Agora é que é altura de falar


José Meireles Graça,

Quem tiver esperto no cabeço sabe que a história da Covid não vai acabar bem. Não a doença em si, que vai juntar-se ao catálogo, em lugar modesto, das que levam os mais velhos e fracos. Mas a tentativa de suicídio económico que, por causa da Covid, se espalhou pelo mundo como um incêndio fora de controlo.

A tentativa não teve grande sucesso naqueles países que puderam, por causa dos seus regimes, controlar manu militari a doença em níveis abaixo do radar da comunicação social – o caso mais evidente é o da China. E só o teve moderadamente naqueles casos em que os danos económicos foram menos autoinfligidos e vieram mais do exterior, por a generalidade das economias não serem autárcicas – o caso mais evidente é o da Suécia.

Nos outros, a diferença virá do corpanzil mais ou menos sólido para aguentar as medidas. Porque, por cínico que pareça e seja, os danos vêm pouco da doença, que afecta sobretudo a parte da população que já abandonou a vida activa, e muito da paralisação forçada induzida pelo terror. E a este, que a comunicação social alimenta, os poderes públicos reagiram em todo o lado com travagens bruscas da actividade económica como forma de impedir os contágios, frequentemente de forma errática e contraditória, mas sempre sob o manto do que diz a ciência.

Sucede que a ciência não diz nada, quem diz são os cientistas. E como a compreensão do vírus implica virologistas, imunologistas, intensivistas, pneumologistas e mais catorze variedades de istas, e boa parte destes nunca se viu noutra de se poder repoltrear no cadeirão da notoriedade, toda esta gente fala pelos cotovelos.

Fala pelos cotovelos mas não a uma voz: o que diz Anders Tegnell não é a mesma coisa que Anthony Fauci, o que diz Jorge Torgal não é a mesma coisa que Graça Freitas e o que dizem as sumidades que assinaram a Grande Declaração de Barrington não é a mesma coisa que a generalidade dos especialistas que vemos na televisão e lemos nos jornais – uns estão no ramo do senso, da experiência e da humildade, outros no do drama e espavento.

Temos então que estes istas todos criam uma nuvem que cega o cidadão atarantado. E, talvez por isso (exagero um pouco, é retórica), a comunicação social simplifica as coisas: se vamos todos morrer de hoje a oito há microfone e coluna no jornal; e se não, não. O que tudo dá uma pescadinha de rabo na boca: os especialistas vêm ao proscénio aterrorizar a população, que exige medidas que o Governo ejacula freneticamente, que são censuradas por insuficientes e tardias, que têm de ser substituídas por outras à medida que a infecção acelera e abranda sem que se perceba bem porquê, o que conserva o terror, embora cada vez menos porque ter medo cansa.

As coisas têm sido em Portugal piores do que na maioria dos países. Não surpreende: os governantes são há muito uma casta ocupada na dança das cadeiras e no atirar periódico de ossos às suas clientelas, cuja massa lhes garante, com o voto, que podem tranquilamente continuar a capatazear (sim, sei que o verbo não existe) a quinta comum, e enxundiar as camadas superiores, e até as inferiores, da administração pública com uma mole de ineptos.

Esta inépcia tem no caso uma componente criminosa, que consiste em não se terem reforçado suficientemente os meios do SNS, incluindo sem complexos o sector privado, em parte por preconceitos ideológicos e em parte por espírito de poupança. Que seria louvável se a alternativa não fosse, como é, uma quebra do PIB que excede em muito o sobrecusto do SNS para lidar com a pandemia.

Pode ser que, em parte, não fosse possível por carência de pessoal médico com a formação adequada em tempo útil. Nunca o saberemos com detalhe: o Governo falhou, a DGS, um serviço condensado de tudo o que a administração pública tem de mais ronceiro e inane, também, e a bem oleada máquina do situacionismo, somada a uma comunicação social de cócoras, omite tudo o que é atro para enaltecer o brilho da quinquilharia socialista.

