As canções no cinema (12)


Pedro Correia,

 

AQUELLOS OJOS VERDES (Disponível para Amar, 2000)

 

Aquellos ojos verdes,
De mirada serena,
Dejaron en mi alma,
Eterna sed de amar,

Anhelos de caricias,
De besos y ternuras,
De todas las dulzuras,
Que sabían brindar.

 

Conhecemos certas canções desde tempos imemoriais. Não recordamos o momento em que as escutámos pela primeira vez ou por que via se tornaram familiares aos nossos ouvidos. Mas somos capazes de identificar com precisão o instante em que para nós se tornaram inesquecíveis.

Aconteceu-me numa sala de cinema com um bolero muito antigo – talvez o primeiro tema musical cubano com verdadeiro impacto internacional – que me lembrava sempre de ouvir alguém mais velho trautear lá em casa: Aquellos Ojos Verdes. Vim a saber muito mais tarde que era uma canção composta em Nova Iorque por dois jovens cubanos ali residentes, precisamente no ano em que se registou a derrocada da Bolsa em Wall Street. Nesse já tão remoto 1929, o pianista Nilo Menéndez (1902-1987) e o compositor e poeta Adolfo Utrera (1901-1931) não queriam saber de finanças: estavam muito mais interessados em compor canções românticas. Desta improvisada parceria – que viria a ser muito cedo interrompida pelo suicídio do compositor – nasceu uma das mais belas canções de amor em língua castelhana. Dedicada a Conchita Utrera, a irmã de Adolfo, por quem Nilo se apaixonou. Tinha ele 27 anos, ela apenas 18.

Reza a lenda que não passou de uma paixão platónica. Mas muitas paixões bem concretas e carnais ocorreram seguramente ao som deste bolero com sonoridades de jazz de que há um primeiro registo gravado em Nova Iorque, datado de 1930, com interpretação vocal de Adolfo, acompanhado ao piano por Nilo e pelo maestro Ernesto Lecuona, figura tutelar da música cubana que tantas cantigas célebres nos legou.

 

Dez anos após o trágico desaparecimento de Adolfo Utrera, Aquellos Ojos Verdes renasceu – desta vez com nome em inglês, Those Green Eyes. Foi um sucesso, naquele ano de 1941, pela orquestra de Jimmy Dorsey. O malogrado Glenn Miller também a incluiu no seu reportório. E o êxito prolongou-se, nas décadas seguintes, através das vozes ou dos arranjos instrumentais de Anita O’ Day, Ray Coniff, Les Brown e Xavier Cugat. Esther Borja, diva da canção cubana naqueles tempos pré-castristas, divulgou-a na ilha natal. Los Panchos – o mais célebre trio especializado em boleros, formado em 1944, também em Nova Iorque, por dois mexicanos e um portorriquenho – levaram-na aos mais diversos palcos dos Estados Unidos e da América Latina. Em 1964, o grande tenor espanhol Alfredo Kraus registou-a em disco. Já na última década do século, Ibrahim Ferrer – “descoberto” por Ry Cooder em 1997, no seu premiadíssimo disco Buena Vista Social Club – viria a dar-lhe novo fôlego, num registo muito particular.

Mas o nome mais ligado a esta canção em língua espanhola foi o de um cantor que não sabia uma palavra desse idioma: Nat King Cole. Pronunciando as letras das canções por reprodução fonética, o que lhe conferia um sotaque irrepetível, o intérprete de Mona Lisa alcançou um sucesso instantâneo com dois discos só com temas escritos em castelhano: Cole Español (1958) e A Mis Amigos (1959).

Neste último, vinha incluído o bolero de Menéndez e Utrera. Repercutido pela rádio, obteve audiência mundial. Chegando a cidades tão distantes como Hong Kong, onde fazia furor nos salões de baile.

É dessa Hong Kong ainda com muitos vestígios provincianos, colónia britânica encravada na China maoísta povoada de memórias recentes da ocupação japonesa, que nos fala Disponível para Amar, um extraordinário filme de Wong Kar-wai – estreado em Maio de 2000 no Festival de Cannes – onde reencontrei aquela canção da minha infância, que tantas vezes ouvi trautear à minha mãe e à minha avó, mãe dela. Na versão mais célebre, a de Nat King Cole.

