Ambiente de trabalho VII


Teresa Ribeiro,

As novas elites não dão ponto sem nó. Traçam o seu percurso, começando cedo a identificar que pessoas devem conhecer e em que circunstâncias. Preparam-se cuidando dos mais ínfimos detalhes, porque hoje o  que parece, é. Há soft skills que devem constar num currículo, porque são muito valorizadas nos tempos que correm, daí ser conveniente exercer atividades a partir das quais se possa tirar ilações sobre a qualidade do seu carácter ou capacidade de trabalho. 

Como bailarinas em pontas aprendem, depois, a andar em bicos de pés para serem notados por quem tem poder. E o que é, para esta nova geração, ter poder? Ter poder é ter influência. Ser conhecido e reconhecido. Mas este reconhecimento não tem necessariamente a ver com competência, conhecimento e muito menos experiência. Três atributos que a nova cultura do trabalho esvaziou ao introduzir no discurso um novo mantra: proactividade, competitividade e “gosto pelo desafio”. Três magníficos eufemismos cuja elasticidade permite cobrir um vasto leque de perfis, desde os jovens com ambição que desejam legitimamente subir na vida, àqueles que antes se designavam por arrivistas: tractores que não olham a meios para “chegar lá”. Não importa como, pois já ninguém quer saber.

“Estar lá” quer dizer que se ganhou a medalha olímpica da notoriedade, o novo oiro. Não por acaso chegou-se ao ponto de criar uma nova “profissão”, a dos influencers. Ter poder é conhecer e ser conhecido por “toda a gente”, sendo que “toda a gente” é a gente que tem uma importante rede de contactos. Trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, círculo onde até se vende a mãe para entrar, pois os que ficam de fora são nada. Pertencem à massa indistinta dos que não “chegaram lá”. Engenheiros, arquitectos, artistas, limpa chaminés, jornalistas, rapariguinhas do shopping, é indiferente. A todos é dispensado um tratamento indiferenciado que se verte, de resto, em salários absurdamente semelhantes.

As novas elites lideram, sem complexos, áreas que desconhecem, apoiadas na expertise dos profissionais que este novo sistema proletarizou. Mas formadas que foram na cultura narcísica do autoelogio e do elogio mútuo sustentada pelas redes, não resistem a deixar a sua marca de génio na gestão de pessoas e coisas, tomando por capricho decisões absurdas e irresponsáveis, ignorando os conselhos de quem sabe, só pelo prazer de mandar. É nisto que estamos, nas mais diversas áreas de actividade. Até dói.

9 comentários em “Ambiente de trabalho VII”

  1. As novas elites são apenas a gentinha no poder mas,. apesar de tudo, ainda quero acreditar que a democracia é viável, pelo menos em termos gerais. Na nossa já deixei de acreditar.

    1. Enfim, convém sempre lembrar que o Churchill tinha razão: as democracias são, apesar de tudo, o menor dos males. E este fenómeno que aqui descrevo não tem marca registada em Portugal. Embora, como o país é pequeno, se note mais e a entropia que provoca seja mais grave.

      1. Quando Churchill disse isso existiam talvez uma dúzia de democracias, incluindo os EUA e Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
        Não existiam democracias que, em nome do Estado, impusessem educação ideológica contra a vontade das famílias; muito menos que arrancassem crianças à família por incumprimento de uma regra sanitária.
        Algumas democracias, incluindo as 4 que citei, não eram exemplares na protecção das minorias, sobretudo das minorias nativas mas não existia nenhuma que praticasse discriminação positiva de minorias, muito menos de minorias que prosseguem a ruptura do tecido social.. Também não me lembro de nenhuma com significativos índices de corrupção e nepotismo e, nisso sou categórico, nenhuma dominava os medias para impor uma narrativa.
        Churchill, se hoje fosse vivo, dificilmente repetiria o que afirmou sem elencar uma lista de exclusões.

  2. Preocupação toda virada para sacaria e vasilhame de plástico, quando gente da mesma matéria bem merecia ser ensacada nos contentores de resíduos tóxicos.

  3. A diferença entre as novas elites e as velhas elites é que dantes batava ser da família certa para ser bem relacionado e agora há penetras puxa-sacos.
    Nessa teoria que o poder se obtém somente por mérito ninguém acredita.

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