Isto tem porém um preço. O óbvio, para quem lê mais do que os jornais do regime, que são quase todos, é o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento; e o menos evidente é este labelo (ou será epitáfio?), em que Helena Matos nos apresenta magistralmente a crua realidade do nosso declínio.

Não incluí deliberadamente, nos istas de que acima falava, os economistas, porque estes têm dado provas de grande contenção opinativa a respeito da Covid. É natural: costumam, com suficiência, preopinar sobre assuntos económicos, reclamando-se da imaginária autoridade que as respectivas albardas académicas lhes conferem. Sentem-se portanto inibidos porque o ramo é outro, e deixam a coisa para uns moços frequentemente com acne ou barbichas, ou uns velhos que julgam que o mundo gira à volta do seu serviço, que calha serem especialistas nos arcanos dos microrganismos e sua propagação.

Mas não deviam porque os seus colegas matemáticos não têm esses pudores, embora o respectivo palavreado, de ático, não tenha nada. E como estes últimos se têm distinguido por abundarem no asneirol, a abstinência dos economistas resulta ainda mais chocante.

Do que temos ouvido, as melhores vozes vêm dos que acham que o esforço de protecção dos que continuam a trabalhar porque não têm outro remédio; dos que não têm trabalho nem apoios; dos que perderam os seus negócios; dos que não os perderam mas talvez os percam quando acabarem as moratórias; dos pais que têm de ficar em casa com os miúdos que têm de fingir que aprendem aquilo que lhes fingem ensinar através de meios tecnológicos que muitos não têm: tem sido umas vezes inexistente, outras insuficiente, e quase sempre anárquico e desonesto.

Vá lá, podia ser pior. Talvez, se não fosse pedir demasiado, pudessem dedicar-se a, tentativamente, ir pensando em como diabo se vai pagar a dívida monstruosa, que já estava na estratosfera antes e agora vai a caminho da mesosfera. Há dias, Portugal emitiu dívida a 30 anos em óptimas condições, que bom. Mas não têm netos?

E, já que estão com a mão na massa, quem sabe não podiam ir metendo umas taliscas no edifício do consenso suicidário covidesco, a ver se abre brechas? Afinal, a parte da populaça que se preocupa com a coisa pública está habituada a achar que os professores Louçã e Mamede sabem o que dizem. E isso é reconfortante, trata-se de um capital de confiança cega que não pode ser abalado por nenhuma tese, absurda seja ela. Pensem, senhores economistas, pensem fora da caixa, mesmo que não seja a Geral de Depósitos.

9 comentários em “Agora é que é altura de falar”

  1. A perfídia de António Costa — a sua habilidade política — talvez seja passar a ideia de que a culpa de tudo, radica em factores externos, humanamente incontroláveis e politicamente ingovernáveis.

  2. Bom.

    “Fala pelos cotovelos mas não a uma voz: o que diz Anders Tegnell não é a mesma coisa que Anthony Fauci, o que diz Jorge Torgal não é a mesma coisa que Graça Freitas.”
    E o que disseram esses num dado momento também não é o mesmo que disseram noutras vezes.

  3. É caso para estar zangado, não se sabe bem é contra quem. Ora diz que os cientistas falharam e dizem cada um a sua coisa, ora diz que o governo deveria seguir uma linha firme. Mas não podendo ser a dos cientistas e a dos fazedores de opinião que – como muito inteligentemente nota – dizem cada um sua coisa ficamos sem saber qual era esse caminho certo. Talvez nos possa elucidar.

    Os meios do SNS não estão suficientemente reforçados porque, por razões puramente ideológicas, se andou nos últimos anos a enfraquecê-lo para dar as partes mais lucrativas ao setor privado. Quando chega uma pandemia que só dá prejuízo temos os operadores privados desinteressados do assunto e o SNS sem meios Na primeira vaga houve hospitais privados que fecharam para não apanharem a praga.

  4. Muito bem.

    Convém aqui não ignorar um pequeno detalhe.
    Não existem dados.
    Os dados são segredo de Estado, da DGS.
    Existem números, que são cuspidos pelo sistema, e que não fazem sentido.