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Disponível para Amar situa-se em 1962. É uma história de encontros e desencontros entre um jornalista, Chow Mo-wan (interpretado por Tony Leung), e uma secretária de uma companhia de navegação, Su Li-zhen (interpretada por Maggie Cheung). Ambos com trinta e poucos anos, ambos protagonistas de casamentos falhados, ambos traídos, ambos escrutinados pelos olhares indiscretos de vizinhos numa sociedade fechada e conservadora, ambos envoltos numa insólita cumplicidade tecida nos labirintos da solidão.

Saem juntos, jantam juntos, trocam olhares fugazes e eloquentes monossílabos em cantonês. Juram que não imitarão o comportamento traiçoeiro dos cônjuges: “Nunca seremos como eles”, diz-lhe Su, fascinante sob o foco de Christopher Doyle, o director de fotografia desta longa-metragem. Raras vezes uma câmara de filmar desvendou de forma tão intensa os diversos ângulos do rosto de uma actriz.

É uma relação ambígua, o que redobra o carácter hipnótico deste filme tão povoado de sombras e segredos.

 

Vi-o na estreia portuguesa, em 2001, e rendi-me de imediato ao sortilégio desta história tão singular, só possível numa cultura como a chinesa, que confere traços de requinte a cada patamar da dissimulação. É de mau-tom, para os chineses, olhar alguém fixamente nos olhos. E demonstrar ansiedade. E pretender respostas precisas e concretas a qualquer pergunta. E procurar contrariar o fatalismo de um futuro já inscrito nas marcas do presente.

Pressentimos desde o início que Su e Chow estão condenados a desencontrar-se. Se ambos soubessem espanhol, veriam o seu destino já de algum modo prenunciado naquele refrão que Nat King Cole canta enquanto partilham uma refeição em silêncio. Como se tivessem consciência plena da dramática erosão do tempo naquele cruzamento de gente errante que era a Hong Kong colonial, uma das últimas fronteiras da Guerra Fria.

“Aquellos ojos verdes, / Serenos como um lago, / En cuyas quietas aguas / Un día me miré, / No saben la tristeza / Que a mí alma le dejaron / Aquellos ojos verdes / Que yo nunca besaré.”

0 comentários em “As canções no cinema (12)”

  1. Gosto muito desta canção, especialmente nesta versão do Nat King Cole.
    Deste realizador apenas vi 2 filmes:
    ‘Fallen Angels’ (penso que o vi na tv) e ‘My Blueberry Nights’ (comprei o dvd, tinha muita curiosidade em ver a Norah Jones actriz e gostei bastante).
    Este filme tem um dos mais originais, ternurentos e saborosos (a mirtilos) beijos do cinema.
    Talvez um dia consiga ver este ‘Disponível para Amar’.
    🙂 Antonieta

    1. Ocidente (simbolicamente representado pela voz de Nat King Cole cantando em castelhano) e Oriente encontram-se aqui, neste filme que revisita tão bem uma época tão especial – nos gestos, nas atitudes, no vestuário, nos penteados, na mentalidade. Hong Kong, encruzilhada de culturas, cidade grande mas provinciana ao mesmo tempo. Dividida então entre o respeito pela coroa britânica, tão distante, e a afinidade étnica com a China, politicamente nos antípodas (até porque boa parte dos seus habitantes havia fugido de lá).
      Este belíssimo filme fala-nos também de tudo isto, quase como se não falasse. Porque a melhor arte sugere – não proclama.
      Obrigado, Teresa, pelas tuas palavras.

    1. Belíssima valsa lenta, composta pelo japonês Shigeru Umebayashi com base num espantoso “coro” de violoncelos. Aqui figurará decerto no dia em que eu decidir fazer uma série sobre a melhor música instrumental no cinema.

  2. Não vi este filme, o que é perfeitamente remediável, mas conheço muito bem a música, que vem de uma geração antepassada e era tocada e cantada desde que me lembro, até em festas e bailaricos . Curiosamente, só tenho memória de versões em espanhol, o que muito me espanta porque o meu pai tinha por lá tudo o que era King Cole.
    Poder ler estas pérolas de conhecimento musical e as histórias que lhes são subjacentes é muito gratificante. É muito bom realmente ficar a conhecer bem o que só conhecemos de ouvido. Obrigada Pedro, mais uma vez.

    1. O mais espantoso é saber que Nat ‘King’ Cole fez furor no mercado discográfico com discos cantados em espanhol, idioma que ele desconhecia por completo. Valeu-lhe o facto de ter facilidade em reproduzir foneticamente as palavras – um dom que a nossa Amália tinha também.
      (Obrigado eu, Dulce)

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