Amor ao próximo


Cristina Torrão,

«Que em Hamburgo seja possível despedir alguém por amar uma pessoa do mesmo sexo é inaceitável. Mas onde vivemos nós? (…) O Direito do Trabalho tem de ser modificado, para que todos percebamos em que século vivemos.»

Hoje fui despertada, ao pequeno-almoço, por estas palavras de Daniel Kaiser*, comentador radiofónico do NDR, o canal regional do Norte do grupo estatal radio-televisivo ARD. Mas incluirá o Direito do Trabalho alemão alguma lei neste sentido? Não se respeitam os Direitos Humanos neste país?

Na verdade, Daniel Kaiser falava da Igreja Católica alemã, que acaba de viver uma das semanas mais duras da sua existência. Não foi só a publicação de um relatório* sobre abusos sexuais na arquidiocese de Munique/Freising, que acusa o actual arcebispo, cardeal Reinhard Marx, e o próprio papa emérito Bento XVI, arcebispo entre 1977 e 1982, de terem ocultado casos deste tipo, protegendo os prevaricadores. Foi também a semana em que cento e vinte e cinco pessoas – incluindo padres, trabalhadores a tempo inteiro ou voluntários na Igreja Católica nos países de língua alemã – fizeram história ao revelarem fazer parte da comunidade LGBTQIA+. Esta é a primeira vez, em todo o mundo, que um grupo de a(c)tuais e antigos colaboradores profissionais e voluntários da Igreja Católica Apostólica Romana se assume em massa e publicamente.

“Nós, como pessoas LGBTIQA+, queremos viver e trabalhar na Igreja sem ter de sentir medo”, começa o manifesto, que inclui pessoas que trabalham nos campos da educação e ensino, cuidados, trabalho social, música litúrgica e animação pastoral, entre padres, assistentes pastorais, professores de educação religiosa e pessoal administrativo e que se identificam como “homossexuais, bissexuais, trans, intersexuais, queer e/ou não-binários”.

“A Igreja deve finalmente assumir a sua responsabilidade na luta pelos direitos humanos das pessoas LGBTQIA+ em todo o mundo”, já que a maioria dos signatários “sofreu numerosas experiências de discriminação e exclusão, também na e pela Igreja institucional”.

Os signatários dizem já terem vivido situações em que foram obrigados “a manter em segredo” a sua orientação sexual ou identidade de género. “E só nesta condição nos foi permitido permanecer ao serviço da Igreja. Isto criou um sistema de ocultação, dois pesos e duas medidas e hipocrisia, um sistema tóxico, nocivo e vergonhoso, que até prejudica a nossa relação com Deus e a nossa espiritualidade”.

De facto, é de Direitos Humanos que se trata (e, para quem gosta de nos comparar com animais, acrescente-se que, na Natureza, também há homossexualidade e mudança de sexo, por exemplo). Além disso, recordemos que pessoas LGBTQIA+ sempre existiram, existem há milénios, não é uma “modernice” inventada nos nossos dias. É incrível que ainda se ande a esconder esta realidade; é incrível que haja discriminação, numa Igreja que faz do «amor ao próximo» um dos seus pilares de sustentação; é incrível que se continuem a condenar pessoas a viver na clandestinidade; é incrível que ainda haja gente que se recuse a incluir esta realidade na formação de jovens e crianças.

Vai sendo tempo de encararmos qualquer ser humano ao nosso nível, sem nos acharmos superiores, apenas por pertencermos à maioria heterossexual. E comentários do género “não ando a exibir aquilo que faço na privacidade” são profundamente injustos e desonestos, em relação a pessoas que revelam outras preferências sexuais. Caso contrário, também teríamos de acusar aqueles que afirmam com orgulho serem heterossexuais de estarem a exibir a sua intimidade.

A Igreja Católica alemã enfrenta uma grande crise, que tenta ultrapassar através do Caminho Sinodal, um movimento iniciado em 2019 e que prevê plenários regulares de discussão sobre temas como a moral sexual ou a ordenação de mulheres. Porém, e como seria de esperar, muitos obstáculos se apresentam neste Caminho. Não só a pandemia obrigou a adaptações, também os sectores alemães mais conservadores e o próprio Vaticano acusam os que exigem reformas de estarem a forçar uma divisão entre os crentes. E, no entanto, continuar a calar e a ignorar realidades e problemas seria continuar o caminho errado deste “clube de homens”, que tantos crimes já cometeu, e continua a cometer, em nome de Deus.

