prefere reclamar ó pra mim que sou mulher e vítima impotente de invejosos, machistas, misóginos, malcriados, brutos e não sei quê. Logo eu, que nos intervalos do griteiro agora até escrevo livros, tenho uma alma sensível e recebo no meu programa a nata da nação, para o efeito de manusear tachos e panelas e emitir juízos sobre maravalhas e cusquices.
Isto já é um clássico: os magistrados da opinião, Pacheco entre outros, acham um escândalo que o Chico Freitas, de Freamunde, que eventualmente tem dúvidas sobre se a Terra é redonda, escreve como fala julgando que a gramática é uma doença rara, os políticos são uma corja de ladrões e os famosos gente que poderia legitimamente cobrir de perdigotos e chapadas, vá para as redes dizer da sua justiça e, pior, angariar uma data de laiques e seguidores.
É isto que dói: agora os brutos saíram do tasco e da bisca lambida, e as punhadas que já não dão na mesa sebenta, e os arrotos depois do copo de três, vão dá-los nas redes, para deleite dos outros broncos.
Pode o bom do José Pacheco sossegar. No final do artigo diz que o elogio da denúncia de Cristina Ferreira é para “vosso escarmento, vosso opróbrio, vosso desluzimento, vossa vergonha e, se tiverem de ir ao dicionário para perceber algumas palavras, ao menos ganha-se alguma coisa”. Mas não é esta gentinha malcriada que pode aproveitar as lições de Pacheco, enriquecendo a sua bagagem cultural com aquelas preciosidades lexicais – não o liam antes, e não o leem agora. De modo que não são concorrência. E, se fossem, o que Pacheco e os outros Pachecos teriam a fazer era dar ao pedal – tenham lá paciência.

“[N]ão é razoável frequentar um bordel e apresentar queixa porque lá há putas”
Não creio que haja muito mais a dizer acerca do assunto do Pacheco e do problema da Cristina. Nada que se igual em economia e elegância, pelo menos.
Deste modo, qual pode ser o problema do Pacheco, descartada -por ele próprio – a hipótese da venalidade?
Imagina que seja a hipótese de a casa dele ser menos frequentada que a das vizinhas. Tem remédio. Que é do ficar a falar com os amigos.
“[N]ão o liam antes, e não o leem agora. De modo que não são concorrência.”
Pois não. Ele sabe-o. O problema do Pacheco não é esse. O problema dele é descobrir-se a escrever e a fazer-se ouvir em jornais e canais “de referência” fora de horas e que até o presidente sousa sabe serem menos importantes que o mundo da cristina.
Ficamos agora a saber que até este último já não se sente muito bem.
O objectivo é reinstituir a Censura.
Não será bem isso. Como aparentemente, na qualidade de intectual da casa, se recusou ao beija-mão da patroa, achou prudente a recensão – afinal de contas sempre se trata de um livro… Quem sabe até se não passa para horário mais nobre?
O PACHECO veio a público defender as Cristinas Ferreiras da nossa vida. Esquece-se do dano que causam as larachas da senhora; ela tem todo o direito de as dizer…mas não esqueçamos que a televisão não é a mesma coisa que a feira ali perto.
Parabéns pelo comentário. Ainda à luz aqui, no subterrâneo do convento.
Para se implementar certas políticas do passado é preciso ajuda das Cristinas Ferreiras para parecerem que são o futuro. Que melhor maneira de a coaptar que aparecer -a- defendê-la.
«Cristina, se se quer pôr ao abrigo da contemplação destes dejectos, tem bom remédio: apaga os comentários no seu mural e bloqueia os autores.»
«Pode fazê-lo no Facebook»… e “José Meireles Graça”, acredite-me que eu até o fiz mas, uns meses depois, o emplastro que, a propósito de um assunto que tinha vindo a discutir com ele, no Facebook, acabou por voltar à carga e ainda por cima, como meu “amigo”.
O Facebook tem umas regras/práticas “sui generis”: em Abril passado fui proibido (impossibilitado) de “postar” fosse o que fosse nele, porque tinha sido banido da “comunidade” por ter postado algures, entre outros, comentários como o de que «Mais um excelente artigo do PP»… notificaram-me, a propósito deles todos (num total de 3) de que «This comment goes against our Community Standards on spam»; 2 meses depois descobri que já o podia fazer. Aparentemente, fui perdoado!
Não me admira de todo que «Não vej(a) onde está o crime» de “postar” o que o «tal Paulo» “postou”: afinal, para si, até é apenas uma questão de «opiniões idiotas»!
“Este blog tem comentários moderados.” – aviso aos que tentam inserir aqui no DO, qualquer comentário.
E, digo eu, sabe-se lá para/porquê.. e até quem é que, de todos os “politicamente incorrectos” aqui do blogue, têm recorrido a esse recurso “politicamente correcto” – nos meus “casos” até o sei!… e outra certeza que tenho é a de que, por isso, estou de acordo quando diz que «os magistrados da opinião, Pacheco entre outros, acham um escândalo que o Chico Freitas, de Freamunde, que eventualmente tem dúvidas sobre se a Terra é redonda, escreve como fala julgando que a gramática é uma doença rara, os políticos são uma corja de ladrões e (…)» blá-blá-blá… é que há magistrados e magistradinhos um pouco por todo o lado.
Mais voltando ao assunto: recomendo-lhe, caso ainda não o tenha feito, a leitura do “caso” que a Fernanda Câncio até apresentou no DN… o PP vive nos seus arquivos.
As Cristinas podem ofender e injuriar, podem defecar sentenças sobre a vida alheia e dar lições de moral, seja no face, na TV ou nas revistas.
Já o oposto é “bu-ling”.
Também aprecio que façam vida de exporem a sua vida e dos seus em redor, mas quando não lhes interessa pedem aos seguidores que respeitem a sua privacidade, não se metam nas suas vidas íntimas e não emitam opiniões (likes, certo?).
O que é um cronho?
“Ninguém chama impunemente o outro de imbecil sem se dar conta de que a burrice alheia é nada menos do que um espelho que nos reflecte. Um espelho permanente, preciso e fiel.”
Jean Claude Carriére
Excelente artigo e boa escrita.
Pacheco acha o comentário um crime, porque “o que é lei cá fora devia ser lei lá dentro”.
Pois, mas não está na lei que seja crime dizer que uma mulher seja má na cama.
É crime difamar, destruir a honra de alguém. Mas dificilmente se concebe que isso abarque o dizer que uma mulher (ou um homem) não desempenha bem no sexo.
O Pacheco, como bom monárquico conservador, defende que o comentário deve estar reservado para as elites.
Na sua encarnação há umas centenas de anos, terá dito que essa coisa de imprimir folhas de papel com palavras e deixar um qualquer literato lê-las ao povo ignorante era um crime.
A plebe tem de ouvir e tentar aprender, dentro das suas limitações cognitivas. Mas calada.
“O Pacheco, como bom monárquico conservador…”
Um “ne plus ultra” do humor negro.