“O Presidente da República não está a cumprir a sua obrigação mais básica: prevenir solenemente o país de que a atitude de Passos Coelho (e a correspondente fita que já dura há seis semanas) prejudica o futuro dos portugueses. O silêncio de Cavaco é um acto grave de cumplicidade e oportunismo.
(…) A neutralidade professoral, inteiramente inútil, que ele adoptou, não o recomenda para coisa nenhuma e, muito em particular, para Presidente”
À medida que os dias passam, enquanto se espera pela discussão do orçamento e por um conhecimento mais aprofundado daquilo que tem saído aos bochechos nos jornais, vão-se acumulando os sinais de crise. O cepticismo inicial quanto ao alcance das medidas contidas nos PEC 1 e 2 deu lugar ao pessimismo do PEC 3. Não é que as medidas em si não sejam necessárias para enfrentarmos esta situação gravíssima que o país atravessa. Mas acontece, como ainda esta tarde dizia na emissão regional do Algarve da Antena 1 um deputado municipal do PS, que toda a gente já se apercebeu de que existe um problema ainda mais grave do que esse e que diz respeito à credibilidade dos actores.
A política não se faz sem partidos políticos e sem políticos, sem uma participação séria e consciente, sem que as qualidades e as competências dos melhores estejam ao serviço da comunidade. Sem isso não haverá democracia que resista, regime que se aguente.
Creio que não valerá a pena estar aqui a apontar mais sinais do que aqueles que todos já conhecemos. As crises também não se ultrapassam com o pessimismo instalado e a radicalização do discurso que apenas serve aos que de fora se limitam a criticar os que estão dentro sem oferecerem soluções válidas e credíveis.
Aquilo que Vasco Pulido Valente de forma tão lúcida quanto frontal escreveu na edição de hoje do Público, relativamente ao presidente da República e ao papel que este tem desempenhado nos últimos meses, constitui mais uma confirmação da falta de credibilidade dos actores políticos, à qual já nem sequer o Presidente da República escapa.
Não seria preciso que VPV o dissesse, tantas e tão contundentes, inclusive neste blogue, têm sido as críticas de que Cavaco Silva tem sido alvo. De Sócrates e de Passos Coelho não vale a pena falar tão evidente começa a ser a sua falta de atributos para exercerem o cargo de primeiro-ministro nestes tempos difíceis que vivemos.
A percepção que a generalidade das pessoas tem do fenómeno político, do modo como os assuntos de Estado são conduzidos não é igual à que os analistas, os comentadores e a educada burguesia urbana têm sobre ele. Até que ponto os nossos concidadãos que andam com uma enxada na mão ou a guiar um camião por esse país fora, descarregando pedra nas obras, compreendem a dificuldade da situação, é uma incógnita. O que é seguro é que toda a gente já entendeu que a crise mexe com os preços de produtos básicos, que gente pouco mais do que remediada e reformados vão ver os seus magros rendimentos mexidos, que a carga fiscal vai aumentar, que aquilo que vão poder levar para casa no final de cada mês e dar aos seus filhos será cada vez mais contado.
É-me particularmente penoso verificar a forma como continuamos a desperdiçar tempo e energias sem que apareçam resultados. De ano para ano a situação agrava-se e são cada vez mais os que desconfiando da democracia, da saúde do regime, das suas instituições e dos seus actores, vão engrossar movimentos radicais e alinham no coro dos insatisfeitos que encontram nas dificuldades da nossa vida democrática a explicação para este calvário que o país há décadas atravessa. Vamos assistindo impotentes ao lento esboroar da credibilidade do regime sem que nada de relevante aconteça para o nosso futuro colectivo, para o renovar da esperança nas nossas capacidades e nas virtualidades da democracia.
Saber que muitas das medidas que agora se propõem a contragosto poderiam ter sido executadas há décadas– da tributação agravada das offshores ao fim das escandalosas isenções da banca ou à estipulação de limites ao crescimento do endividamento do Estado ou a uma reforma eficaz da Administração Pública -, só serve para agudizar o sentimento de revolta entre a população.
O modo como sucessivos governos se mostraram incapazes de combater os múltiplos corporativismos instalado neste país, do lobby da farmácias aos dos tribunais, passando pelos da construção civil e pelos gangues religiosos e ateus que se especializaram nas movimentações baixas e marginais do regime, devia ter levado os portugueses a interrogarem-se, a saírem para a rua, como hoje fazem contra as inevitáveis cobranças nas SCUT, exigindo mais qualidade na democracia, maior eficiência das instituições, maior rigor no controlo das contas públicas e dos desvarios das parcerias público-privados, em suma, exigindo na rua melhores políticos, gente capaz e competente.
Quando ainda ontem escutava o magistrado jubilado Carlos Moreno relatar as vicissitudes que acompanhou nos seus derradeiros anos no Tribunal de Contas com “o milagre” das parcerias público-privadas, só consegui tirar uma conclusão das suas palavras: não há nada que escape a um juízo racional e distanciado.
A acentuada erosão da credibilidade do regime e dos seus actores, de que Vasco Pulido Valente voltou a falar, é a triste mas deveras real certeza de que este país levou trinta anos de democracia a gastar o que tinha e o que não tinha para alimentar uma classe política e empresarial ociosa, incompetente e destituída de toda e qualquer coragem, salvo raríssimas excepções cada vez mais distantes. Poupou nas peúgas, nas escovas de dentes e na educação para andar em carros de alta cilindrada com cores horrorosas e exibir ao mundo os gases que saíam dos seus escapes, para agora se ver confrontado com a necessidade de praticamente ter de extinguir as suas instituições, matar os seu velhos e reformados e asfixiar os seus pobres, cada vez mais pobres, para poder continuar a funcionar. Ou, por outras palavras, para poder continuar a comer mal, a ler pior e mais caro, e a vestir-se andrajosamente.
Isto agora poderá não parecer assim tão grave. Um dia será terrível. É o que sinceramente espero e desejo. Porque só nesse dia deixaremos de fugir de nós próprios. Só nesse dia seremos capazes de confrontarmo-nos com os nossos fantasmas, com os cavacos, com os sócrates, com os coelhos, com os mendes, com os santos todos, com toda esta gente pequenina, muito pequenina, que diariamente usa o cartão do cidadão e o bilhete de identidade para nos dilacerar a alma. Ultimamente também a bolsa. Até um dia.


Desfaçam o tabu….
Está na hora de dizerem abertamente quem apoiam para PR…
E o que é que o leva a pensar que apoiaríamos todos o mesmo? É a primeira vez que vem ao DO?
VPV, que eu leio sempre com muito gosto, no dia em que escreveu este artigo, deve ter bebido não uma, mas duas garrafas de scotch. Aquilo não faz sentido nenhum.
Eu sei que agora está na moda deitar o PR abaixo, por isto ou por aquilo, ou até por coisa nenhuma, como é o caso.
Cavaco já se pronunciou varias vezes sobre o assunto OE, apelando ao dialogo e ao bom senso, mas não pode de modo nenhum influenciar os partidos a tomar uma ou outra posição. Isso é que seria muito mau.
Pode-se criticar o PR por ter deixado as coisas chegar onde chegaram, mas o governo tomou posse salvo erro em Novembro, e só podia ser demitido entre Maio e Setembro.
Admito que Cavaco tenha sido uma desilusão para muita gente, mas peço a esses desiludidos para ouvirem com atenção o que o poeta Alegre anda por aí a dizer, para verem o que nos espera se Cavaco não for reeleito.
Este post baseia-se numa citação sem pés nem cabeça. Passos Coelho é o líder do maior partido de oposição. Cavaco Silva é Presidente da República, que não pode, obviamente, interferir nas discussões dos partidos políticos. Bem ou mal (isso pode ser discutido) o PSD tentou negociar um orçamento cujos termos não eram conhecidos ao longo das seis semanas em discussão. Mas não passa de disparate escrever que Cavaco tinha de se pronunciar ou puxar as orelhas ao líder da oposição que o vai apoiar nas presidenciais. O texto de Pulido Valente não é lúcido nem sequer frontal. Seria lúcido e frontal afirmar que aquilo que prejudica o futuro dos portugueses é o orçamento que o governo Sócrates propôs sem qualquer negociação, apesar de não ter maioria.
Já o seu candidato Alegre, caro Sérgio, é um fonte de inspiração inesgotável para o nosso futuro comum.
Olhe, vá mas é até à doca dar banho ao cão…
Cada um vai buscar a inspiração onde mais lhe convém e ninguém tem nada com isso. De qualquer modo, posso garantir-lhe que não preciso de Manuel Alegre para isso, graças a Deus. Prefiro a Monica Bellucci
Cão por ora não tenho, lamento, mas não me importo que V. Ex.ª dê banho aos seus piolhos. Use muita água e sabão que eles quando se instalam no couro cabeludo têm tendência a penetrar na massa cinzenta.
Merecido conselho.
Quanto a piolhos, pelos vistos, fala a experiência. Nada de estranhar…