Logo após a divulgação das listas que cada partido apresentou para as próximas autárquicas, fiquei surpreendido com o facto de pessoas que tenho como sérias e positivas na nossa comunidade, terem aceitado dar a cara pelo partido do Eng. Sócrates, do Dr. Vara, do Dr. Pinho, do Dr. Constâncio, da Drª Hortense Martins, do Dr. Cabrita e de muitas outras figuras tóxicas para o país.
É normal que a esta minha exclamação se responda dizendo que o que conta são as pessoas e nas autárquicas os partidos não interessam para nada. Isso é uma grande treta, pois com a possibilidade que existe em apresentar listas independentes, só alinha com a marca PS quem se sente confortável entre as figuras que acima referi. A marca PCP tem um significado, a marca Chega tem um outro significado e a marca PS significa 20 anos de estagnação económica, enfraquecimento das instituições, tomada do estado por interesses privados, nepotismo, uma herança de dívidas deixada às gerações futuras e, mesmo após biliões de euros doados ao país, um em cada cinco portugueses continua na pobreza e enquanto pobres são menos livres. Cada voto no PS é um abraço político – daqueles com palmadas ruidosas nas costas – àquela malta.
O PS sabe bem que da imagem que tem e, aqui à volta, nenhum dos candidatos autárquicos faz associar a respectiva candidatura à cor rosa do partido. Em Alcobaça a cor de fundo é o azul, em Leiria é um mini-arco-íris tricolor e em Porto de Mós é o verde. Não será coincidência e não duvido que o mesmo se repita pelo país fora. Neste detalhe pretenderão desligar os podres e as vergonhas do PS destas suas candidaturas.
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Olhar o despudor, ou talvez seja apenas indiferença, com que gente que sofre na pele os danos da governação socialista dos últimos 20 anos, ajuda-nos a entender a longevidade do Estado Novo. A população está em declínio por falta de nascimentos e pela emigração de gente qualificada, mas podia ser bem pior, cá vamos andando, basta ligar a televisão e vê-se tanta desgraça, aqui ao menos é um dia de cada vez. Esta indiferença, que o filósofo José Gil descreve como a “não inscrição” dos portugueses, foi o segredo da longevidade do Estado Novo e explica porque é que pessoas que viram os seus filhos emigrarem aceitam que aqui é assim e nem é muito mau, até se aguenta, o candidato do PS ontem até pagou aqui uma rodada de minis na associação, e no dia em que o meu filho, que é engenheiro na Alemanha, foi promovido lá na fábrica, ele mandou tapar um buraco aqui à frente da porta. Eu já nem me lembrava disso, mas ele ontem passou cá a dizer para eu não me esquecer que se o buraco está tapado devo-o a ele. Isso, e o emprego à minha nora no centro de dia. E tem razão.
Isto acontece no país em que uma empresa para pagar um salário líquido de 2.000€ tem um custo de quase 4.000€ e é esse peso que explica que os rendimentos dos portugueses sejam tão baixos. Será revelador observar que o SMN na Irlanda é de 1.800€. É óbvio que sem uma política fiscal muito menos pesada continuaremos a empurrar mais portugueses em idade activa para fora do país. Sem noção da realidade ou apenas apostado em nos enganar, António Costa gabou-se recentemente no Expresso de termos hoje um nível de emprego superior ao anterior à crise, fingindo que não foi o estado que aumentou a contratação de pessoal em 17% no segundo trimestre, o que levou a que o número de funcionários públicos seja hoje o mais alto desde 2005.
Regressando à escala autárquica, o PS, o partido do Estado e dos funcionários públicos, tenta ainda explorar um outro sentimento que trava a saída do país deste marasmo, e que é o não querer estar fora do grupo. Nos meios pequenos isto ainda é mais notório. Quem se atreve a observar de fora e a dizer que o rei vai nu é sempre alguém que só sabe é dizer mal, que nunca fez nada, e que se ajeita a ser alvo de provocações nas redes sociais, que logo depois são apagadas, para que no dia seguinte lá regressam de novo, por interposta pessoa de família, mas desta vez sai também a acusação à vitima do destrate, de ser a própria quem faz comentários e os apaga de seguida. O mais assustador nestes filmes são mesmo os erros ortográficos, mas isso será culpa da falta de exigência no ensino especial.