 

* links que conduzem a sites alemães, de onde traduzi algumas passagens.

34 comentários em “Amor ao próximo”

  1. Não é a igreja Católica alemã que enfrenta uma grande crise, é a sociedade no geral.
    Os problemas da igreja Católica não são de agora. A inquisição, a cumplicidade no holocausto, a pedofilia são os registos que envergonham a realidade.
    A igreja Católica, tal como outras religiões, é feita por homens. Homens esses com o único objectivo de manter e divulgar o falso puritanismo das sociedades.
    Não é a igreja Católica que anda a partir estátuas, nem é a igreja Católica que despede não-vacinados, ou por amar uma pessoa do mesmo sexo.
    O pecado da igreja Católica sempre foi o silêncio. No dia em que a igreja Católica deixar de olhar para as ovelhas e passar a olhar para as pessoas, aí sim, o mundo ficará mais justo.

  2. O que interessa ao caso é o facto de a Igreja ter sido refúgio, por ocultação, de muitos desses rejeitados pela sociedade (sem excluir a responsabilidade da Igreja na formação dessa sociedade e dessa rejeição).
    Muita da invocada espiritualidade dessa gente é o resultado de um sofrimento derivado dessa ocultação, e tudo que vem a lume últimamente só traduz o número de homo e o grau de solidariedade na ocultação dentre os membros activos na Igreja.

    Se lermos a poesia erótica dos clássicos, haverá mais cantos ao sexo homo do que ao hetero!
    Qual é o projecto?
    «…haja gente que se recuse a incluir esta realidade na formação de jovens e crianças»
    Estamos neste esterco de formar crianças sem definição sexual construída para a experimentação homo?
    Como todo o corretês pós-moderno, toda o ajustamento se faz pelo absurdo e o anti-social, dando palco e primazia a toda a anormalidade e a toda a devassidão.

    1. Quem falou em “formar crianças sem definição sexual construída para a experimentação homo?” Assim como ler poesia ou um livro sobre homossexualidade não faz de ninguém homossexual, também explicar às crianças certas realidades não implica que optem por elas. Apenas ficam a saber que existem, a fim de aprenderem a aceitar, a não discriminar. Acredita mesmo que explicar a um rapazinho o que é a homossexualidade faz dele isso mesmo? Ele até se pode tornar homossexual, mas isso nada tem a ver com a explicação. Se lho escondessem, ele seria homossexual na mesma.
      Liberte-se desse medo!

      1. O pressuposto é que sejam crianças.
        Fale-se-lhes em descobertas na idade das descobertas; pergunte-se-lhe se são definidas em tempo de indefinição; fale-se-lhe em aceitação em tempo de experimentação….
        Espere pela adolescência. que entretanto há muito a fazer com os adultos.
        E são os homo adultos que suscitam uma campanha que se dedica a normalizar a anormalidade ao ponto da chachada do ‘orgulho gay’.
        Há que ignorar tudo isso?
        O que dizer a uma criança sobre o orgulho gay, sabe dizer-me?

  3. As pessoas devem comportar-se com a dignidade moral perante os outros. Exibições com Paradas de orgulhos plantadas na testa, é uma afronta ao saber estar . A intimidade se se praticar em casa, certamente que ninguém se incomodará.

    1. E quem nunca faz parte dessas paradas e pratica a intimidade em casa, como deve ser, também pode levar o/a parceiro/a do mesmo sexo a uma festa de amigos heterossexuais, com crianças? Ou isso também é contra a dignidade moral?

      1. Será que não estamos a confundir a compreensão com a promoção?
        Será que a ostentação da diferença não irá acentuar ainda mais a desigualdade?
        Todos temos direito à diferença, mas quando a exibição é pública não difere muito das antigas atracções circenses.

        1. Não é maior que a ostentação de diferença visível na parafernália da indumentária de bispos cardeais e papas em procissão – ouro, prata, sedas, arminho, carmim e púrpura.

          1. A ostentação de bens materiais não pode ser comparada à exposição pública de comportamentos não normativos.
            A ostentação na Igreja tem o objectivo de intimidação.
            A ostentação de comportamentos não normativos tem o objectivo de provocação.

