As listas do PSD: quatro notas


josegomesandre,

Este tema começa a ficar estafado, por isso vou fazer quatro observações muito breves.

1. Lamento a incapacidade de Manuela Ferreira Leite adoptar uma postura conciliatória com a oposição interna. Tinha um bom exemplo dos EUA para perceber que muitas vezes a "desunião" faz a força.

2. A escolha de António Preto e Helena Lopes da Costa é desastrada porque retira ao PSD um dos argumentos mais fortes que vinha marcando o partido: a sua luta pela transparência e valores morais na vida política. Dir-me-ão que eram aliados importantes? Mais uma razão para lhes explicar a necessidade de os excluir das listas.

3. Não sou um dos apologistas de que a política precisa de ser modernaça (campo que deixo para a intellegentsia socialista), mas teria sido interessante promover alguma renovação geracional no grupo parlamentar.

4. Dito isto, importa perceber que uma lista para deputados da AR não é a formação de um Governo, nem nada que se pareça. O parlamento é hoje um órgão com um poder limitado no nosso sistema político, que na prática oscila entre as decisões do executivo e a sanção (ou veto) presidencial. Ainda que estas listas sejam decepcionantes, o PSD representa acima de tudo uma alternativa de Governo, e é isso que vai estar em causa no dia 27 de Setembro.

[também no Jamais].

12 comentários em “As listas do PSD: quatro notas”

  1. Estas listas de candidatos do PSD são mais do mesmo..Deus Pinheiro…PP… etc. Pobre Nação…dispensavas estes filhos. Enfim que são os anos fim.

  2. José: concordo, obviamente, com os pontos 1, 2 e 3. Mas no 4, tenho as minhas objecções. É verdade que o parlamento é uma casa desacreditada, mas pode-se e deve-se mudar essa situação. A lista de MFL faz precisamente o contrário, acentua o descrédito da instituição e promove a cultura de que o deputado é um ser dependente, cujo objectivo final é agradar o líder (diga-se que as escolhas de Sócrates vão no mesmo sentido). A lista dos deputados não é a formação de um governo? Certamente. Mas é um sinal claro sobre o que ai vem, e de um partido que tem dado tão poucos sinais sobre como pensa governar, é um sinal com relevância reforçada. Um abraço.

    1. Eu limitei-me a fazer uma observação sobre a circunstância actual (i.e., de que o parlamento é hoje pouco mais que nada no nosso sistema político). Não corresponde de todo ao que eu desejava que ele pudesse ser. Bastaria para isso que o PSD tivesse apresentado umas listas de qualidade? Não sejamos ingénuos… Seriam precisas muito mais reformas. Tinha dado jeito para credibilizar o parlamento? Absolutamente de acordo. Um abraço!

  3. José, se Helena Lopes da Costa e António Preto são aliados, a tua conclusão é perfeitamente lúcida: «Mais uma razão para lhes explicar a necessidade de os excluir da listas.»
    Mais lúcida ainda a tua observação se torna quando olhamos para a trás: Marques Mendes não teve qualquer dúvida entre apoiar autarcas populares ou perder câmaras como Gondomar e Oeiras. Perdeu-as, assumiu e saiu direito.

    1. Obrigado pelo teu comentário, caro João. Tenho pensado em Marques Mendes por estes dias: um político inábil, em muitas circunstâncias, mas com os princípios certos. Talvez pudesse emprestá-los a quem os parece ter perdido de vista…

  4. Caro José: de facto, o mínimo que se pode dizer é que estas listas são decepcionantes. A tal ponto que até Nuno Morais Sarmento, presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do partido, recusou integrá-las. A maior ponte com a sociedade civil é a inclusão de MJNP por Lisboa – algo incompreensível porque a senhora apoia em simultâneo a candidatura rival do PSD pela capital, com eleições marcadas para 15 dias depois. Além do mais, e sabendo-se a péssima relação que MJNP tem com Paulo Portas, isto só dificulta um eventual acordo pós-eleitoral com o CDS do qual o PSD poderá vir a precisar como de pão para a boca.
    De resto, o que há? «Renovação» com Costa Neves, Couto dos Santos, Deus Pinheiro, Montalvão Machado, Costa Neves, Aguiar Branco, Miguel Almeida? Falsos candidatos como Alberto João Jardim? Candidatos-arguidos como o homem da mala?
    Reforço da matriz social-democrata do partido, vital para o PSD conquistar o centro? Nem sombras.
    MFL cedeu à tentação dos ajustes de contas numa altura em que o partido necessitava, mais que nunca, de cerrar fileiras numas eleições que serão disputadas palmo a palmo, voto a voto. Como se os verdadeiros adversários dela estivessem dentro e não fora do partido. Que diferença em relação ao exemplo de Obama, que o Jorge e tu apontam…

    1. “MFL cedeu à tentação dos ajustes de contas numa altura em que o partido necessitava, mais que nunca, de cerrar fileiras numas eleições que serão disputadas palmo a palmo, voto a voto. Como se os verdadeiros adversários dela estivessem dentro e não fora do partido.” Este teu excerto não devia estar “perdido” numa caixa de comentários. É “a” grande observação a tirar deste episódio. MFL tem de deixar para trás as tricas do passado e pensar no país. Ainda tenho esperança de que o faça, mas por estes dias não o fez.

    1. Caro Carlos, não estou totalmente seguro que seja um sinal sobre um eventual governo. Até porque não sabemos se esse governo resultará de uma coligação, por exemplo. Por outro lado, há independentes de grande qualidade que não estão nas listas e que podem integrar um futuro governo. Não é tanto por aí, a meu ver… Um abraço!

  5. José: de facto, uma lista para deputados da AR não é a formação de um Governo, nem nada que se pareça. Mas, à falta de outros sinais, este é o mais aproximado que temos da parte de MFL sobre os critérios que a levariam a escolher uma equipa governativa. Cavaquismo recauchutado, fidelidades pessoais e trânsfugas do CDS inclinando o partido (ainda) mais para a direita.

  6. Manuela Ferreira Leite é hoje uma mulher emaranhada na teia que foi tecendo enquanto tentava em simultâneo construir uma imagem que nunca teve correspondência com os seus actos (passados e presentes). Brindou-nos com dislates para todos os gostos, posições ziguezagueantes qb, propostas confusas e contraditórias tem sido uma constante. Não consigo entender aqueles que hoje aparecem surpreendidos pelo conservadorismo das listas para deputados, pela sua contradição nos valores das escolhas (Preto e Helena C.), pela exclusão de Miguel Relvas e Passos Coelho, pela inclusão de Pacheco Pereira (o oráculo) e Aguiar Branco e outra tralha mais. Ao PSD apenas digo uma coisa, se queriam melhor tivessem escolhido diferente! Depositar em Manuela Ferreira Leite o capital de esperança da construção de uma verdadeira alternativa de futuro não passa afinal de uma manifestação de irracionalidade delirante e até mesmo infantil.

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