Certo. Calha, porém, eu morar em Lisboa e as promessas do único candidato viável da oposição serem (cito o Observador, e nem inclui e a “fábrica de unicórnios”) “transportes públicos gratuitos antes dos 23 e depois dos 65 anos, redução para metade do custo da EMEL para residentes, isenção de IMT para jovens que comprem casas, a distribuição 32 milhões pelos munícipes e um seguro de saúde para mais de 65 anos”. Que cretino é que acha que o principal obstáculo à utilização dos transportes públicos, em Lisboa, é o preço? (se acha, vá ver a foto dois posts abaixo) Que cretino é que acha que o principal problema de estacionamento de quem mora em Lisboa é o que os residentes pagam anualmente? É mesmo o IMT (um roubo, naturalmente) o grande problema que os jovens enfrentam para arranjar casa em Lisboa? E é justo pagar seguro de saúde a todos os lisboetas maiores de 65 – à velhinha viúva que vive num vão de escada na Mouraria e ao juiz conselheiro jubilado que mora na Avenida António Augusto Aguiar? E a CML dar-me €58,70 (os tais 32 milhões a dividir pelos 544.851 lisboetas) vai tapar-me os buracos e a trampa na rua e remover da mesma o cidadão que nela habita desde há seis meses? Ou os semáforos e a ciclovias semeadas a eito? Ou os cruzeiros e aviões a descarregarem turistas de um dia e lixo tóxico? Ou os táxis e autocarros do século passado a deitar fumo como eu se estivesse a guiar no Congo? Ou acelerar os processos de licenciamento que demoram décadas? Ou baixar as taxas e taxinhas que pagam as alcavalas de um exército de funcionários camarários e de empresas camarárias que não consegue impedir o espectáculo diário de lixo fedorento e ruína com que deparo nos sítios onde moro e onde trabalho? Que o PS é, exactamente, aquilo que descreveu acima (o que todos sabem, a começar pelo milhão e meio de eleitores que votaram Sócrates em 2011), mas quando a única alternativa é esta absoluta nulidade, temos um grave, grave problema.
Em alternativa pode elencar os espasmos desse grande visionário, e bufo nas horas vagas, que é o Dr. Medina.
Se no fim da noite das autárquicas temos de ouvir todas as leituras da política nacional que resultam dos resultados locais, então votar PS nunca deixará de ser um aplauso à actual situação. Quem está bem estacionado na pirâmide do Orçamento de Estado terá razões para estar satisfeito, mas globalmente vamo-nos afundando.
Pois. Com escrevi, temos um grave, grave problema. É que mesmo sendo a alternativa o ex-jactante porta-voz do Eng.º Sócrates e ex-orgulhoso mandatário do Sr. Luis Filipe Vieira, tal não me chega para votar num sucedâneo (porque, parece-me claro, as moscas serão as mesmas).
Eles agradecem, mantendo a trajectória até ao próximo resgate.
Bem sei que que uma coisa são eleições legislativas e outra eleições autárquicas. Em todo o caso temo que a umas e outras se possa aplicar a mesma questão: que verdadeiras ambições pode ter uma oposição, competente ou incompetente nessa sua condição, quando uma elevadíssima e crescente percentagem da população vive em directa, ou quase, dependência do estado (o “e” minúsculo é deliberado), do poder, nacional ou local? Estamos, li há dias, em pouco mais de 730.000 funcionários públicos e não será absurdo antever que cada um facilmente significará três, quatro, votos. A estes (e, de acordo, nem todos serão apesar dessa sua condição clientela firme do poder socialista) convirá acrescentar a legião dos dependentes de subsídios, isenções, apoios, ajudas e afins. Legião que – e muito convenientemente – não parece estar a regredir. A todos o poder socialista não cessa o seu namoro e o nauseante panegírico da sua actuação. Esse namoro será muitas vezes objecto de exteriorizada rejeição – afinal haverá ente que perante tudo e todos mais se tome por desgraçado, abusado e explorado do que um funcionário público? -, mas só pode ser intimamente visto como um verdadeiro e incondicional seguro de emprego. De emprego, de saúde, de reforma, de “direitos”. Do que seja. Do que seja, haja o que houver. E, mais não seja, assim entendido por esses eternos injustiçados, como mais que merecida contrapartida dessa sua desgraçada condição.