    Dou um exemplo:
    – Não faz sentido que o número de mortes por Covid não se relacione com o número de internados.
    Quando morrem 200 ou 300 pessoas por Covid, não deveriam libertar esse número de camas UCI?
    Se não estavam lá, libertaram outras camas de internados?
    Não!
    Ora, se não libertam, é porque não estavam lá.
    Ou seja, nunca foram detectados com sintomas graves Covid… se é que isso tem alguma distinção de uma pneumonia.

    Portanto, somos forçados a concluir que 90% dos mortos Covid nunca foram internados, e muito menos em UCI.
    São mortos ocasionais que tiveram um registo PCR algures no tempo.
    A esse propósito convirá ouvir o que Kary Mullis (inventor do teste PCR) dizia sobre o assunto, e em particular sobre a fraude de Anthony Fauci.

    Os senhores avençados do avental, ou da partidarite, que costumam por aqui comentar, podem ir perguntar na Loja do Mestre André, e dirão que morrem uns e entram logo outros, por isso não se vê grande variação nos gráficos.
    Só que também isso tem um problema, é que isto é assim desde Março do ano passado.
    Desde que havia 100 internados UCI, 500 internados UCI, ou 800 internados UCI.
    O SNS arranjou sempre mais camas, para se adequar ao drama da publicidade, mas não ao raciocínio.
    Não havia lista de espera para serem internados ou internados UCI – nem em Maio, nem em Agosto, nem em Outubro, nem no Natal.

    Só por um acidente digno de Guiness, é que entram nos hospitais um número de pessoas que compensa exactamente o número de pessoas que morrem, para aparecerem gráficos de curvas contínuas.

    Não vi matemática nem estatística, nem pessoas com credibilidade, nesse pântano. Isto não é brincar à regressão linear com exponenciais ou gaussianas, como aprende qualquer engenheiro.

    Agora, o que pode perguntar é a razão pela qual os dados são secretos.
    Por que razão, não pode saber se o cidadão ABCD de EFG foi contabilizado como morto em EFG donde saiu e em HIJ onde morreu. Há necessidade de secretismo?
    Claro que sim, confine-se o país inteiro porque ninguém pode saber que morreu a Dona Eulália Perpétua de Alguidares de Baixo.
    Ponham o número do cartão de cidadão, em vez do nome…
    Não chega? Ou é chega que se pretende?

    Covid é apenas um pretexto para uma ditadura global.
    Tudo o resto são tretas e balelas… e conforme diz, não faltam candidatos a ministros, filhos da mamã orgulhosa que vê o menino no Telejornal, para compensar a sua ausência nas visitas do lar.

    Manuela Ferreira Leite falou que 6 meses bastavam… Santos Silva rasgou as vestes.
    Augusto Santos Silva tem um ano de ditadura, de que até Salazar se envergonharia.
    Nunca Salazar proibiu o povo de festejar, nem o confinou em prisão domiciliária, com trabalho forçado.

    Problema económico? Mas não anda Portugal a pagar dívidas desde sempre?
    A ajuda inglesa contra Napoleão só foi paga no Séc. XX.
    Que valores pagou a França? Zero.

    Mas estamos a brincar, e a fazer-nos de desentendidos?
    Quando se pedem a pessoas para falarem, não é para irem depois falar para o Júlio de Matos. As nomenklaturas de serviço têm história acumulada.

    De qualquer forma, concordo com a maioria do que teve a coragem de expor.

    1. não se percebe nada do que se está a passar , de facto , e o certo é que ando a ficar cheia de medo – não do covid – do que estará por detrás. um teatro autêntico , fogo de artifício , desviando as atenções?
      alguém da oms estará de conluio com quem ou estará ao serviço de quem ? já me pergunto.. há zézitos por todos os lados , hoje em dia , que por uns cifrões fazem tudo.

      1. Boa tarde.
        Sim, a situação é confusa.
        Normalmente não se vêem presos perguntar aos guardas qual é a saída da prisão. