Analogias


Luís Naves,

Nos meios de comunicação e textos de opinião são feitas frequentes analogias entre o nosso tempo e os anos 30 do século passado. No entanto, ao contrário do que aconteceu nessa década, não temos movimentos fascistas e comunistas com força para derrubar o sistema democrático nem crise económica suficientemente devastadora para justificar tais movimentos; não há países humilhados em tratados internacionais nem necessidade de inverter derrotas militares ou de ocupar territórios vizinhos. A luta de classes está desacreditada e a ideia de raça superior é ridícula. O capitalismo e a democracia não mergulharam em crise existencial e o totalitarismo não encanta nenhuma alma. Assim, o paralelo mais correcto parece ser com 1900. O nosso sistema é marcado por mudanças tecnológicas, má distribuição da riqueza, rupturas culturais, oligarquias em torres de marfim, globalização acelerada, direitos humanos ao serviço da ideia imperial, bons e os maus nacionalismos, legião de descontentes, aceleração das comunicações e triunfo do capitalismo sem fronteiras. Há ONG de hoje que parecem missionários de 1900, temos também radicais anarquistas, terrorismo de baixa intensidade, corrida aos armamentos e equilíbrio de poder entre dois grupos de impérios. As semelhanças são fantásticas. Por isso, torna-se mais estranha a desajeitada fixação nos anos 30. Qual é o objectivo de agitar este fantasma? Talvez seja a intenção de desvalorizar o voto de milhões de pessoas que tentam contestar o poder surdo das oligarquias. A nossa democracia corre o risco de ser subvertida não por grupos radicalizados que defendem tirania estatal ou a teoria da raça superior, mas por liberais que querem suprimir o voto do povo ignorante e criar uma sociedade dividida racialmente, sem fronteiras e com salários sempre baixos, com a gente comum agarrada à droga da dívida eterna.

5 comentários em “Analogias”

  1. É uma análise parcialmente correcta.
    A crise bolsista que ocorre em 1929 afecta a Europa sobremaneira e revela que os governos europeus de então, particularmente as potências económicas e militares, jogavam no casino americano pelas taxas de juro especulativas que então se praticavam nas transacções bolsistas de NY. Não é estranho neste fenómeno o facto ineludível desta crise ter sido antecipada pela bolha imobiliária que ocorria na costa Oeste norte-americana.
    Aqui chegado, não se estranhe, portanto, a oportunidade mais tarde aproveitada por Hitler para lançar seu programa económico e o revanchismo megalómano com o apoio maioritário dos alemães.

    A miséria é o quadro semelhante que faz emergir os conflitos. Trump percebeu isto e fez uma viragem que o levará para os livros da história social e económica mundial. Para isto bastou-lhe somente defender seu povo da Nova Ordem Mundial, que Biden representa: semeadora de antagonismos, militante das guerras localizadas e na subversão cultural, subornadora de países 3º. mundistas como a China e Índia para aí praticarem uma política destruidora do ambiente e de desindustrialização do Ocidente.
    Tudo isto com o apoio dos governos neofascistas europeus, apoiados também por extremistas ditos de esquerda (BE em Portual e Syriza na Grécia), dominados por Bruxelas.

  2. A nossa democracia corre o risco de ser subvertida […] por liberais

    As teses do Luís Naves têm uma curiosa semelhança com as de Viktor Orbán.

  3. Faz-me sempre confusão quando se utiliza o termo liberal à americana em vez de esquerdista ou socialista (já que o termo progressista também é fraudulento).

  4. Creio que falta o Celeste Império na equação.
    De resto , análise correcta quanto ao “Ocidente” – ou parte dele…

    JSP

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