Arrumar a biblioteca (XIV)


Pedro Correia,

 

Amália, Pessoa e Camões

 

Arrumada e distribuída por várias estantes a ficção universal, chega a vez dos autores portugueses. Sendo alguns deles também universais — de Luís de Camões a José Saramago, passando por Pessoa.

 

Os autores mais representados na minha biblioteca vão figurar em lugar de realce. Os restantes seguirão para o “estacionamento em segunda fila”, por ordem alfabética de apelido, como já fiz com os escritores estrangeiros.

Os Lusíadas, que consulto com frequência, permanecem à parte, na sala. Numa das estantes do corredor, alinho as obras de Eça. Perto de Borges e Shakespeare: o nosso melhor romancista de todos os tempos justifica lugar à parte.

Os outros ficam na divisão a que decidi chamar escritório. Com merecidos destaques em prosa e poesia, também em função da quantidade de livros que disponho de cada autor.

Sophia de Mello Breyner, poesia completa. E os seus sublimes Contos Exemplares — que tenho também em duplicado, como acabo de descobrir. Ruy Belo, poesia completa. Alexandre O’Neill, poesia completa. E a excelente biografia do autor de Um Adeus Português escrita por Maria Antónia Oliveira (Dom Quixote, 2005). A obra inteira de Miguel Torga. O inevitável Pessoa. Saramago, quase todo. Vergílio Ferreira, quase todo. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino. Barranco de Cegos, de Redol. Os Meninos de Ouro, de Agustina. Os Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria.

(E onde pára Mau Tempo no Canal, de Nemésio, que não consigo encontrá-lo?)

 

Hoje, para condizer, só escuto música portuguesa. Incluindo este clássico da nossa diva Simone de Oliveira numa soberba recriação de Wanda Stuart:

 

 

E que mais, em matéria de livros?

Algum Camilo, menos do que gostaria (Amor de Perdição, Eusébio Macário, A Queda de um Anjo, Novelas do Minho, A Filha do Regicida). Os Poemas de Deus e do Diabo, de Régio. A antologia de Eugénio de Andrade editada pela Inova. A Poltrona e outras novelas, de Gedeão.

Régio, Eugénio, Gedeão: três pseudónimos literários. Um dia hei-de escrever sobre a importância dos pseudónimos na nossa literatura (há ainda o Júlio Dinis, o Torga, o Santareno, a Irene Lisboa, o Tomás Kim, o Mário Cláudio e vários outros, já sem falar dos heterónimos de Pessoa).

 

Escuto agora o magnífico Cantar de Emigração, de Adriano Correia de Oliveira: grande poema de Rosalía de Castro, grande melodia de José Niza, grande interpretação deste trovador cuja voz se apagou demasiado cedo. E logo o associo aos versos de Manuel Alegre, que tão bem cantou em temas como Canção Tão Simples. Precisamente quando ponho os livros do poeta de Praça da Canção na prateleira da frente. Bem acompanhado por José Rodrigues Miguéis e Ruben A, dois dos meus prosadores portugueses de eleição.

 

 

Seguem-se outros nomes: José Cardoso Pires, Jorge de Sena, Mário de Carvalho, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo. Tenho um livro de poemas deste último autografado pelo autor: Há uma Rosa na Manhã Agreste.

E autores mais recentes: Pedro Paixão, Gonçalo M. Tavares, Clara Pinto Correia, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa, José Luís Peixoto, Maria do Rosário Pedreira, Domingos Amaral, João Tordo, Mafalda Ivo Cruz, o meu amigo Luís Naves, Rui Zink (fica desde já a promessa de o incluir na minha série Grandes Contos).

Em lugar especial ficam também as fotobiografias, de que tanto gosto. José Cardoso Pires, por Inês Pedrosa. Miguel Torga, pela filha, Clara Rocha. Vergílio Ferreira, de Helder Godinho e Serafim Ferreira. O Mundo de Ruben A, de Liberto Cruz, José Brandão e Nicolau Andresen Leitão. O monumental álbum Jorge de Sena. A Voz e as Imagens, editado pela Universidade Nova de Lisboa.

E ainda livros sobre livros e sobre autores de livros. A Geração de 70, de João Gaspar Simões. Camões: Labirintos e Fascínios, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Terraço Aberto, de David Mourão-Ferreira. Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, de Jacinto do Prado Coelho. Dialécticas da Literatura e Fernando Pessoa e C& Heterónima, de Jorge de Sena.

