As duas Alemanhas


Paulo Sousa,

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Não sei se está publicado em português mas este The shortest history of Germany é um livro especialmete interessante para quem não se satisfaz com os chavões ditos e repetidos sempre que se fala da Alemanha e dos alemães.

Ao contrário do que se possa pensar, e especialmente nesta data em que se celebra a queda do Muro de Berlim, as duas Alemanhas não são um conceito do pós-guerra.

Os limites do império romano (limes germanicus), que correspondem às margens do Reno e do Danúbio, serviram no sec IX para demarcar a partilha de territórios entre os netos de Carlos Magno. Depois disso coincidiram com a divisão entre católicos e protestantes e mais tarde separaram os industriais dos junkers militaristas prussianos ávidos pelos impostos cobrados nos estados ocidentais. Apenas 17% dos residentes a oeste dessa linha votaram no partido Nazi em 1933, mas foram que eles suportaram o grosso do esforço financeiro da guerra. A fronteira entre a RDA e a RFA era mais próxima das margens do Elba, um pouco mais para leste desta linha histórica, mas no fundo a divisão entre wessi e ossi só acentuou a que existia muito antes do inicio da cortina de ferro.

Tal como no início da industrialização, actualmente as diferenças de produtividade são abissais entre este e oeste. A capital da reunifcação, Berlim, é prussiana e com 4,5 milhões de habitantes recebe mais fundos públicos que a Baviera com 12,5 milhões. As previsões de evolução demográfica até 2030 apontam para uma quebra igual ou superior a 10% da população nos estado a leste. O alemães ocidentais fazem piadas sobre isso. Qual a diferença entre um emigrante turco e um ossi? O turco fala alemão e trabalha. Porque é que os chineses andam contentes? Porque ainda têm o muro. Se a Europa pode ter um brexit porque é que a Alemanha não pode ter um Säxit (relativo à Saxónia)?

O autor ainda relaciona os mais recentes resultados eleitorais com estas duas partes da Alemanha e mais uma vez é no leste que os partidos radicais como o Die Linke, o AfD  e o NPD têm maior expressão. Simplificando algo complexo, na maior democracia liberal da Europa os partidos moderados são apoiados principalmente pelos estados da ex-RFA, maioritariamente católicos e é na região da ex-RDA que os extremistas têm mais expressão.

O muro caiu há 30 anos mas a divisão das duas Alemanhas tem mais de 1000.

16 comentários em “As duas Alemanhas”

      1. Não é mais acessível. Na Bertrand online compra-se a edição inglesa (original) mais barata do que a portuguesa. E pode-se levantar em qualquer livraria Bertrand.

  1. Contudo, acredito que as diferenças os dois lados dessa fronteira hoje em dia tenha mais a ver como consequência da forma de vida e da doutrinação no pós guerra até ao derrube (não queda que branqueia a verdade) do muro. Até porque 1974 e 1975 em Portugal e Espanha foram 15 e 14 anos antes e ainda se sentem os reflexos das feridas das ditaduras por cá e os seus efeitos nas mentalidades dos povos ibéricos.

    1. Pois.
      Para que não haja confusão. Derrubar é deitar por terra, queda é o movimento do que é derrubado até chegar a terra.
      Isto é muito importante, não vá o estupido do zé não perceber.

    2. A minha surpresa com este livro é sobre a dimensão temporal e da profundidade da divisão dentro deste país que é recente. A doutrinação comunista vs vida ocidental são só o último capitulo de algo bem anterior e que demorará bem mais que uma geração a eliminar.

  2. As fronteiras nesta zona central europeia sempre foram problemáticas, envolvendo, desde o início da época medieval, países como a França, o Luxemburgo, a Suíça e a Polónia. Os grande imperadores dos povos germânicos da Alta Idade Média (como Clóvis e Carlos Magno) sempre aspiraram à construção de um império à imagem do dos romanos, aspiração que se estendeu pela História europeia, quase até aos nossos dias.

    A Alemanha, como a conhecemos, é de facto um país muito recente. Ainda mais recente é a Alemanha unificada. E, sim, esta unificação está mal conseguida, na verdade, ainda não se deu. Um dos aspectos que mais me impressionam é o facto de os ordenados serem ainda mais altos no Oeste do que no Leste (antiga RDA)! Isto e o alto desemprego ajudam a explicar a preferência dos alemães de Leste pelos partidos radicais.

    1. A fractura é de facto mais antiga que o próprio país e a reunificação funcionou um bocado como a integração dos estrangeiros em vários países europeus, como por exemplo a França – rega-se o problema com dinheiro e faz-se figas para que não haja fricção entre as partes. Costuma funcionar durante algum tempo, mas a realidade acaba por voltar a vencer. Esta ideia liga-se ao seu post sobre a vedação junto à fronteira da Dinamarca, sobre a qual também quero comentar.

  3. Há muitos muros na Alemanha.

    Extremistas como a senhora Merkel que está a deitar a economia alemã por terra? ou a declarar que multiculturalismo não funciona isto depois de ter dito que todos os imigrantes eram bem vindos? ou a aumentar o preço da energia para valores incomportáveis?

    Os extremistas do centro continuam sem serem chamados de extremistas?

    lucklucky

  4. Bom, eu li o livro (versão portuguesa) e fiquei deveras impressionado e perturbado com a grande revelação histórica do autor (ía dizer que para mim é novidade, mas no que toca à história, quase tudo é novidade para mim), mas vou deixar que cada um fale por si. Julgo que a leitura deste livro só ficará completa quando ler esse calhamaço do Christopher Clark, “O reino de ferro – uma história da Prússia”, para complementar o meu conhecimento relativamente a esse mal ditoso império e se a gravidade daquilo que defende o Sr. James Hawes neste belo mas perturbador livro não é exagerado, como a mim me pareceu, mas eu, e repito-me, reconheço-me completamente ignorante no que história.

  5. Vale a pena ler o artigo da semana passada da Economist sobre a reunificação:
    https://www.economist.com/europe/2019/10/31/germans-still-dont-agree-on-what-reunification-meant

    PS – indica que os salários no leste estão a 85% do oeste. Claro, também inidica que as transferências oeste-leste estão na ordem dos 30 mil milhões por ano, em grande parte para pagamentos de segurança social. Isot ajudará a aumentar os rendimentos, suponho.

    1. 30 mil milhões soa a um resgate grego … por ano. O Säxit seria financeiramente uma benesse.
      Os povos do sul são pouco produtivos e têm dificuldade em conquistar a simpatia por essa via aos contribuintes alemães mas o mundo insiste em não ser a preto e branco.

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