As canções da minha vida (14)


Pedro Correia,

R-5415847-1392800579-6503.jpeg[1].jpg

 

 AS TIME GOES BY

1931

 

Há canções que me lembro de ouvir desde sempre. Esta é uma delas. Fixei-a, em particular, nos meus felizes dez anos, quando vi – com poucos meses de intervalo – dois filmes que por motivos diferentes me fascinaram: Casablanca e Citizen Kane. Rodados, eles também, com uma diferença temporal muito curta. Quando o mundo estava em chamas e olhava para os Estados Unidos como porto seguro, farol de esperança e oásis de liberdade. Da fábrica de sonhos de Hollywood saíam produtos industriais que viriam a transformar-se em obras de arte. E nunca os sonhos tinham sido tão necessários como naquela era de pesadelo.

Casablanca (estreada em 1942, com realização de Michal Curtiz) usa sabiamente a guerra como pretexto para exaltar o amor romântico e perpetuá-lo muito para além das contingências do destino. Eis o segredo de uma fita sem par que parecia fadada para ser apenas mais um título da linha de montagem da Warner Brothers, o estúdio que se gabava de andar colado à realidade. Num cenário onírico, com as areias da Califórnia a fingirem de solo marroquino e uma Casablanca envolta em inédito nevoeiro, ali nascia mais do que um marco na história do cinema: emergia também um mito do nosso imaginário colectivo.

 

Poderá uma canção tocar-nos ao ponto de nos mudar a vida? Quando Ilsa Lund (Ingrid Bergman) roga a Sam (Dooley Wilson), o pianista, para cantar As Time Goes By no bar do Rick, diríamos que sim. Aqueles acordes soavam a guia e lema. Mobilizaram-na a tal ponto que ela se declarou disposta a romper todas as juras e a esquecer todos os combates. Como se não houvesse nada mais para escutar, antes ou depois.

Na película de Curtiz, era território interdito: Rick Blaine (Humphrey Bogart) proibira o pianista de interpretar aquela balada que lhe evocava memórias de um lugar inacessível e de um tempo irrepetível. A proibição só se quebra quando Sam é incapaz de resistir ao pedido de Ilsa, súbito clarão iluminando a noite. Mas é dos lábios dela que escutamos pela primeira vez um trecho deste tema musical que percorre toda a longa-metragem de modo obsessivo.

 

Vendo aquela cena, ninguém diria que esta canção hoje tão justamente celebrada quase chegou a ser excluída de um filme que esteve para ter Ronald Reagan como protagonista. Reza a lenda que o compositor Max Steiner, nomeado para um Óscar pela banda sonora de Casablanca, detestava As Time Goes By a tal ponto que fez questão de substituí-la naquela cena capital por Perfídia, rumba popularizada escassos anos antes pela orquestra de Xavier Cugat – e que surge, aliás, noutro momento da película.

Por ironia, a partitura de Steiner passou para segundo plano, obscurecida precisamente pela canção que ele tanto detestava. Um tema saído da inspiração de um compositor de segunda linha do teatro de revista norte-americano, Herman Hupfeld (1894-1951), e composto como “material adicional” para Everybody’s Welcome, peça musical de Irving Kahal e Sammy Fain estreada em 1931 em Nova Iorque. Contra ventos e marés, demorou mais de uma década a saltar das tábuas da Broadway para a glória planetária. E a firmar-se como uma senha melódica de sucessivas gerações, sem fronteiras temporais ou espaciais.

Ainda no palco, foi interpretada por Frances Williams. Não tardou a ser gravada logo em 1931 por Rudy Vallée, popular cançonetista da época, tendo obtido algum êxito. Mas a verdadeira fama só surgiu ao renascer no filme, pela segunda vez como enxerto em pauta alheia. A versão discográfica da década anterior foi então recuperada, inaugurando um cortejo interminável de versões. O tema de Hupfeld viria a tornar-se um ícone da música popular norte-americana nas vozes de Frank Sinatra, Nat King Cole, Louis Armstrong, Carmen McRea, Jimmy Durante, Sammy Davis Jr. – e até com intérpretes tão improváveis como Carly Simon, Bryan Ferry e Rod Stewart.

Os seus acordes iniciais transformaram-se na assinatura musical da Warner. E o Instituto do Filme Americano elegeu-a em 2004 como a segunda mais popular canção da história da Sétima Arte, tendo apenas Over the Rainbow à sua frente.

