Hemingway, Jobim e Eric Dier
Chega enfim o momento de começar a colocar os livros nas prateleiras da estante recém-chegada, adquirida com o fito de contribuir em larga escala para a organização da minha tão dispersa biblioteca.
Apetece-me celebrar este momento com a música adequada. A voz meiga de Norah Jones ajuda a transportar os livros às alturas mais recônditas. “Come away with me in the night / Come away with me / And I will write you a song.”
Quais os critérios para a arrumação de livros?
Não sei o que acontece convosco. Eu tenho vários, não aplico um critério só. Desde logo, este que surge ilustrado na foto: todos os livros que vou podendo reunir dos meus autores favoritos de ficção universal. Altos ou baixos, gordos ou magros, vivos ou mortos, de esquerda ou de direita.
São estes precisamente os primeiros, o que diz algo sobre os meus gostos. Graham Greene, Jack London, Ernest Hemingway. Amores antigos de um leitor fiel. Alinho-os na prateleira que se encontra mais disponível ao meu olhar imediato. Lembrando horas, dias, semanas e meses felizes da adolescência.
Quando havia todo o tempo do mundo para ler e viver.
Danilo Caymmi interpreta Anos Dourados, um dos mais belos temas saídos da inspiradíssima pena de Antonio Carlos Jobim, em disco de homenagem colectiva ao mestre brasileiro, tão célebre como Gershwin e Cole Porter. Não sei se já vos disse que tenho a mania das estatísticas: fazer listas de quase tudo é um dos meus passatempos de eleição.
Greene, London e Hemingway são dos romancistas mais representados na minha biblioteca. Tenho 23 livros do primeiro (incluindo os dois volumes da sua autobiografia, escritos em épocas diferentes), 20 do segundo (mais a célebre biografia que lhe dedicou Irving Stone) e 18 do terceiro (mais quatro biografias dele, muito desiguais, da autoria de Jeffrey Meyers, A. E. Hotchner, G. A. Astre e do seu irmão Leicester).
Outros escritores de que muito gosto, como se confirma pelos títulos de que disponho, são George Orwell, com 13 livros contados até ao momento (acrescidos da biografia que dele escreveu Bernard Crick), e Rubem Fonseca, com 11.
Na prateleira de que já vos falei ficam alinhadas as obras de Greene (excepto as da Colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil, que ficarão em espaço autónomo, e O Terceiro Homem, que só tenho na Colecção Miniatura, da mesma editora, também com direito a local próprio), todas as de London, algumas de Hemingway (tão dispersas que não consigo confiná-las num só reduto). E dois romances da minha vida: Os Nus e os Mortos (de Norman Mailer) e O Pavilhão dos Cancerosos (de Alexandre Soljenitsine). Mais os cinco livros que possuo do grande Evelyn Waugh: Declínio e Queda (Estampa), Reviver o Passado em Brideshead (Moraes), Um Punhado de Pó (Cotovia), O Ente Querido (Ulisseia) e Black Mischief (Penguin Books).
Olhar estas lombadas é rememorar o prazer de muitas leituras. Mas a minha atenção foge agora para outra prosa, que não deveria qualificar de ficção mas nem sei como classificar. Refiro-me a um título de capa do diário desportivo Record de hoje: “Dier não pensa renovar”.
Ó diabo, penso com os meus botões, será que o miúdo luso-britânico — um dos melhores valores formados na academia do Sporting — vai abandonar Alvalade? O título assim o sugere.
Nada como abrir a página 4 para tentar esclarecer dúvidas. Parece sugerir algo diferente: “Dier não pensa na renovação”. E porque haveria de pensar, se mantém vínculo contratual ao clube até 2016? Desço ao corpo da notícia, cada vez mais distante do título da capa: “Com contrato por mais três épocas, Eric Dier continua tranquilo e sem pensar na hipótese de renovar o vínculo com o Sporting. Não porque o defesa não queira; antes porque a dita renovação só acontecerá, no entender do jogador, mediante condições para as quais acredita que o clube ainda não estará preparado.”
Há notícias na imprensa portuguesa que baralham mais do que esclarecem. Eis um exemplo muito concreto. Dier — talentoso defesa com apenas 19 anos — tem clube, tem contrato, tem vontade de jogar no Sporting, está “tranquilo”. Querer encontrar aqui um foco noticioso é confundir os desejos de alguns com a realidade inexistente. Muita água vai correr debaixo das pontes até 2016 — no futebol e não só. Adivinhar os pensamentos seja de quem for daqui até lá é um exercício de pura especulação. Recomendo aos autores da notícia a leitura de um romance de Waugh que ainda não mencionei: Scoop. Uma poderosa sátira ao jornalismo, actual como nunca.
Águas de Março, na voz de Joyce, já correu na minha aparelhagem de som. Agora escuto o que vou partilhar com vocês: esta grande interpretação do inconfundível Hermeto Pascoal. Um veterano a pensar na renovação, ele sim. Sem desafinar.
Até amanhã.


Gabo-lhe a pachorra. Eu alinho a minha por aquele adágio do Borges da organização de uma biblioteca enquanto crítica literária: uns ficam em cima, outros em baixo, e fica o assunto arrumado. Só sou um bocado queque nas estantes mais temáticas, onde organizo por época, disciplina, etc. De qualquer das maneiras tenho posto mais livros no lixo do que na estante. Um tipo acaba por se cansar de ver um Saramago, um Burroughs, um Husserl ou um Camus em nossa casa.
(Também ler o que os outros dizem dos livros deles traz-me uma ou outra memória. Fui obrigado a ler o Crick, In Defence of Politics. Tempos de estudante. Acabei por comprar ao preço da uva mijona o resto do que ele escreveu. Nunca mais lhe abri um livro; lembro-me de não concordar em nada, mas o homem tinha estilo. Ingleses. Já o Dier é a mesma coisa.)
Eu preparo-me para me desfazer de muitos livros, caro Panurgo – entre 100 e 150, pelo menos. Começo a confirmar que não há espaço para tanto calhamaço e muitos não justificam o espaço que ocupam.
Mas aqueles livros que me acompanham desde a adolescência merecem sempre um destaque especial. São livros para a vida.
Esses, não tenciono dispensá-los. Ou, como escreveria o ‘Record’ sobre o nosso Dier, “não penso na renovação”.
Ao Pedro penso que afligiria mais o facto de a notícia, porque o é, não ser digna de manchete. Até por comparação com a manchete do Vítor que, num treino à porta fechada, deu indicações de ser o Messi de Alvalade, para rivalizar com o outro da 2ª Circular…
NB – Pedro, leu porventura o email que enviei sobre um teste de Português em Zurique? Não tive feedback, obr.
Mas você tem dúvidas de que o Vítor é craque? Eu não. A diferença é que se o Benfica o tivesse adquirido já tinha sido despachado num ‘charter’ para as Arábias, como jogador emprestado. E em Alvalade vai jogar.
(Vou conferir o correio)
Claro que vai jogar, afinal saiu do 3º classificado para o 7º classificado da época passada. 🙂
Se fosse hoje sairia do 15º para o 2º classificado no campeonato.
Verdade verdadinha como o Vítor esteve para ser vendido (ao estrangeiro) e nem começou a época com o PF, muito mais do que há anos está para ser vendido o seu agora colega de clube Rui Patrício 🙂
Felizmente para ele, o Sporting não discrimina jogadores em função da nacionalidade. Ao contrário de outros, que parecem o Clube do Bolinha, mas com uma diferença: em vez de ‘Menina não entra’ é ‘Português não joga’.
“Quais os critérios para a arrumação de livros?”
No meu caso é mais ou menos simples (até porque a minha biblioteca é, de momento, um décimo da tua, talvez menos – mas lá chegarei, lá chegarei): Nas estantes de cima, ficção científica; nas do meio, fantasia e horror; nas de baixo, banda desenhada e uma pilha, mais pequena, de ficção literária portuguesa e estrangeira. Tudo empilhado e compacto – o Terry Pratchett até está estacionado em segunda fila. Dava-me imenso jeito outra estante, mas não há engenho mobiliário escandinavo que consiga meter mais um móvel no meu T-menos-um.
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Quanto a títulos jornalísticos ambíguos, esse não bate um que o Público atirou há dias…
Eu também terei de estacionar os livros em segunda fila, João. Já percebi que não existe alternativa. A menos que continuem espalhados pelo chão e empilhados parede acima.
Hoje vou falar em ti, no quarto texto da série.
P. S. – Não me recordo desse título do ‘Público’ (ter-me-á passado ao lado?)
Ora essa, estamos cá para ajudar: http://lifestyle.publico.pt/artigos/324 603_as-maes-nao-se-medem-as-mamadas
E obrigado pela referência. O tema é-me caro, de facto. Já lá irei! 🙂
Ahah. Só isso já daria uma série, João. E que série…
Não encontrei, até agora, grande necessidade de critério para além da distinção entre ficção e não ficção. Isto, naturalmente, com a minha biblioteca que está profundamente desarrumada, em constante uso e dividida em três diferentes espaços (casa, casa da mãe e escritório).
Quanto ao Dier (como o gostava de ver a jogar mais) não há como recordar o artigo de Manuel Maria Carrilho (http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interio r.aspx?content_id=3341289).
O Dier não tem jogado mais por maus e bons motivos, Filipe. Maus: esteve lesionado. Bons: o onze titular tem dado boas provas. Mas havemos de vê-lo jogar muito.
(Você é sportinguista?)
Nem poderia ser de outro clube! É complicado Dier jogar mais, sobretudo pelos bons motivos que apresentou. Mas que é um tipo de fibra, com boa qualidade de passe e remate e estampa física impressionante ninguém pode negar. Daí que gostasse de o ver jogar com mais regularidade, a central ou mesmo a médio defensivo, se o William Carvalho deixasse.
Então envie-me o seu endereço electrónico para esta caixa de comentários. Eu não o publico. Mas assim posso enviar-lhe um convite.
Tirando o pós sismo de 9 de julho de 1998, onde os salvados das ruínas foram encaixotados caoticamente e só 3 anos depois rearrumados, livros, cd e dvd sempre tiveram estruturalmente arrumados.
Nos livros em português zona de ensaio, ciência, técnicos e sua divulgação; zona de pintura, música, viagens; zona de poesia, zona de obras açorianas, zona de ficção subdividida por literatura nacional, lusófona, nobel, clássicos e grandes obras (critério a meu gosto) e mais escondidas as obras que não me deixaram marca para além do passatempo.
Claro, já vi que temos muita diferença nas preferências: Eça é o mais representado com a sua obra completa, Saramago, Gonçalo Tavares, JLPeixoto não estão mal. Internacionalmente Marquez, Llosa, Mann, Kafka e Dostoievsky lideram.
Há um espaço com muito carinho, literatura Canadiana anglófona no original: com muito Munro, Atwood Findley e Robertson.
Carlos: eu ainda não quis mencionar autores portugueses, propositadamente, mas tenho o Eça quase completo: faltar-me-á talvez ‘A Ilustre Casa de Ramires’. Tenho o Eça romancista, contista, jornalista, cronista. O Eça ensaísta, o Eça viajante, o Eça epistolar. O Eça das Farpas. E das Notas Contemporâneas. E até o Eça póstumo, aquele cujos livros que ficaram por concluir foram terminados pelo filho décadas depois.
Ainda só tive oportunidade de fazer duas grandes divisões: autores portugueses e autores estrangeiros. Vou continuando a dar notícia aqui.
A partir dos 2000 livros é complicado mas ainda se consegue arrumar , ao aproximar dos 2500 o caos volta a instalar-se pois foi-se pondo uns em cima ou à frente dos outros à espera de oportunidade de os arrumar melhor .
A partir dos 3000 livros já ninguém vai desarrumar tudo para arrumar novamente seja o que fôr por ordem e portanto ou se faz outra estante que se trata como anexo ( se não está na antiga , bem arrumada , está na nova) e se confia na memória ou se desiste de vez .
Neste momento estou a utilizar um sistema misto e complexo que nem eu compreendo bem mas que vai funcionando .
Engloba os três citados e tem a inestimável vantagem de , ao procurar um livro , não demorar tanto tempo como se não tivesse organização nenhuma mas demorar o suficiente para encontrar ainda muita coisa arrumada à pressa .
Quanto aos livros da minha adolescência e início da idade adulta , quase tudo da “Livre de Poche” comprados no fim dos anos 60 ao Sr. Barata na Avenida de Roma , estão aí todos e hão-de estar .