 

David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Melo foram dois dos poetas que Amália mais e melhor cantou. Aqui ficam dois fados dela de que mais gosto. O primeiro com letra de Homem de Melo e música de José Marques do Amaral (melodia que ficou conhecida por ‘Marcha do Amaral’, como me informa um leitor na caixa de comentários). O segundo com versos de Mourão-Ferreira e música do insubstituível Alain Oulman — um francês que será nosso para sempre.

 

Até amanhã.

 

    

10 comentários em “Arrumar a biblioteca (XIV)”

  1. Pois a mim bem me pareceu logo no princípio destas conversas que ía ter que aderir ao “estacionamento” em 2ª fila , não há volta a dar-lhe a maior parte das vezes .
    Mesmo que a casa e a bolsa dêem para aumentar o número de estantes é tudo uma questão de tempo até a questão se voltar a pôr porque acaba por se pôr sempre .

    Uma perguntita : ainda que esta arrumação lhe facilite muito a vida , fia-se na memória ou tem algures assente que o livro tal está na estante ao fundo à esquerda , terceira prateleira a contar de cima ?

    1. Fio-me na memória, meu caro. Mas convém sabermos ajudar a nossa memória. A arrumação dos livros é fundamental para esse efeito: só consigo ir buscar determinado livro a qualquer momento, sabendo de antemão onde está, se a biblioteca estiver arrumada. E a ordem alfabética dos autores, dentro de cada género, ajuda muito. Sobretudo nos tais livros estacionados em segunda fila.

  2. Pedro, há aqui muito pano para mangas, nem sei por onde começar.
    Também tenho tudo do Torga e a fotobiografia da sua filha Clara.
    O José Fontinhas é, para mim, um poeta muito especial.
    Tenho a Poesia Completa, editada pela Fundação, autografada por ele.
    Tenho o fotobiografia ‘O Amigo mais Íntimo do Sol’, o ‘Poesia Terra de Minha Mãe’ (Asa), o ‘A Materna Casa da Poesia’ (Fernando Paulouro Neves), A Textos e Pretextos nr. 5 a ele dedicada, e a Caixa da Asa, edição limitada e numerada ‘Sete Livros, Sete Retratos’.
    E ainda o CD de Poesia da
    Fundação, bem como 5 nrs dos Cadernos de Serrúbia.
    E o privilégio de tê-lo conhecido e conversado um pouquinho com ele.
    Da Sophia, Saramago, Pessoa, Agustina e tantos outros falarei noutra altura.
    🙂
    Antonieta

    1. De facto, Antonieta, isto dá pano para mangas. Cada um destes escritores daria um texto autónomo. Tive de juntá-los todos porque esta série acabará no nº 20. E já falta, portanto, pouco para chegar ao fim.

  3. Ai!!! Ai!!!!

    O Director da Biblioteca Nacional (BNP) que se cuide!

    Amigo: Se lhe faltar algum titulo de Jorge de Sena, diga.
    Vai anónimo… tá de ver!

  4. Caríssimo Senhor:
    Sou leitor diário do “Delito” e grande apreciador do que o senhor aí escreve. Por isso, espero que não se melindre com uma pequena correcção : a música do “Fria Claridade” não é desse extraordinário compositor que foi Alain Oulman; de facto, como em tantos outros fados, trata-se de uma música já existente antes e depois aproveitada para este poema. É conhecida como “Marcha do Amaral”.
    Os meus cumprimentos mais respeitosos.
    J. da Silva Cascão

  5. Tenho de reconhecer que apesar de ter muitos portugueses atuais nas minhas estantes, alguns Escritores Históricos dignos da maiúscula pela sua importância estão sub-representados em minha casa, nomeadamente Camilo Castelo Branco e Jorge de Sena, entre outros.
    Sinal que daqui a tempos, nem com segunda fila vou ter o estacionamento de livros resolvido 😉

    1. Penso isso sempre a propósito do Camilo: é uma lacuna que tenho levado tempo a colmatar. Com apenas cinco romances cá por casa, está seguramente subrepresentado.
      Julgo que em parte isso se deve à péssima impressão que me causou o ‘Amor de Perdição’, quando estudei este livro nas aulas de Português do liceu. Hoje, provavelmente, leria esta obra com outros olhos.

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