          2. A normatividade dos comportamentos é dinâmica e não estática – muda, acompanhando a mudança de valores. E toda a mudança de comportamentos e normas sociais começa com provocação, até ser aceite.
            A Igreja não ostenta apenas para intimidar. Há muita ostentação de vaidade.(http://www.murciaconfidencial.com/2014/08/impactan-las-fotos-del-nuevo-arzobispo.html)

          3. É isso mesmo, beatriz, obrigada.
            Rejeitar a provocação é precisamente evitar que alguma coisa mude. Algo que vá contra a corrente é sempre considerado provocatório.

      2. Lá está a Cristina Torrão a “desconversar” e a tentar pôr na boca dos outros o que não disseram e nem sequer porventura pensaram.
        Almoço todos os dias num restaurante aqui da área com 2 amigos homosexuais assumidos e que toda a gente no bairro sabe que o são e eu, casado hetero “desde sempre”, pai de filhos cinquentões e de netos e netas nos vintes nunca me passaria pela cabeça ralar-me com o que eles são ou não na intimidade.
        Devemos dedicar-nos às nossas causas sem “descarrilarmos” em todas as pedrinhas nos carris, isso só dá cabo da “viagem” que um debate honesto deve ser.

  4. Eu recordaria que ser LGBTWYZ+canídeos é uma excelente desculpa para as sensibilidades woke, mas não impede de todo o assédio ou os abusos sexuais. São as mesmas pessoas.

  5. A organização vertical da Igreja, até há poucos anos a dificuldade de reunir sínodos de bispos e, ainda mais concílios, tornou a Igreja uma organização lenta a responder às mudanças da sociedade, transmitindo a ideia de estar sempre atrasada no tempo. Como hipótese gratuita pessoal, a relativa imobilidade da Igreja, facilitava que não apenas ela, Igreja não fosse questionada mas também que os seus agentes não fossem escrutinados.
    Tiveram razão muitos opositores da Igreja Católica e eu creio que, se tivesse vivido nesses tempos, teria sido cátaro e certamente luterano. Talvez mesmo zwingliano mas não calvinista. Só que, questionado e afastado o princípio da autoridade a aberta a interpretação das Escrituras aos crentes, as divisões foram-se multiplicando e hoje, parece-me válido comparar os malefícios da autoridade católica com os desvarios dos evangélicos americanos e brasileiros, para concluir que o catolicismo foi o mal menor. Para os que têm mais dificuldade de entendimento explicito que estou apenas a comparar malefícios; nem benefícios nem saldos finais.

    Como disse um comentador, o mundo e não só a Igreja estão em crise. Entendo que, ao longo da história, a conflitualidade mantem-se com períodos agudos e outros menos, e que estamos a sofrer o choque do fim da Pax Americana, 70 anos entre 1945 e 2015. Ao mesmo tempo o mundo ocidental, as heranças judaico-cristã, grega e romana estão em decadência. Alguns falam em fim de civilização e parecem pertinentes as comparações com o final do império romano mas, muito antes, já no Antigo Testamento, encontram-se semelhanças tão ou mais válidas. O culto do Bezerro de Ouro e o abandono dos princípios morais por imediatismo e hedonismo em Sodoma e Gomorra.

    A Alemanha tem dois aspectos marcantes. Por um lado o extraordinário espírito de obediência dos alemães, já identificado pelo escritor e ensaísta Friedrich Carl von Moser no séc. XVIII e confirmado por um jornalista e ensaísta norte-americano que viveu anos na Alemanha e que entendeu mesmo que, sem essa obediência, o regime nazi não teria sido viável.
    Por outro lado, os intelectuais alemães, muito mais que os franceses, embora estes façam mais propaganda, frequentemente tiveram abordagens fracturantes. Kant, Hegel, Marx, Heidegger, noutros planos Nietzsche, Freud e mesmo Max Weber, são exemplos bastantes.

    Hoje, depois do abandono dos princípios morais, a maior ameaça à civilização ocidental como a defini, serão a cultura de cancelamento e o movimento “woke” que por simplificação atribuímos a um caldo de cultura nas universidades americanas de topo, particularmente a quase totalidade da “Ivy League”. Só que assim esquecemos que as ideias originais são de filósofos alemães da escola de Frankfurt. É uma repetição, desta vez na América, do que aconteceu com as ideias marxistas que penetraram as universidades inglesas e chocaram o mundo quando se soube que “gentlemen” de boas famílias e graduados por Cambridge (não me lembro de também por Oxford) eram espiões ao serviço da União Soviética.

    Isto como intróito à crise na Igreja Católica alemã que é bem real, pode bem vir a ocasionar um novo Cisma e dispensava bem o oportunismo dos LGBTOIA+.

    1. “Por um lado o extraordinário espírito de obediência dos alemães, já identificado pelo escritor e ensaísta Friedrich Carl von Moser no séc. XVIII e confirmado por um jornalista e ensaísta norte-americano que viveu anos na Alemanha e que entendeu mesmo que, sem essa obediência, o regime nazi não teria sido viável.”

      Não acredito neste argumento, pois se isto fosse verdade isto significaria que o nazismo só pode acontecer em países onde os povos são obedientes como os alemães. Era bom que pudéssemos circunscrever o nazismo a um só povo com uma certa característica, porém isso parece-me uma ilusão e até perigosa.

      1. Exactamente, beatriz. É a procura de explicações fáceis para fenómenos complexos.
        E serão os alemães assim tão obedientes? A pandemia vem mostrando que não. A percentagem de vacinados não chega, ainda hoje, a 74% (vacinação completa, sem reforço). E todos os dias há, neste país, manifestações contra as medidas restritivas.

  6. Seria estulto pretender escalpelizar a crise na Igreja Católica Alemã por isso, sucintamente, identifico quatro temas fracturantes. Sem procupações de ordenamento, o celibato dos presbíteros, o ordenamento de mulheres, a admissão à Comunhão dos cônjuges divorciados e o reconhecimento eclesial das uniões homosexuais.
    Todos estes assuntos estão a ser observados, diria ponderados, pela Igreja que, a seu tempo – o que não é mesmo que o nosso tempo – dará as necessárias resposta num ou noutro sentido.

    Não é esse o entendimento de uma parte do clero alemão que quer ver os assuntos – não há ainda uma união de propósitos, uns têm um foco, outros outro – resolvidos no seu tempo. Nada de novo. É uma manifestação de imediatismo.
    As decisões da Igreja, se envolverem o príncipio da infalibilidade Papal ou seja, se forem sobre assuntos doutrinários, só podem ser decididas pelo Papa, depois de ouvidos os bispos em Sínodo reunido para o efeito. Nada de muito diferente das exigências de alteração de estatutos de uma sociedade comercial que implica assembleia geral e convocatória prévia com a ordem de trabalhos explícita. Diria que só falta o Papa que, na práctica, em grupos de grande dimensão, fossem eles o Espírito Santo ou o Champalimaud, existe sempre, ainda que informalmente.
    Já resulta claro o que significa um grupo de religiosos que se organiza como “Caminho Sinodal”. O nome diz tudo. Pretendem assumir os direitos decisórios que, na Igreja, cabem ao Sínodo dos Bispos ou seja, à totalidade dos bispos.

    Mas é facto que a crise é bem real e tem dimensões preocupantes. Houve mesmo um bispo que já declarou que está disposto a aplicar na sua diocese as decisões do “Caminho Sinodal”. Na opinião de comentadores que sigo, foi este o motivo da demissão do cardeal Reinhard Marx de conselheiro do Papa. Terá entendido que essa situação, sendo ele o presidente da Conferência Episcopal Alemã, poderia levá-lo a situações de conflito institucional. Note-se que o Conselho do Papa (tem adjectivo que não recordo) é composto apenas por 7 cardeais e, sendo o cardeal Marx relativamente novo, isso dava-lhe a qualidade de “papabili”. Não é uma renúncia que se faça de ânimo leve.
    O futuro é incerto. Se o movimento não morrer por si – ainda não tem estrutura nem agenda bem definida – ou acontece mesmo uma separação, Cisma talvez seja exagerado, ou alguns serão excluídos da Igreja e outros a ela voltarão. Na sequência do Concílio Vaticano II, aconteceu uma coisa semelhante com a Teologia da Libertação. Aí ainda não foram os direitos dos LGBT mas os direitos sociais dos pobres. Tal como no marxismo, já não eram pobres mas explorados e o desvario foi de tal ordem que houve padres, depois ex-padres a pegarem pessoalmente em armas e participar em acções de guerrilha na América do Sul. Para avaliar a dimensão do que se passou, a Companhia de Jesus, perdeu um terço dos seus padres, que abandonaram a obediência à Igreja, pela Teologia da Libertação. Os jesuitas, considerados facínoras pela esquerda tradicional e que são os primeiros a por ela ser expulsos, foram os que mais aderiram ao ideal do combate contra a pobreza.

    Seguir-se-ão, se a autora do postal assim deixar, os LGBTetc. e a pedofilia.

  7. Um grupo de 125 pessoas incluindo padres, trabalhadores a tempo inteiro e voluntários.

    No desconhecimento das actividades dos voluntários, muito menos das suas motivações, ignorando o teor dos contratos de trabalho, designadamente se têm cláusulas especiais de restrições que colidam com as prácticas baseadas na moral cristã, ficam os padres. Ora a orientação sexual da Igreja para os padres é linearmente simples: abstenção.
    Aparecerem agora padres a exigir direitos homosexuais, só pode quere dizer que querem praticar a sodomia pois, tal como os padres heterosexuais não podem praticar, padres homosexuais também não. O que a Igreja reprova é a práctica, não é a orientação.
    E, se não querem praticar, para quê a declaração pública?
    Ao menos as declarações de Adolfo Mesquita Nunes, percebem-se. Assume-se publicamente para obter o apoio do “lobby gay” e arrima-se à IL porque aí tem melhores possibilidades de voltar a ser secretário de Estado, do que no CDS, de que foi vice-presidente.

    Estes 125 fazem lembrar os 100 “independentes” que invariavelmente publicam um abaixo-assinado de apoio ao PS antes de cada eleição, logo seguido por outro de 132 que não se dão com os anteriores mas não querem ficar esquecidos na distribuição das prebendas (o Boaventura Sousa Santos assina ambas, como dizia com graça um comentador).
    Ora, ao contrário de Cuba, Coreia do Norte, etc., a Igreja não tem fronteiras fechadas. Quem quiser sair, sai. É assim muito engraçado, ver invocar para esta situação os direitos de trabalho e os direitos humanos; e ainda mais engraçado se se consegue fazê-lo sem se rir.

    Ainda falta a pedofilia 😉

    1. “Aparecerem agora padres a exigir direitos homosexuais, só pode quere dizer que querem praticar a sodomia pois, tal como os padres heterosexuais não podem praticar, padres homosexuais também não. O que a Igreja reprova é a práctica, não é a orientação.
      E, se não querem praticar, para quê a declaração pública?”

      Só muito recentemente é que a Igreja católica deixou de reprovar oficialmente a homossexualidade e qualquer orientação sexual não heterossexual. Os padres têm uma identidade e uma vida sexual, mesmo sendo celibatários. O celibato não anula a sexualidade. Aliás, é uma opção de vida sexual. Portanto, esses padres podem querer afirmar a sua identidade justamente por entenderem que não têm que esconder quem são para ser aceites no seio da Igreja a que pertencem. Podem estar a querer lutar contra a hipocrisia.

          1. Cara Beatriz (jamais a trataria assim mas a perfeita comunhão com a autora do postal que assim se me referiu, leva-me a crer tratar-se de etiqueta o convenção que desconheço mas não me custa praticar).
            De duas uma: ou está algo esquecida da lógica que ensina ou não traz essa valia para este “blog”. Recapitulando.
            Nem mais, beatriz: lutar contra a hipocrisia.
            Na verdade, padres (e bispos e cardeais) homossexuais são, muitas vezes, aqueles que mais condenam a homossexualidade publicamente.

            (Resposta)
            Exactamente
            Ora o que eu escrevi foi:
            O que a Igreja reprova é a prática, não é a orientação.
            A “minha” lógica que não é sequer académica e muito menos magistral, dita-me que não existe hipocrisia quando membros da Igreja de orientação homosexual criticam a prática homosexual. Ou seja, nem todos os pássaros são azuis.
            Outra questão seria como se identifica a orientação homosexual em pessoas da Igreja que não praticam mas, sendo antiquado e acreditando em diferenças entre homens mulheres, aceito que estas possam ter uma intuição que à maioria dos homens e a mim, parece faltar. Também me faltam dons divinatórios, que seria outra forma de aceder ao conhecimento das orientações de não praticantes. De facto, até fiquei muto surpreendido com os resultados eleitorais.

          2. “De duas uma: ou está algo esquecida da lógica que ensina ou não traz essa valia para este “blog”. ” – isto é um argumento? Ou é só para tentar apoucar-me? Reparou que não o ataquei a si mas ao seu argumentou, ou não reparou?

            “O que a Igreja reprova é a prática, não é a orientação. ” – isto que diz não é verdade, a Igreja reprova a orientação que considera contra-natura e até aconselha a terapia de conversão, em muitos casos. No entanto, na realidade, não condena ninguém pela prática de homossexualidade (como sabe a Igreja católica tem aquela coisa fantástica chamada confissão onde tudo se perdoa e se faz o ‘reset’ dos pecados) mas é firmemente contra a orientação e prega essa oposição. Portanto, há hipocrisia quando membros do clero que são homossexuais criticam a orientação homossexual. Como é que sabemos que são homossexuais? Muitos deles são ‘apanhados’ em situações comprometedoras, outros fazem pouco para esconder a sua orientação, outros são denunciados pelos seus pares.

          3. Senhora professora,
            É facto que atacou a minha afirmação pouco eficientemente, diga-se pois, acaba com uma proposta de alternativa frouxa, para dizer o mínimo.
            Podem estar a querer lutar contra a hipocrisia.
            Se calhar também podem estar a lutar contra a direita fascista ou contra a memória do Passos Coelho.

            1º Se um padre aprende a controlar e a sublimar a sua pulsão sexual e de facto guarda abstinência, que sentido tem vir a público declarar sua orientação? Esta atitude só pode obedecer a dois motivos: ou pratica sexo e quer ver essa prática “legalizada” ou age por solidariedade com outros praticantes, laicos ou não, e quer forçar a Igreja a decidir nesse sentido. É o que expliquei ser basicamente a prática do “Caminho Sinodal”, uma grave quebra do dever de obediência, independentemente dos motivos de cada um, que podem variar do bem intencionado ao sórdido.
            2º O celibato não anula a sexualidade. Aliás, é uma opção de vida sexual.
            Nada anula a sexualidade a não ser talvez métodos químicos de supressão hormonal. Mesmo a idade atenua sem anular. É curioso que s sra. profª tenha noutro postal identificado a falácia do espantalho.
            Aliás é uma opção de vida sexual. Haja Deus! Fulano decide abraçar a vida monástica e faz voto de celibato. Beltrano decide não casar e apenas pratica sexo sem compromissos.. São ambas opções de vida sexual! Isto é uma completa inversão de valores, talvez imaginada em algum universo freudiano.
            3º Só muito recentemente é que a Igreja católica deixou de reprovar oficialmente a homossexualidade e qualquer orientação sexual não heterossexual.
            A Igreja continua a reprovar oficialmente a homosexualidade – praticada ou confessada – e, em alguns casos até aconselha terapia, tal como diversos médicos laicos. Não sei esses casos são muitos ou poucos e, sinceramente, a senhora profª afirmar que são muitos tem para mim o mesmíssimo valor que os 5% do Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada.
            O que aconteceu foi que o Papa Francisco, em declaração a jornalistas à entrada num avião, disse algo como “quem sou eu para os condenar”.. Isto não altera a posição doutrinal da igreja. Apenas, como magistério de influência, desaconselha que se condenem, ataquem ou ofendam publicamente os homosexuais. Exactamente como quando o Vaticano II retirou do Ordinário da Missa a expressão “perfidi judacci” (de memória) não houve qualquer alteração de doutrina.
            4º Como é que sabemos que são homossexuais? Muitos deles são ‘apanhados’ em situações comprometedoras, outros fazem pouco para esconder a sua orientação, outros são denunciados pelos seus pares.
            Sempre a mesma confusão entre a prática e a palavra. Muitos, outros e outros. Sem um exemplo, sem a menor possibilidade de saber.se são de facto muitos, em valor absoluto ou em percentagem. Se tivesse escrito que tem os seus preconceitos bem implantados, tinha dito o mesmo. E mais claramente.
            5º E, “the last but not the least” eu não respondi au seu ataque à minha afirmação. Respondi sim ao seu “exactamente” a um comentário de Cristina Torrão. Era o comentário de Cristina Torrão que estaria em discussão e não o seu ataque à minha afirmação a que não respondi por motivo que agora talvez fique mais claro.
            O padre, bispo ou cardeal A não pratica sexo e não fala em nome da Igreja. Como se sabe qual a sua orientação sexual?
            E, se fala, porque fala?
            Eu tinha respondido à segunda questão – limitada ao caso alemão – implicitamente no comentário inicial. Mas a autora Cristina Torrão e a sra. professora sabem mais e melhor. Que são muitos, que lutam contra a hipocrisia, sem falar no ridículo dos direitos de trabalho e nos direitos humanos.
            Como disse Tocqueville e lembrou recentemente Jaime Nogueira Pinto, uma mentira simples tende a impor-se a uma verdade complexa. E o preconceito é mais fácil. Nem dá trabalho a explicar nem a justificar: são muitos e outros e outros, e “prontos”..

          4. 1º Se um padre aprende a controlar e a sublimar a sua pulsão sexual e de facto guarda abstinência, que sentido tem vir a público declarar sua orientação?
            Esta atitude só pode obedecer a dois motivos: ou pratica sexo e quer ver essa prática “legalizada” ou age por solidariedade com outros praticantes, laicos ou não, e quer forçar a Igreja a decidir nesse sentido. “ – O facto de lhe parecer inverosímil que um padre celibatário queira dizer a sua orientação sexual e só consiga imaginar esses dois motivos que disse, não significa que ele não o faça e que não haja outros motivos. As coisas não deixam de ser como são só porque não conseguimos imaginá-las. Existem movimentos dentro da Igreja que entendem que a Igreja deve abandonar a crítica à sexualidade não dominante, bem como ao celibato, etc., e fazem questão de se afirmar como maneira de pressionar a mudança de mentalidades. O ‘orgulho gay’ é isso mesmo. Assim como há padres que não pretendem casar mas fazem questão de afirmar que são a favor do casamento de padres. E a desobediência na igreja é grave, sim, mas existe e sempre existiu. Nesses casos acontece a Igreja excomungar.

            “2º O celibato não anula a sexualidade. (…) é uma completa inversão de valores, talvez imaginada em algum universo freudiano.” – Há quem defenda que o celibato enquanto escolha, é uma parafília. Isso eu não o saberia dizer, não tenho conhecimentos para tal, mas que é uma escolha de sexualidade, isso é. Continuam a ser pessoas com uma vida sexual. Aliás acontecia muito haver indivíduos de meios muito religiosos que escolhiam esse caminho do sacerdócio por serem homossexuais e ser uma maneira de sublimarem os desejos e a culpa. E não, não tenho dados estatísticos da quantidade, assim como não tenho dados estatísticos da quantidade de homens machistas que havia/há, apesar de afirmar que são muitos, porque são coisas do conhecimento comum.

            3º “A Igreja continua a reprovar oficialmente a homosexualidade – praticada ou confessada – e, em alguns casos até aconselha terapia, tal como diversos médicos laicos. “ – isso foi o que eu disse, que continua a ser e a pregar contra a homossexualidade, e não apenas contra a prática, como defendeu. Acontece que agora é mais tolerante. É só isso.

            4º “Como é que sabemos que são homossexuais? Muitos deles são ‘apanhados’ em situações comprometedoras, outros fazem pouco para esconder a sua orientação, outros são denunciados pelos seus pares. Sempre a mesma confusão entre a prática e a palavra. Muitos, outros e outros. Sem um exemplo, sem a menor possibilidade de saber.se são de facto muitos, em valor absoluto ou em percentagem.” – não tenho o número de padres homossexuais, mas que interessa aqui a percentagem? Isso muda o quê no argumento? Este era e é um assunto muito abordado na literatura desde tempos muitos antigos justamente por ser do conhecimento comum e ser vulgar – nós somos um país católico e até há pouco tempo o convívio com padres e com esse meio era muito comum e sabia-se tudo da vida dos padres, sabia-se o que se passava nos seminários: quem tinha amantes e filhos e quem era homossexual (ainda se sabe em meios mais pequenos). E sim, por acaso até conheço casos e situações mas não vou falar aqui das pessoas.

            O comportamento do clero ao longo de milénios, em especial contra as mulheres tem sido de perseguição, de abuso e de crime. De modo que sim, tenho preconceitos contra a Igreja, mas não são sem fundamento.

            Também não tenho artes de Cassandra e também fiquei muito admirada com a maioria absoluta de sr. Pompadour.

          5. Há quem defenda que o celibato enquanto escolha, é uma parafília
            Vou enumerar não exaustivamente, é certo, parafilias que o são:
            Pedofilia, exibicionismo, sadismo, masoquismo, voyeurismo, fetichismo.
            Em diccionário, parafilia é uma anormalidade ou perversão da sexualidade.
            A sexualidade é uma importantíssima parte da vida mas não é, na normalidade, o “rationale” nem o motivo das escolhas de vida. Só um anormal – é o termo e não o evito – que considere a prática da sexualidade obrigatória e inalienável é que se atreve a dizer que o “celibato, enquanto escolha é uma parafilia”.
            Nesta fase, só me resta dar a conversa por terminada.
            P.S. – Pode juntar outro avatar ao seu caderno de troféus.
            https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-razao-em-questao-13638494?thread=105969502#t105969502

          6. A maioria dos psicólogos teóricos põe o instinto da líbido ao mesmo nível que o instinto da sobrevivência – dele depende a sobrevivência da espécie e gasta-se uma imensa energia psíquica a negá-lo de maneira que escolher uma vida de negação da líbido não é um pormenor sem significado.
            Penso que não era preciso chamar anormal, mas pronto… whatever makes you happy.

  8. O padre Gonçalo Portocarrero de Almada, da Opus Dei, afirmou que a pedofilia na Igreja representava 5% da pedofilia total. Não sei onde foi pescar esse dado numérico. Sei que em estudos publicados nos EUA, a imensa maioria dos abusos sexuais de menores acontecem na família. Segue-se a escola, com particular enfoque nas actividades desportivas e só depois aparece a Igreja, acontecendo ainda que são contabilizados na Igreja, situações em que os abusadores actuam na situação de professores e não em actividades estritamente eclesiais.
    É certo que a Igreja errou e errou prolongadamente com a política de silêncio mas isso tem que ser contrastado com o tempo da Igreja, que não é o nosso, e com as motivações pessoais dos bispos que, tal como as chefias militares tentam esconder descontrolos em acção, como em Wiryamu ou excessos no treino dos comandos, são pessoas empenhadas na sua instituição e que acreditam que é mais importante preservar a imagem da instituição do que fazer justiça num caso particular. É no fundo uma errada aplicação do dever de lealdade.

    Sem desvalorizar o que ocorreu na Igreja, desconfio dos que, indo ao exagero, preconizam a proibição da Igreja, sem nada dizerem da escola nem da família. Ou seja, da mesma maneira que a ecologia é uma preocupação válida mas há “ecologistas” que na realidade são militantes anti-capitalismo e aproveitam o facto dos países capitalistas serem os mais desenvolvidos economicamente, para os atacar com o argumento ecológico, também há jacobinos anti-clericais que usam a pedofilia como pretexto. No caso presente, o anti-clericalismo parece-me evidente.

    O Papa S. João Paulo II, quando arcebispo de Cracóvia, lidou com imensos casos de falsas acusações de pedofilia, uma práctica da propaganda soviética para desacreditar a Igreja. Por isso ficou condicionado a dar sempre o benefício da dúvida a essas acusações e acreditou sempre nos que pessoalmente as negaram, como foi o caso mais mediático do cardeal Spellman. Ratzinger, muito próximo do Papa que o nomeou para o mais importante cargo da Igreja do ponto de vista doutrinal, Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, sugeriu acções mais eficazes – conforme declarações de um criado (mordomo?) do Papa, vendidas e publicadas por um jornal italiano – mas respeitou a orientação do Papa. Depois de ser ele o Papa, actuou mais energicamente, designadamente na carta que escreveu aos clérigos irlandeses acusados e, sobretudo, na determinação de que o encobrimento implicava a perda da cadeira episcopal. Quer dizer, tirou aos bispos o principal motivo que poderiam ter para praticar o encobrimento. Mas, ao contrário de S. João Paulo II e do actual Papa Francisco, que são, pode dizer-se, “populistas”, Bento XVI era um homem de cultura e de gabinete e as destituições de bispos não chegaram à imprensa. Agora, atacar Bento XVI, de longe quem mais cedo e mais fez para combater os abusos – Francisco foi um pouco mais longe mas aprece muito mais porque trouxe a imprensa para dentro da Igreja e o problema para a praça pública – demonstra uma tal ignorância que só se explica por se estar a seguir uma agenda.
    Não sei qual a melhor, se a acção discreta de Ratzinger, ou a praça pública de Francisco, mas tenho a mais forte convicção de que ambos, dentro das suas características pessoais, depois de muito ponderar e rezar, fizeram o que lhes pareceu melhor e mais justo.

    1. E mesmo que a pedofilia na Igreja fosse apenas 1% do total, o que está em causa é uma instituição acima de qualquer suspeita, uma instituição em que as pessoas confiavam cegamente, uma instituição que clama falar em nome de Deus. E houve (e há) responsáveis por essa instituição que se aproveitaram precisamente disso. É grave, meu caro, muito grave. Pode dar as voltas que quiser.

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