Ainda sobre Jorge Sampaio, já quase tudo se disse, de bom, sobretudo, e de mau, bem menos, e merecido. Mas gostaria de acrescentar um ponto sobre o político que pela postura carreira e até a cor do cabelo poderia perfeitamente ser um parlamentar trabalhista britânico. Acerca do momento mais polémico da sua presidência, a nomeação de Santana Lopes e a dissolução do Parlamento seis meses depois, convocando as eleições que depois dariam o poder a Sócrates, relembro que apesar das críticas que a direita lhe teceu então, ficaram ainda assim aquém das que a esquerda lhe disparou ao decidir convidar Santana a formar governo. Provavelmente a maioria acha hoje que ele faria melhor em convocar logo eleições (e o PSD em escolher a então segunda figura do governo, Manuela Ferreira Leite, para o liderar, quatro anos do que sucedeu mais tarde). Mas decidiu não o fazer e com isso atraiu a fúria da esquerda. Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS nesse mesmo dia, indignado com a decisão presidencial. Saramago disse que “a democracia acabara em Portugal”. Francisco Louçã retorquiu que era “o princípio do fim do 25 de Abril”. Na festa do Avante desse ano usaram-se t-shirts anti-Sampaio. E como na noite seguinte, precisamente, morreu de súbito Maria de Lurdes Pintassilgo, não faltou quem dissesse explicitamente que tal se deveria ao desgosto da decisão de Sampaio. Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio. Curiosamente, muitos destes correligionários aplaudiram dez anos depois a constituição da “geringonça”, que, tal como no governo Santana, se baseava numa maioria parlamentar.
Que o “cenoura”, como carinhosamente lhe chamavam, descanse em paz.


“Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio.”
Bastante exagerado, sugiro que releia o que os correligionários de Sá Carneiro diziam dele durante as inúmeras crises do PPD.
O governo da gerigonça foi feito a seguir a eleições quando não era possível dissolver a AR. O presidente da altura nomeou um governo do PSD que não passou no parlamento, pode-se dizer que a esquerda só tomou o poder em 2015 porque a direita não o conseguiu exercer, não foi por desejo de Cavaco que tinha dito expressamente que não daria posse a um governo minoritário, mas esqueceu-se e nomeou Passos.
Não era esta a situação com Santana Lopes, o parlamento poderia ser dissolvido e a pessoa que se tinha apresentado à votação dois anos antes foi para a UE após tentar arrastar o país para uma guerra. Era admissível pensar que uma nova votação provocaria alterações nos resultados.
“O governo da gerigonça foi feito a seguir a eleições quando não era possível dissolver a AR. O presidente da altura nomeou um governo do PSD que não passou no parlamento, pode-se dizer que a esquerda só tomou o poder em 2015 porque a direita não o conseguiu exercer”.
A extraordinária arte do eufemismo. E antes, e pior do que ela, da hipocrisia (que há-de ser a sua; pois o eufemismo será para si coisa demasiado sofisticada). Esse foi, este é, o tempo em que se rompeu um costume parlamentar português – que no passado beneficiara o PS – e em que o PS, abjecta, aflitivamente sedento de poder, derrotado nas eleições, aceitou aliar-se a quem sempre, sempre, o tomou como um traidor. Aliar-se a quem disse do PS e dos seus dirigentes o pior que politicamente se pode dizer de alguém. Este é o tempo da mais repugnante falta de carácter.
Mas é assim a sede de poder. O instinto de sobrevivência, a falta de escrúpulo, a ausência de decência elementar de quem sem “o tacho” nada é. Tudo visto, para essa gente, até para a mãe há-de haver um preço. E nem será assim tão alto.
Mas o Soberano gosta. Acha muito bem assim. O que não ilustra essa gente. Deslustra o Soberano. O que, sendo o Soberano o que é, nada espanta.
Nunca houve costume parlamentar português de não se fazerem alianças. O governo cessante era de uma coligação pós-eleitoral entre o PSD e o CDS. Por essa ordem de ideias o PSD deveria ter governado sozinho apoiado pelo PS. Mas o PSD escolheu, e bem, a aliança que mais lhe convinha. Já o PS na sua opinião não deve escolher coligações que lhe convenham, mas apoiar obrigatoriamente um governo PSD.
Se o PSD tinha o apoio da maioria da AR e foi nomeado para o governo, só não governou porque foi burro.
Um rapazola ruívo, 1962, “de Lisboa” na escadaria da então Faculdade de Ciências do Porto, animadíssimo a vociferar política perante a quase total indiferênça dos alunos, cruzando-se apressados, eles mesmos imersos nos seus próprios destinos. Uma precoce vocação para essas coisas da política, com se constatou. Destinos. Paz àquela alma.
Alguém, lembrou, frase do espectro, trepa a árvore, discreto qb “O que é preciso é pé manter sempre a bola bater”. Terá sido na fase edil. Mas lema surde, a socialista, contemporâneos e sucessores.