“Arejar um pouco a malquerença”


Pedro Correia,

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Num dos seus romances, Os Duros não Dançam, Norman Mailer descreve uma cena que faz lembrar toda a série de pequenas querelas políticas desenrolada a propósito do orçamento do Estado para 2021. O romance situa-se numa zona dos EUA que Mailer conhecia muito bem: a faixa litoral do Massachusetts, onde se concentra a maior comunidade luso-descendente da América do Norte, que na sua maioria se dedicava à pesca.

Segue a transcrição da saborosa cena (tradução de Eduardo Saló):

 

250x.jpg«Numa tarde invernal em que o Bergantim se apresentava invulgarmente pouco frequentado, sentava-se ao balcão um pescador português de uns 80 anos. Setenta de trabalho tinham-no deixado tão retorcido e deformado com um cipreste enraizado num penhasco de uma  costa batida pelo vento. Pouco depois, entrou outro pescador, tão artrítico como o primeiro. Em garotos, haviam brincado  juntos, praticado o râguebi, frequentado o liceu, trabalhado em barcos de pesca, tinham-se embebedado e provavelmente ornamentado as frontes um ao outro com as respectivas mulheres e agora, aos 80 anos, quase não conviviam, excepto nas trocas de socos a que se entregavam em particular. Apesar disso, o primeiro pescador deslizou do banco, empertigou-se e, aos uivos, numa voz tão áspera como o vento de Março no alto mar, disse: “Julgava que tinhas morrido.” O outro inclinou-se para a frente, dirigiu-lhe um olhar furibundo e, com uma laringe de sons tão agrestes como os das gaivotas, replicou: “Morrido? Antes disso, hei-de ir ao teu funeral.” E tomaram uma cerveja juntos. Tratava-se apenas de um exercício para arejar um pouco a malquerença. Os portugueses sabem falar aos ladridos.»

 

Pouco ou nada lisonjeiro, este retrato dos nossos compatriotas da costa leste dos EUA esboçado por Mailer, que aliás também sabia “falar aos ladridos”. Mas há muito de fidedigno na relação amor-ódio entre portugueses simbolizada nesta cena quase anedótica. Isso nota-se também, a um ritmo diário, na nossa vida política. Até que ponto as batalhas verbais em torno do orçamento não servem também apenas para “arejar um pouco a malquerença”, antes de tudo ficar como estava?

Os duros não dançam. Os moles não fazem outra coisa.

24 comentários em ““Arejar um pouco a malquerença””

  1. É um excelente livro este. Já o li há uns bons 30 anos. Mas que se mantém actual como se fosse escrito ontem, ninguém pode duvidar, Pedro.
    Por cá então ( e por lá também) é só piruetas, não há equilíbrio, vai tudo na onda e velam o que podem, sempre ao ritmo de um cha cha cha partidário, que afina é apenas chacha.

    1. Isso, Maria Dulce: gostei do trocadilho.
      Mailer é um subgénero de Hemingway, mesmo assim um escritor interessante. E autor de um dos melhores livros desenrolados em cenário de guerra que li até hoje: “Os Nus e os Mortos”. O primeiro romance que escreveu, por sinal.
      Recomendo a todos quantos ainda não o leram.

  2. O que se vê muito no ar é um grande desconhecimento do que é uma democracia parlamentar e do que é negociar.
    Habituados como estão às maiorias absolutas e aos negócios mais ou menos secretos entre direções partidárias, os nossos comentadores ficam horrorizados com uma negociação mais ou menos pública e pela falta de respeito para com o chefe.

    À nossa direita não lhe faz impressão o que está no orçamento. O que a perturba é que andam a contestar o chefe do momento. É sintomático que toda a gente diz que o orçamento tem de ser aprovado e ninguém se rala com o que lá consta.

        1. Um partido que votou sem balbuciar cinco orçamentos do Estado mais um orçamento suplementar “tem andado a negociar”. Diz você.
          Esperou pela pandemia para fazer músculo.
          Parece obsceno. E se calhar é mesmo.

  3. “Cão que ladra não morde”. N. Mailer arguto. Será pouco lisongeiro ou será um sabio saber, o conviver sem violência mas mantendo a dignidade possível?.
    A arte de saber tratar com o muito próximo. Desopila-se depois confraterniza-se. Senão fica-se a falar para as paredes … cheio de saudade do “convívio”.

      1. Vocês acreditam em psicologias colectivas? Não sei se um estilo de comunicação corresponde a uma psique nacional..

          1. Sem dúvida. Mas se calhar os italianos também fazem isto. Ou os russos. Ou os irlandeses.

          2. Os italianos são muito mais histriónicos e espalhafatosos. Falta-lhes a contenção dos portugueses, bem ilustrada neste diálogo entre os velhos pescadores.

  4. Custa-me a perceber a nossa direita e os seus comentadores acerca do orçamento.

    Se pensam que é imprescindível que o orçamento passe, a direita só tem de votar nele.
    Se acham que o orçamento não merece a aprovação porque não presta, parece um pouco lunático andar a exigir que outros o aprovem.

    Decidam-se: Querem o orçamento votam nele; não querem o orçamento votam contra e pedem que os outros votem contra. O resto é pura chicana política.

    1. Custa-me perceber como é que você se chama.
      Tentei, mas não consegui.
      Você é daqueles que usam máscara do cabelo ao tornozelo.
      Deve ter imenso medo da “direita”.

      1. Já experimentou recusar comentários anónimos?
        Era menos cansativo do que estar sempre a insultar as pessoas

        Nunca compreendi o seu desejo de saber os nomes de todos, parece a Stassi.

    1. Também, Teresa. Mas dois portugueses, naquele contexto, poderiam perfeitamente conversar assim.
      Mailer, neste trecho, revela ter bom ouvido. É um atributo essencial para ser bom escritor.

  5. Li em tempos o livro, confesso que não me lembro da data, mas gostei, o filme nunca vi – A piada deste orçamento é que o mesmo será para rectificar algures em 2021 (algo admitido pelo Sr Ministro das Finanças), logo tal como o livro de Mailer estamos perante uma obra de ficção, mas Mailer em termos ficcioniais era muito melhor que Leão 🙂

    Uma excelente semana

    Pedro Cunha

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