Quando eu era pequenina, a Avó ninava a canção do Barquinho e eu choramingava: Pobre barquinho, que fez chape!! no mar…
Mal damos pelo tempo passar e já estamos a aprender. Aprendemos a sorrir, a comer, a gatinhar, a falar…
Num ápice, estamos a juntar números e letras, a aprender o B + A = BA e o 1 + 1 = 2.
Aprendemos sobre Portugal, sobre os Primitivos, os Bárbaros, os Gregos, os Romanos, os Arabes e o al Andalus, osCristãos, o Condado Portucalense e a Reconquista.
Aprendemos que do tempo das trevas nasceu uma luz imensa.
Aprendemos principalmente sobre o mar e os marinheiros que montados em cascas de noz com mastros com as velas da Cruz de Cristo, cavalgavam as ondas por esses mares fora, sem medo do desconhecido, rasgando horizontes, enfrentando tempestades, colhendo para Portugal os frutos da imortalidade histórica. Aprendemos que não há vento que nos desvie nem onda que nos afunde. Aprendemos que o homem do leme nos levaria sempre a bom porto, enfrentando intrepidamente todos os mostrengos que lhe quisessem obstruir passagem:.
Não sei se é por estar a ficar (mais) velha, que me sinto nostálgica e derrotista, mas tem dias que estou a ver as notícias, sempre más, só tristezas, crimes, desgraças e corrupção e me pergunto por onde andará o Homem do Leme, um Homem do Leme.
Temos andado á deriva por tanto tempo e não há ninguém com vontade e pulso firme para conduzir este barco através deste negrume de incontrolável turbulência, através deste mar de despudor e ignomínia.
O Homem do Leme tornou-se no D.Sebastião da era moderna e voltará talvez numa manhã de nevoeiro. Só espero que ainda tenha visibilidade e visão para poder encontrar Portugal, mas tenho em mim que destas trevas não sairá qualquer faúlha, desde que a imoralidade a desvergonha e a incorrecção se tornaram parte integrante da cultura moderna
“…
Dar-te-ei a nau Catrineta
Para nela navegar.
Não quero a nau Catrineta
Que a não sei governar.
Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?
“Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar
…”.
Bom Dia de Portugal.

O mesmo autor que musicou a “Nau Catrineta” https://youtu.be/exMnbs0wjxU
também escreveu isto noutra canção:
“chusma de gulosos dedilha folhas secas, viciosos canudinhos
em extase escondidos de tudo areou perdeu o tino dos caminhos
e andamos ao pairo sem norte nem sol no desvairo das folias
se o piloto trás dois nortes pelo seu sol outro em sua fantasia
e as ilhas deste mundo sem bóias que as prenda lá no fundo deste mar
andam sobre as águas bailam pelas fráguas como bóias a bailar a boiar”
https://youtu.be/e2gzWq9mqHE
Não conhecia. Gostei.
Bom feriado
Mas termina: “deu um estouro o demónio,acalmaram vento e mar”.
Também não começa naquela estrofe, verdade?
O autor era um optimista religioso, coitado, valia-se dos anjos para combaterem por ele as agruras da vida. Por isso nunca se soube o seu nome, com aquela filosofia de vida, não deve ter ido longe.
Maria, vivemos somente mais uma crise da história. E é bom que a vivamos, pois é sinal que somos actores e autores da História. Há uma cidade dos Homens e uma cidade de Deus.
O mundo deve ser aceite primeiramente como o que “É”. A escolástica cristã considerava que o Mundo era a fonte primária do conhecimento (quod in intellectus est, primo in sensus erat). Porém a Revelação ajuda-nos a compreender o que devemos transcender.
E é este reconhecimento do que se deve transcender que também nos ajuda a compreender como podemos receber a Paz que nos é dada: “Dou-vos a Minha Paz, deixo-vos a minha Paz. Não vo-la dou como o mundo dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. (Jo, 14:27)
A questão, Vento, é que vivemos crises da história há séculos e cada vez mais a tendência é para piorar. Não quero ser actor ou autor de um guião tão sujo num palco tão triste.
Se ajudar, aqui vai:
“O homem pré-histórico tem Destino. É parte integrante do Universo. O Homem histórico conduz o Destino. Ordena a sua própria vida. O Homem trans-histórico vive a sua Sorte. Está implicado na aventura total da realidade, participando na porção que lhe é atribuída ou configurando gostosamente a parte que ele próprio é”. Raimon Panikkar
Não acredito em predestinação. Seja de que tipo for, destino, sortes, maktub…
Nós somos, em qualquer contexto, apenas a soma das nossas decisões , mesmo num cenário de crise histórica. O homem pré- histórico, sem qualquer tipo de entraves sociais, tinha muito mais liberdade de decisão do que nós.
Não há qualquer predestinação no contexto.
