Ano de pesadelo


Pedro Correia,

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Em jornalismo, quase sempre, menos é mais. Lembrei-me desta frase, inspirada no lema artístico de um célebre arquitecto, quando vi aquela que considero a melhor capa de revista deste amargo ciclo anual prestes a chegar ao fim. A da edição dominical do El País. 

Uma capa em que a fotografia diz tudo, surgindo acompanhada de uma data que funciona em simultâneo como título e legenda. A foto transpira autenticidade e tem cunho universal: foi captada em Espanha, mas poderia ter sido em muitos outros países igualmente golpeados pelo coronavírus que nos envolveu num cortejo de luto e dor. 

A carga emotiva desta imagem torna irrelevante qualquer palavra. E nem é preciso situá-la no espaço: basta enquadrá-la no tempo. Quatro caracteres bastam: 2020. Ano de pesadelo.

31 comentários em “Ano de pesadelo”

  1. Com a tendência que sempre existe para acentuar a desgraça, falta faz uma foto com os recuperados dessa e outras doenças a serem acompanhados pelos profissionais de saúde à porta de um hospital ou de casa para demonstrar a alta.
    Também existem lágrimas de alegria.

    1. Concordo consigo…

      @Pedro,
      Boa escolha! Eu partilho duas, receio dizer se foram as que mais me marcaram, mas são imagens poderosas, em meu entender e publicadas pela AFP: https://www.gettyimages.pt/detail/fotografia-de-not%C3%ADcias/cat-looks-down-at-a-ukrainian-soldier-resting-fotografia-de-not%C3%ADcias/1206473871?adppopup=true

      https://www.gettyimages.pt/detail/fotografia-de-not%C3%ADcias/this-picture-taken-on-may-4-2020-during-the-fotografia-de-not%C3%ADcias/1211845407?adppopup=true

      Mais teria, mas como disse, menos é mais…

      Feliz Natal…

    2. Neste caso não é preciso “acentuar desgraça”: ela marcou, e de que maneira, este ano de pesadelo.
      O jornalista competente reflecte a realidade: não a maquilha nem a deforma.

      1. É uma realidade tão válida quanto a que apresentei. 2020 em nada tem sido diferente do que há milénios ocorre um pouco por este mundo. A única diferença está nos protagonistas: somos nós. Podemos contar na primeira pessoa o que outros viveram.
        Feliz Natal, porque isto, sim, é uma felicidade.

  2. “2020. Ano de pesadelo.”

    Ano de pesadelo sim, mas não por causa das mortes, que não foram assim tantas nem de gente importante – a grande maioria dos mortos são pessoas que já estavam presas à vida por um fio.

    Ano de pesadelo por causa das medidas repressivas governamentais, que nos fizeram a vida negra.

    1. Ano de pesadelo também para as mortes não covid que já são dez mil a mais em relação ao ano passado.

    2. Desvalorizar mortes de seres humanos como se fossem lixo é algo que coloca quem assim pensa a esse nível.

      Não admira, portanto, que todos os que vomitam tais “opiniões” se refugiem num cobarde anonimato. Jamais diriam de cara descoberta e à luz do dia o que vão bolçando sem identificação nas redes sociais.

      1. Os “amaricanos” passaram a proibir essa palavra, que para eles é tabu e para nós era de uso corrente. Agora até na carga semântica dos vocábulos passámos a aderir às imposições deles: somos todos “amaricanos”.

        Conclusão: a coisa ’tá preta.
        Negra, nem pensar.

    3. Não foram assim tantas? Raramente me lembro de um ano em que tenha morrido tanta “gente importante”. A maior parte não de covid. Mas que é um ano negro, é. Sim, sobretudo pelas mortes, sejam “importantes” ou não.

  3. 2020 ainda não terminou.
    O próximo ano, o da vacina, não estou particularmente optimista.
    Pior ainda vão ser as repercussões de tudo isto, ninguém faz a mínima das consequências da virose, e temos um ano de casa, sem actividade física e social ditas “normais”. Isto vai pagar-se.

  4. A foto é brutal. A imagem do desespero.
    No entanto, para mim, o pior de 2020 foi não poder velar os mortos. Muito pior que as mortes (que as há sempre e em números semelhantes). Velar os nossos mortos define-nos como seres humanos. Ninguém merece essa privação…

  5. Esta foto pode ser de qualquer ano, pois a morte é inevitável e faz parte da vida, mas não deixa de causar tristeza e dor aos entes próximos.

  6. Concordo com a força desta imagem.
    Mas …. quando olhei para ela uma das primeiras ideias que me assaltou foi: estão fazer o que é desaconselhado a fim de eviatar a transmissão do vírus. Não sei se é possível ver a foto e não pensar nisto.

    1. A força expressiva da imagem também tem a ver com isso.

      Nada de poses risonhas e contentinhas.
      Nada de arco-íris e V de vitória para satisfazer as boas almas que não suportam sequer uma dorzinha de cabeça e são incapazes de conviver com a desgraça alheia.

      Nada de “distanciamento social”, essa tradução literal do “amaricano” que nos inundou neste ano de pesadelo, incentivando cada um a encerrar-se numa bolha sanitária onde as palavras “tu” e “nós” não entram.

      Um abraço que é amparo num momento de indizível dor – que toca a todos.
      Solidário, não solitário.

      1. Concordo com a maneira como encara os acontecimentos. Incluindo o enjoo que o “distanciamento social” causa. Acho intragável. A propósito: hoje no Público vem a palavra Moldova. Então não é Moldávia?
        Tenho impressão de que muitos jornalistas nunca ouviram falar de dicionários. Eu tenho sempre um à mão e mesmo assim de vez em quando sai-me cada asneira….

        1. É um tema que também me suscitado perplexidade. “Moldova” é, pela morfologia e até pela sonoridade, um adjectivo. No nosso idioma não faz sentido, portanto, ser substantivo – muito menos um substantivo próprio.

          O substantivo, neste caso, será mesmo Moldávia. Ou Moldóvia, para a distinguir da outra Moldávia, pertencente à Roménia.
          O Ciberdúvidas, como noutros casos, pouco esclarece:
          https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/moldavia-e-moldova/32343

          Faz muita falta, nas redacções dos órgãos de informação, o antigo (e excelente) Dicionário Onomástico e Etimológico, de João Pedro Machado.
          Património da língua portuguesa, que devia ser reeditado. Urgente missão de serviço público.

  7. vejo a coisa com outra complexidade. Claro que nao defendo que se mistifique, que se engane a realidade. Mas justamente porque a situaçao é problematica, até de pavor relativamente a cada pessoa que o sente, mas o termo terror é exagerado, sendo a situaçao problematica, nao “precisamos” de imagens chocantes, mesmo quando sem sangue.
    Inclusivé, lá vem a badalada questao da saude mental, nao se trata com pessimismos tais.
    Quem anda, que continue a andar, mas com cuidado pois o “chao” , algum chao nao assinalado, está armadilhado.

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