‘Artitectura’: os mal-amados (12)


jmmcc,

Biblioteca Nacional da Bielorrússia,

Minsk (Bielorrússia)

A Biblioteca Nacional da Bielorrússia, fundada a 15 de Setembro de 1922, foi transferida para um novo edifício que levou cerca de dois anos a ser construído, inaugurado a 16 de Junho de 2006. A encomenda governamental manifestava o desejo de que fosse uma construção para deixar qualquer um embasbacado e que servisse de polo de atracção para turistas. O projecto ficou a cargo dos arquitectos Michael Vinogradov e Viktor Kramarenko.

O que nasceu foi um edifício carregado de painéis envidraçados, com 72 metros de altura e 23 pisos, que é um verdadeiro rombicuboctaedro, um sólido formado por oito triângulos e 16 quadrados, com uma iluminação do tipo led, de colorido variável, para ser visto a cintilar de noite. É, afinal, uma construção estranhíssima que assenta numa equação incongruente, com círculos viciosos, triângulos forçados e rampas em forma de asas.

O "Diamante", como muitos lhe chamam, não impede que se mantenha a tradição de ser o principal lugar de cultura e informação que a Biblioteca Nacional sempre foi (em particular, após a recolha de todo o material impresso, na sequência da II Guerra Mundial), o que faz dela a terceira maior colecção do espaço russo, logo atrás da Biblioteca Estatal Russa, em Moscovo, e da Biblioteca Nacional Russa, em S. Petersburgo.

Possui cerca de 8,3 milhões de títulos em diferentes suportes, que incluem um desenvolvido sistema tecnológico e abrangem os mais diversos temas, e é amplamente frequentada por boa parte da população (menos de dez milhões de habitantes): 90 mil bielorrussos são utilizadores regulares e consultam uma média anual de 3,5 milhões de documentos; recebe mais de 2200 pessoas diariamente e emite perto de doze mil documentos também por dia.

Para ser mais convidativo, o edifício fica junto do rio e está rodeado por um parque público, onde foi colocada a estátua de Francysk Skaryna, um erudito da primeira metade do século XVI que traduziu para bielorrusso a Bíblia, que assim se tornou a primeira obra impressa em alfabeto cirílico.

Um elevador panorâmico e um terraço no topo oferecem uma estupenda vista sobre o rio e sobre Minsk. Mas tudo isto e as boas condições interiores não disfarçaram a polémica que estalou na inauguração do incongruente "Diamante" feito biblioteca pública.

23 comentários em “‘Artitectura’: os mal-amados (12)”

  1. Aqui, pelo menos, o desejo do cliente foi plenamente alcançado: ‘o de que fosse uma construção para deixar qualquer um embasbacado’. Quanto ao facto de ser considerado um ‘diamante’, não estou lá muito de acordo: a mim quer-me parecer que é mais uma pérola, mas uma daquelas ‘pérolas para porcos’.

  2. Depois de toda a sua informação, João, sobre o “conteúdo”e utilização dessa “obra”, ser-me-ia impossível não amar a “forma”. ;))
    A sério, João, gostei muito – fiquei a saber muito mais sobre essa importante Biblioteca.

  3. Vi recentemente o Ágora, passado na mítica biblioteca de Alexandria, e fiquei com uma renovada ternura por bibliotecas. Esta não é uma beleza, admito, mas é uma biblioteca impressionante. Espero que o que está lá dentro não tenha o mesmo destino da de Alexandria…

    (gosto desta tua série, aprendo sempre imenso)

    1. Tem graça, Ana, também, este post lembrou-me o outra biblioteca -a de Alexandria- e daí parti para o filme que espero, com imensa curiosidade, que ele passe por cá para o ver. Então, aproveitando o comentário da Teresa na série dos “Giros” fiz-lhe a pergunta sobre o filme….Que “gira” coincidência.;))
      E que tal achou o filme e a Rachel Weisz ?
      Já estou a abusar de si e do espaço do João…

      1. Como dizia o outro, Maria, “isto está tudo ligado”… 🙂

        Quanto ao filme, aconselho que o veja. Tirando o formato um bocadinho à Ben-Ur , que me fez franzir o sobrolho ao princípio, o filme aborda dois temas invulgares: a misoginia nos primeiros séculos da nossa era, que mesmo assim permitia a existência de uma figura (real) como Hypatia – uma espécie de Leonardo da antiguidade clássica, em versão feminina – e uma curiosa e muito realista visão dos primeiros tempos da hegemonia cristã, que se impôs com métodos idênticos aos dos “hereges” que dominara. Naturalíssimo, aliás. Nesses tempos não havia outra forma de ficar por cima… só estranhamos porque estamos habituados a ver sempre os cristãos como mártires, na boca dos leões nos circos romanos.
        Gostei do filme. Mas eu sou suspeita, porque sou fã do Amenábar . “Mar Adentro” é um dos meus filmes de eleição, por exemplo. Falta a Rachel Weiz , que achei muito convincente e bem escolhida para o papel.

        1. Para além da coincidência, o mais interessante, para mim, são as afinidades – e não é que eu também admiro imenso esse jovem realizador Chileno extravasando talento e sensibilidade) autor desse extraordinário filme eleito pela Ana e que eu subscrevo plenamente. Meu Deus e os actores – vão todos bem – tocou-me muito a actriz que faz de irmã do protagonista (não me lembro agora o nome). O Tema, tudo inserido num meio social, simples, tudo tão próximo da nossa realidade portuguesa – para mim, é mesmo “um caso de pele”…Tenho que o rever pela 3ª. Vez… Ao contrário do que, por vezes, me acontece em filmes de temas pesados, este em mim não causa depressão – considero-o de certa forma uma ode à vida – valorizando a saúde , lembrando-nos que devemos tirar o melhor partido disso enquanto é tempo….Perdoe-me João, mais uma vez.

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          1. Old souls, Maria, old souls…

            É exactamente por essas mesmas razões que eu gosto tanto de “Mar Adentro”: é um filme sério e sensível, mas sem rodriguinhos, que trata com muita elegância e sobriedade um tema difícil e pesado. E está magistralmente representado, também. Talvez o papel da vida do Javier Bardem, não acha? O filme é um exemplo, para mim, de como se deve fazer cinema quando os temas são a realidade actual (ainda para mais, uma realidade polémica). Também me apetece vê-lo outra vez, agora que falo dele. “Ágora” não é tão bom, talvez, mas é igualmente original.

          2. O espaço é todo seu, Maria. É vosso. Vale a pena continuar a dar conta da arquitectura mal-amada para seguir estes colóquios.
            Bem hajam. Beijinhos às duas. Vou escolher mais um mal-amado.

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