O Delito de Opinião tem leitores que não deixam os assuntos morrer. Em 23 de Maio pp., pouco depois da “partida” da troika, escrevi aqui um texto em que criticava o que, em meu entender, era uma decisão contra a corrente, populista e demagógica de um autarca do PSD, que à beira de um acto eleitoral prometia um caminho pedonal em honra de uma beata. Em causa estava um investimento, dito “estruturante“, cujo custo se anunciava ser de €100.00,00 (cem mil euros).
Pois bem, no passado dia 17 de Julho, um leitor chamou-me a atenção para uma notícia da insuspeita Rádio Renascença que anunciava a inauguração do caminho pedonal. O único problema é que os € 100.000,00 (cem mil euros) iniciais tinham entretanto passado, em dois meses, para € 500.000,00 (quinhentos mil), valor em que a notícia da emissora católica só incluiu o caminho.
Entretanto, um outro leitor veio dizer-nos que foi visitar a obra e ficou “maravilhado“. Ainda bem. Eu é que fiquei mais baralhado com as contas.
Não creio que seja grave, como esclarece este segundo leitor, que uma Casa Memorial de alguém que pregou a pobreza pareça agora um hotel de charme. E já nem vou perder tempo a discutir a necessidade do investimento. O que me custa perceber é como é que à volta de uma obra que se anunciava antes das eleições que iria custar € 100.00,00, em Julho tenha custado, segundo a Renascença, € 500.000,00. E que para um dos leitores, pelas suas contas, entre a estrada, a renovação da casa e uma nova igreja já tenham “voado” para cima de € 1.400.000,00.
Não sei quem tem razão. Como também não sei se a obra foi feita em regime de PPP com terceiros. Mas com mais este mistério por desvendar, vamos esperar pelas próximas eleições. Pode ser que até lá apareça alguém que faça luz sobre as contas. Sobre estas e sobre mais algumas que, apesar da troika, persistem na sua pouca transparência.

Uma luzinha sobre os custos da obras da Av. Ribeira das Naus e respectiva colossal derrapagem também seria oportuna.
Vamos lá tentar então fazer um pouco de luz.
Tirando a notícia da Renascença, que é picada por todos os outros, a única referência feita na imprensa local a um gasto de 500 mil euros feito pela Câmara de Viseu em Ribafeita tem que ver com um conjunto de obras inaugurado uns dias antes (7 de Junho), que incluíram melhorias em várias estradas e caminhos da freguesia, a que se juntaram obras de água e saneamento.
Relativamente à obra em questão, há efectivamente uma referência, feita pelo próprio presidente da Câmara, de que o custo final ultrapassou os 100 mil euros. E, visualizando as fotos disponíveis, fica-se com a ideia de que assim terá sido. O que não significa necessariamente que o excedente ao protocolado tenha sido ou venha a ser suportado pela Câmara. E muito menos que estejamos perante uma derrapagem correspondente ao quíntuplo do orçamentado.
Há uma outra explicação possível para o relatado pela Renascença: que a quantia indicada se refira, de facto, ao custo da estrada/caminho (100.000€) + o custo da recuperação da casa/museu (400.000€, atestado por diversas fontes), inaugurada no domingo passado. Custo este suportado inteiramente por privados.