Avancemos, ainda do mesmo autor:
A mentalidade pré-histórica não tem de justificar a existência do homem a si mesmo ou a outros. Simplesmente, o ser humano vive como qualquer outro ser vivo. A consciência histórica deve justificar, isto é, demonstrar, o valor da existência do homem através do seu saber, criando ou produzindo o seu próprio mundo com seus valores. O homem moderno é um trabalhador. O Homem Trans-Histórico perdeu tanto a ingenuidade pré-histórica como o optimismo/pessimismo histórico. Sente o impulso de ser o que presume que é, ocupando o seu lugar próprio no Universo.
Portanto, as palavras “destino” e “sorte” possuem um significado diferente daquele que lhe atribuiu.
Acredito que sinta que é o que presume que é, sim.
O sentir também é parte do viver. E não sendo atributo exclusivo, também é experiência. O sentir não diz somente respeito ao ver. Experimenta-se o que não se vê e, por isto, presume-se o que se é.
Pessoalmente até acho que as experiências mais marcantes pouco ou nada têm a ver com o sentido da visão
A liberdade do animal pré histórico passava sobretudo por escolher em que dias poderia comer.
Quem bom poder escolher quando comer! Tanta gente a querer comer sem poder, quanto mais escolher…
A Dulce entendeu-me mal.
“O homem pré- histórico, sem qualquer tipo de entraves sociais, tinha muito mais liberdade de decisão do que nós”.
O animal bípede pré-histórico escolhia os dias em que não deveria comer. Nós, os modernos, somos capazes de escolher os dias em que devemos comer menos.
E sim, Dulce. Uma leitura atenta mostrar-lhe-á que não somos nem melhores, nem piores que os outros atrás de nós. Somos apenas diferentes.
Se me permite, qual a Idade Dourada que ficou para trás? Porventura aquela em que tinhamos 20 anos e a liberdade de ainda podermos “escolher” quem iriamos, ou julgavamos, que iriamos ser?
A Idade Dourada por definição é a do descanso do guerreiro antes da partida para o Valhalla. Não se aplica aqui.
Não é verdade que somos apenas diferentes. Somos piores. Cada vez piores. Somos informados e continuamos a portar-nos como irracionais.
Eu não consigo escolher os dias em que devo comer menos, com grande pesar meu, Pedro.
Sugestão:
Cabeça de Burro, Douro.
https://www.wook.pt/livro/os-anjos-b ons-da-nossa-natureza-steven-pinker/1861 6206
Os Anjos Bons da Nossa Natureza.
Porque tem declinado a violência,
de Steven Pinker
As notícias incessantes sobre guerra, crime e terrorismo criam a ideia de um mundo cada vez mais ensanguentado. Mas neste importante livro Steven Pinter mostra-nos que a violência, pelo contrário, tem decrescido nos últimos períodos da história. Mas como aconteceu isso?
Pinker examina os demónios interiores que nos conduzem à violência, e os anjos que dela nos afastam, mostrando-nos como certas alterações nas nossas ideias e acções permitiram aos anjos do bem triunfar. Ao mesmo tempo, o autor quebra vários mitos sobre violência, apresentando uma nova defesa do modernismo e do Iluminismo.
Este livro dá seguimento à exploração de Pinker sobre a natureza humana, misturando psicologia com história e criando um retrato fascinante do nosso gradual domínio sobre a violência.
Há violência e violência, Pedro.
Se uma pode ter decrescido nos últimos períodos da história, outras têm medrado em ritmo galopante: a violência moral, a violência verbal a violência ecológica e por aí fora.
Pode ser uma leitura interessante, essa que propõe.
Esta agora!
“Há uma cidade dos Homens e uma cidade de Deus.”
Egoísta Deus. Para que quer Deus uma cidade só para Ele?
E nós tão apertadinhos na nossa.
Então onde iria Ele alojar as infinitas ? A misericórdia, a bondade, a sabedoria, a perfeição , e respectivas famílias?
Nesta crise imobiliária, ou tem uma cidade ou está bem arranjado, Corvo.
Ah! Pois é, Maria Dulce. É que é mesmo isso que refere, e mais aquelas alminhas abençoadas, sagradas piedosas, alvas virtuosas de corações puros e almas imaculadas sempre dispostas a verterem uma lágrima pelos pecados do mundo.
Para essas também o alojamento. Mais! requintados aposentos e logística privilegiada.
Eheheh
“onde andará o Homem do Leme, um Homem do Leme.”
De qual leme? O leme da Televisão? Se mudar a homem do leme, mudam as notícias que vê (ou ouve ou lê).
Felizmente não preciso que me assobiem para beber água, Zeca, quero lá eu saber quem manda na televisão
“quero lá eu saber quem manda na televisão” De facto muitos pensam assim. E há mais coisas de que não querem saber.
Verdade. Incomoda-me pouco a ironia duvidosa, por exemplo.