Coincidência: ainda há quatro dias passei pela Barata, para comprar um livro.
Confirmo, meu caro, que até aos dois mil ainda há arrumação possível. Deve ser praticamente esse o número de livros que nestes últimos dias já consegui distribuir provisoriamente pelas prateleiras – muitos dos quais “estacionados em segunda mão”, para tomar emprestada a saborosa expressão do João Campos.
A partir de agora não sei como vai ser. Porque o espaço disponível acabou. Terei de inventar novos espaços.
Meu caro Pedro Correia
Em 2ª mão não é grave desde que na “área de influência” correcta .
Os novos espaços costumam passar por corredores , vãos de escada , partes de baixo das camas , varandas fechadas e até casas de banho , ainda que aqui a humidade se constitua num risco .
Mas presumo que já tenha ocupado isso tudo .
A Barata de toda a década de 60 (e não só do fim como por distracção escrevi) era um espaço minúsculo e atravancado , com uma frequência muito característica que incluía muitos opositores ao regime e alguns informadores da PIDE .
A expansão só foi possível depois da aquisição do edifício pelo Sr. Barata , pelo menos é o que me chegou de fonte que considero segura .
WC ainda não, meu caro. Mas quando visitei a antiga casa de Hemingway em Cuba, toda cheia de livros, lá estava também uma pequena estante no WC.
Eu referia-me à Livraria Barata, na Avenida de Roma – herdeira directa desse pequeno estabelecimento que o meu caro menciona.
Uma das melhores de Lisboa, sem qualquer dúvida.
A estante no WC é mais útil do que parece pois nem sempre lá ficamos o tempo que prevíramos … mas eu não tenho .
Eu percebi a que se referia , só quis fazer a ponte com o local onde eu gastava todos os tostões das mesadas nos anos 60 , a partir dos meus 13 anos , com o Sr. Barata a fazer-me 10% de desconto nos “Poche” .
A livraria nas suas actuais dimensões e tal como está (pequenos pormenores àparte) ainda foi feita por ele , como decerto sabe .
Sim. E mantém-se com excelente nível, o que é um facto que me apraz registar. E elogiar.
Quando vi aquela capa rosa e preto, à esquerda da foto, lembrei-me logo de um livro que eu “emprestadei” já nem sei a quem, e que gostava imenso de voltar a ler.
É o “Viagens com a minha Tia”, do Graham Greene, e quando o li, há mais de 30 anos, achei uma delícia aquele sobrinho a descobrir o mundo (e não só) com aquela tia tão “prá frentex”.
A voz da Norah Jones é óptima para arrumar livros…
Estou a gostar imenso desta série e acho que vou aparecer por cá mais vezes.
🙂 Antonieta
Um livro delicioso, Antonieta. Que confirma a prodigiosa imaginação do escritor. Tenho a obra completa de Greene, de ficção e não só. E continua a ser um dos meus eleitos.
Ainda bem que está a gostar desta série. Que fala de livros mas também de música e de política e de futebol e sei lá que mais. Tão caótica, em termos temáticos, como tem andado a minha biblioteca.
Não me parece que seja caótica , meu caro , ou então teríamos que concluír que todas as boas conversas seriam caóticas .
Ora são tudo menos isso , os temas vão surgindo e aprendemos uns com os outros a cada frase .
Alguma vez eu troquei na vida uma boa tertúlia em que se salta de tema para a tema e se brinca aqui e ali pela conferência especializada ainda que o tema me agradasse ?
Nunca por nunca , antes dizer palermices entre amigos !
Abraço
PS – “Viagens com a minha tia” é um livro que , hoje em dia , define melhor o raro leitor que o aprecia do que o escritor , já não há muita gente a encantar-se com ele .
Um livro ímpar mesmo dentro da obra do autor .
Nos alfarrabistas ainda vão aparecendo vai não volta exemplares razoáveis não desta edição do que está na sua foto mas da edição do Círculo de Leitores .
Uma pesquisa na net é sempre útil .
Tertuliemos então, meu caro. Nunca são de mais as tertúlias no nosso quotidiano. E podem ser por escrito, assim mesmo, como se faz tantas vezes nestas caixas de comentários do DELITO. Quando desaparecem por algum motivo, sentimos-lhes a falta. E de que maneira.