A coisa talvez mude. Sabemos como mudou: quando se tornou evidente que não haveria dinheiro para os salários do mês seguinte. Os salários que interessam: os da função pública. Esses e os subsídios, apoios e ajudas. Vieram os credores e as suas condições; a oposição até foi eleita. A oposição, eleita, aplicou os termos negociados entre o poder que levou isto à ruína e os credores (termos necessariamente devastadores). A “verdade”, incansável e meticulosamente servida ao povo esmagado por esses termos, foi evidentemente a que o poder que levou isto à ruína nada tinha a ver com esses escandalosos, inaceitáveis e crudelíssimos termos: nada a ver com a ruína que os tornou inevitáveis, nada a ver com o seu conteúdo. E, uns anos depois e absolutamente virginal perante esse passado, o poder que levou isto à ruína regressou ao poder.
De modo que, temo, ainda é cedo para antever a saída de Medina. Se estiver enganado, com genuína satisfação o reconhecerei.
Parece que estamos a viver uma crónica de um resgate anunciado.
” Retórica. É do que somos ricos. Povo de palradores, todos nos pomos nos bicos dos pés em qualquer parlamento. No oficial ou nos cafés, onde se compra a cadeira de deputado por uma bebida.
O verbo aqui, nunca teve essencialidade. Foi sempre de encher.”
Coimbra, 18 de Março de 1979
Miguel Torga
Se você fica indignado com as listas é porque ainda não viu os cartazes.
Cada vez mais as eleições se assemelham a um circo onde só há palhaços.
Miguel Torga apanhou a coisa pela essência.
Miguel Torga teve a virtude da singularidade e nunca se deixou corromper pelo partidarismo, daí a sua visão própria e isenta.
Quanto às eleições, é tão mau ter pessoas sérias em partidos tóxicos como ter pessoas tóxicas em partidos sérios. Veja o caso da Susana Garcia para a Amadora.
E também não é por falta de pessoas tóxicas nos outros partidos que as pessoas deixaram de votar nesses partidos. Relvas e companhia, são apenas um exemplo.
É tanta a mediocridade, que quando aparece alguém a trabalhar de forma normal, as pessoas têm logo a tendência de fazer o culto da personalidade.
E é esta mistura que nos atrofia a análise. Um gestor de crise não é por inerência um bom político e vice versa.
Se os políticos lá estão é porque alguém lá os pôs, se ganham as eleições é porque alguém vota neles. Eles são apenas o reflexo da nossa vontade e a imagem do nosso país.
Nada de novo, portanto.
Se eu fosse optimista, dir-lhe-ia que talvez alguns dos apoiantes do PS sejam pessoas que põem a sua terra acima de tudo. Pensam que o inevitavelmente o PS continuará a governar e, conhecido o caceteirismo deste último, municípios que não sejam do PS, terão acrescidas dificuldades de financiamento e mesmo de aprovação de projectos nas CCR.
Existe também uma limitada capacidade de argumentação que permita um debate sério sobre alguns destes pontos. O buraco à frente da porta ou o candeeiro ao lado é que acabam por substituir outro critério político.
Não são “eles”: somos nós.
jsp
Aqui pela santa terrinha o vírus chegou pela mão de um ex-governante PSD, dois mandatos perdidos, a cidade ficou muito pior e se já não havia trabalho e “todos” tinha-mos de o procurar em concelhos limítrofes agora com o COVID o cenário está bem mais negro.
O PS de Lisboa decidiu candidatar um autarca (até Setembro) se não ganhar aqui (espero que não) de um concelho limítrofe mas espero que o bom senso impere entre os meus conterrâneos.
P.S. – Os Lisboetas de facto têm um grande problema vão levar com mais 4 anos do actual autarca mas também têm fácil solução, venham para a província…
WW
Fiquei curioso.
Qual o seu município?
O dinossauro regressado prepara-se para mais um mandato. Ciclovias, mobilidade suave, semáforos, requalificações e obras intermináveis e cíclicas.
O psd enquanto por cá andou pouco fez, com excepção de limpar o cocó deixado pelo emblemático Euro 2004, essa grande obra que todos esqueceram.
“danos da governação socialista dos últimos 20 anos”
Sejamos sérios. São 16 anos. Passados a reconstruir 4 anos de desgovernação que arrasou o país. Obrigado Dr. Costa e Eng. Pinto de Sousa pelo serviço prestado à pátria.