 

Revejo o filme, uma vez e outra: é talvez o melodrama que mais vezes me prendeu ao ecrã nas diversas fases da vida. Rick, no decisivo diálogo que trava com uma Ilse em lágrimas no aeroporto, alerta-a para a realidade: aquele era um tempo de hinos bélicos, não de melodias de amor. O mundo precisava de ser salvo.

Ficou-lhes a memória de Paris. E a canção, que era só deles, passou a ser nossa: nunca nos separaremos dela, irá acompanhar-nos para sempre.

Canção que – logo no título – nos fala do tempo a escoar-se. E que nos ajuda a perceber tudo quanto há de precário no que é eterno e tudo quanto há de eterno no que é precário.

 

«It’s still the same old story / A fight for love and glory / A case of do or die. / The world will always welcome lovers / As time goes by.»

 

28 comentários em “As canções da minha vida (14)”

  1. É intemporal . É bonita e suave, mas ao mesmo tempo, e por associação de ideias, poderosa.
    Todos os intêrpretes e todas as vozes fantásticas projetaram As time goes by quase como um hino ao amor e à esperança.

      1. Não se preocupe, Maria Dulce: aqui está safa. Entrou viva sai incólume.
        Num blogue assim mais para o esverdeado é que não se safava de asnónimo 🙂

        1. Caro parente do acutilante,
          Faço minhas as dores do Pedro Correia, perante um texto belíssimo, sobre um filme filme inesquecível e uma canção, inolvidável, marcante, adequada, uma canção, um tema musical se preferirmos, que possui uma frase que ilustra, que define a nossa passagem pela terra:
          “a vida de um ser humano é uma luta pelo amor e pela glória”
          Abarcando tudo com isso; o amor como realização pessoal a glória como realização pessoal/intelectual.
          Estragar tudo isto com uma canelada futebolística é merecedor dum cartão vermelho (ou encarnado se preferir).
          Saudações desportivas para si e um apertado (virtualmente) abraço para o Pedro pelo excelente texto que escreveu

          1. Ó Pedro Oliveira.
            Não resisti. Está-me no sangue. No sangue e na índole. Tudo vermelho aqui e para lá do horizonte.
            Claro que é um texto belíssimo. Conheço-o desde os doze anos altura que vi o filme pela primeira vez, se bem que na altura nada compreendesse e toda a minha compreensão estivesse vidrada na Belíssima Ingrid, senhora que durante longos tempos ocupou muito das minhas solitárias noites. 🙂
            E sim, claro. “A vida de um ser humano é uma luta pelo amor e pela glória”
            Sobretudo se a “glória” puder ser alcançada por baratinho. Exemplo não pagar aquele que glorificava o outro e agora no-la proporciona a nós.

            Saudações desportivas, e outras de cariz mais social.

    1. Muito Bom?!
      Não se terá precipitado na avaliação?
      Eu também acho que sim, mas vou ser mais comedido, ou melhor: mais cauteloso.
      Não tarda por aí o Luís Lavoura e ou o Vento dizerem de suas justiças e depois o caro Vorph corre o risco de ficar mal.

  2. Há outra canção central no filme, nem mais nem menos que La Marseillaise.
    Quando os alemães cantam Die Wacht am Rhein, ao tempo uma espécie de hino oficioso do III Reich, a banda, a pedido de Lazlo, toca o hino francês e logo a voz dos populares, em torrente, afoga a voz dos ocupantes. David contra Golias, dignidade erguida sobre a pusilanimidade, o bem contra o mal, enfim. Nada que nunca se tenha visto inúmeras vezes, antes e depois de Casablanca. E todavia, arrepia sempre que o vejo, em particular o grito de Yvonne, “Vive la France”. Inesquecível.

    1. Agradeço-lhe muito a lista exaustiva que aqui deixa: é um óptimo complemento ao que escrevi.
      Com várias versões que eu desconhecia. Óptima banda sonora para estes dias de reclusão.

  3. Que maravilha, Pedro.
    As saudades que eu já tinha destas séries… e com tantos links para ouvir esta belíssima canção.
    Vou voltar mais tarde para as ouvir todas; entretanto deixo já aqui o meu muito obrigada.
    🌻
    Maria

    1. Muito obrigado, uma vez mais, pelas suas palavras de incentivo, Maria.
      Quero aproveitar este período de reclusão forçada para retomar as séries que fui iniciando, nomeadamente esta e a dos Grandes Romances.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *