Ambiente de trabalho


Teresa Ribeiro,

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Lembro-me que demorei séculos a escrever a primeira notícia da minha vida. Tensa, insegura, ensaiei várias versões para começar o texto e não havia meio de me decidir qual a melhor. O meu chefe, numa secretária perto de mim, trabalhava com um ar imperturbável, mas eu percebia que me tinha debaixo de olho. Quase imperceptível descortinava-lhe uma expressão divertida, benevolente.

Parece um quadro de há cem anos, mas não foi assim há tanto tempo que tudo se passava a uma escala humana. Com tempo para aprender e possibilidade de se ser aquilo que se era: alguém a dar os primeiros passos, a quem não se podia exigir tudo, nem sequer muito. Sem pressões, a evolução dos estagiários era um processo natural, que dispensava exibições de carácter, currículos carregados de “skills” e a linguagem performativa que hoje todos os miúdos carrregam na mochila junto com a marmita do almoço.

A avaliação fazia-se, e chumbava quem tinha de chumbar. De entre os que ficavam havia quem se revelasse em pouco tempo e também os que precisavam de amadurecer. Como acontece com os frutos, os vinhos, as couves, enfim tudo o que cresce e se desenvolve na Natureza. E isto – sabia-se – era assim em todas as profissões.

Fomos, na minha geração, os últimos profissionais de cultura biológica.

4 comentários em “Ambiente de trabalho”

  1. Por isso é que cá o Rão nunca poderia ser jornalista, nem comentador, nem nada que obrigasse a escrever para divulgar.
    De cada vez que debito qualquer coisita por aí, se volto a ler para voltar a mostrar onde quer que seja, não passo sem uma correção ou um monte delas em cada espreitadela.
    Nunca seria capaz de alguma vez à primeira e por aí fora sair alguma coisa escorreita, completa e que me convencesse a mim próprio em definitivo.
    O drama maior é que por muitas vezes, demasiadas talvez, embora de forma esguelhada até me convenço que era muito capaz de ter razão no lançamento da serpentina.

  2. Pouco dado às letras, era bom nas matematicas, um dia disse à minha professora de portugues : não sou capaz de escrever sobre esse tema….. ela respondeu-me , olha escreve com o coração.
    A partir dessa altura tive sempre cotação máxima nas redações e passei esse exemplo aos meus filhos.
    Nunca mais esqueci a minha professora.

  3. Não sabendo qual a geração, ainda assim acredito – e pela experiência que tenho como leitora, diria que essa última produção biológica maturou antes de a produção biológica ser publicitada, velhos tempos da joaninha… agora são da mãe joana.

  4. Acredito na correcção e na insatisfação constantes. Os escritores profissionais dizem que, se lerem os seus livros, sempre têm vontade de os corrigir. E julgo que a maturação existe sempre, desde que se dê continuidade à função. A experiência conta. Mas não faz o génio.

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