
Não sei se está publicado em português mas este The shortest history of Germany é um livro especialmete interessante para quem não se satisfaz com os chavões ditos e repetidos sempre que se fala da Alemanha e dos alemães.
Ao contrário do que se possa pensar, e especialmente nesta data em que se celebra a queda do Muro de Berlim, as duas Alemanhas não são um conceito do pós-guerra.
Os limites do império romano (limes germanicus), que correspondem às margens do Reno e do Danúbio, serviram no sec IX para demarcar a partilha de territórios entre os netos de Carlos Magno. Depois disso coincidiram com a divisão entre católicos e protestantes e mais tarde separaram os industriais dos junkers militaristas prussianos ávidos pelos impostos cobrados nos estados ocidentais. Apenas 17% dos residentes a oeste dessa linha votaram no partido Nazi em 1933, mas foram que eles suportaram o grosso do esforço financeiro da guerra. A fronteira entre a RDA e a RFA era mais próxima das margens do Elba, um pouco mais para leste desta linha histórica, mas no fundo a divisão entre wessi e ossi só acentuou a que existia muito antes do inicio da cortina de ferro.
Tal como no início da industrialização, actualmente as diferenças de produtividade são abissais entre este e oeste. A capital da reunifcação, Berlim, é prussiana e com 4,5 milhões de habitantes recebe mais fundos públicos que a Baviera com 12,5 milhões. As previsões de evolução demográfica até 2030 apontam para uma quebra igual ou superior a 10% da população nos estado a leste. O alemães ocidentais fazem piadas sobre isso. Qual a diferença entre um emigrante turco e um ossi? O turco fala alemão e trabalha. Porque é que os chineses andam contentes? Porque ainda têm o muro. Se a Europa pode ter um brexit porque é que a Alemanha não pode ter um Säxit (relativo à Saxónia)?
O autor ainda relaciona os mais recentes resultados eleitorais com estas duas partes da Alemanha e mais uma vez é no leste que os partidos radicais como o Die Linke, o AfD e o NPD têm maior expressão. Simplificando algo complexo, na maior democracia liberal da Europa os partidos moderados são apoiados principalmente pelos estados da ex-RFA, maioritariamente católicos e é na região da ex-RDA que os extremistas têm mais expressão.
O muro caiu há 30 anos mas a divisão das duas Alemanhas tem mais de 1000.

Editado pela D. Quixote.
Epá… então é bem mais acessível.
Obrigado
Não é mais acessível. Na Bertrand online compra-se a edição inglesa (original) mais barata do que a portuguesa. E pode-se levantar em qualquer livraria Bertrand.
Prefiro sempre ler em português. Essas diferenças de preço são infelizmente habituais.
Contudo, acredito que as diferenças os dois lados dessa fronteira hoje em dia tenha mais a ver como consequência da forma de vida e da doutrinação no pós guerra até ao derrube (não queda que branqueia a verdade) do muro. Até porque 1974 e 1975 em Portugal e Espanha foram 15 e 14 anos antes e ainda se sentem os reflexos das feridas das ditaduras por cá e os seus efeitos nas mentalidades dos povos ibéricos.
Pois.
Para que não haja confusão. Derrubar é deitar por terra, queda é o movimento do que é derrubado até chegar a terra.
Isto é muito importante, não vá o estupido do zé não perceber.
A minha surpresa com este livro é sobre a dimensão temporal e da profundidade da divisão dentro deste país que é recente. A doutrinação comunista vs vida ocidental são só o último capitulo de algo bem anterior e que demorará bem mais que uma geração a eliminar.
As fronteiras nesta zona central europeia sempre foram problemáticas, envolvendo, desde o início da época medieval, países como a França, o Luxemburgo, a Suíça e a Polónia. Os grande imperadores dos povos germânicos da Alta Idade Média (como Clóvis e Carlos Magno) sempre aspiraram à construção de um império à imagem do dos romanos, aspiração que se estendeu pela História europeia, quase até aos nossos dias.
A Alemanha, como a conhecemos, é de facto um país muito recente. Ainda mais recente é a Alemanha unificada. E, sim, esta unificação está mal conseguida, na verdade, ainda não se deu. Um dos aspectos que mais me impressionam é o facto de os ordenados serem ainda mais altos no Oeste do que no Leste (antiga RDA)! Isto e o alto desemprego ajudam a explicar a preferência dos alemães de Leste pelos partidos radicais.
A fractura é de facto mais antiga que o próprio país e a reunificação funcionou um bocado como a integração dos estrangeiros em vários países europeus, como por exemplo a França – rega-se o problema com dinheiro e faz-se figas para que não haja fricção entre as partes. Costuma funcionar durante algum tempo, mas a realidade acaba por voltar a vencer. Esta ideia liga-se ao seu post sobre a vedação junto à fronteira da Dinamarca, sobre a qual também quero comentar.
Há muitos muros na Alemanha.
Extremistas como a senhora Merkel que está a deitar a economia alemã por terra? ou a declarar que multiculturalismo não funciona isto depois de ter dito que todos os imigrantes eram bem vindos? ou a aumentar o preço da energia para valores incomportáveis?
Os extremistas do centro continuam sem serem chamados de extremistas?
lucklucky
Os extremistas a que me refiro são aqueles que colocam na mesa soluções extremistas, não os outros.
Bom, eu li o livro (versão portuguesa) e fiquei deveras impressionado e perturbado com a grande revelação histórica do autor (ía dizer que para mim é novidade, mas no que toca à história, quase tudo é novidade para mim), mas vou deixar que cada um fale por si. Julgo que a leitura deste livro só ficará completa quando ler esse calhamaço do Christopher Clark, “O reino de ferro – uma história da Prússia”, para complementar o meu conhecimento relativamente a esse mal ditoso império e se a gravidade daquilo que defende o Sr. James Hawes neste belo mas perturbador livro não é exagerado, como a mim me pareceu, mas eu, e repito-me, reconheço-me completamente ignorante no que história.
Peço desculpa, mas o teclado do telefone atraiçoou-me e julgo não me ter identificado.
A unificação da Alemanha no século XIX é uma invenção prussiana. Será esta mais das suas malfeitorias?
Vale a pena ler o artigo da semana passada da Economist sobre a reunificação: 0/31/germans-still-dont-agree-on-what-re unification-meant
https://www.economist.com/europe/2019/1
PS – indica que os salários no leste estão a 85% do oeste. Claro, também inidica que as transferências oeste-leste estão na ordem dos 30 mil milhões por ano, em grande parte para pagamentos de segurança social. Isot ajudará a aumentar os rendimentos, suponho.
30 mil milhões soa a um resgate grego … por ano. O Säxit seria financeiramente uma benesse.
Os povos do sul são pouco produtivos e têm dificuldade em conquistar a simpatia por essa via aos contribuintes alemães mas o mundo insiste em não ser a preto e branco.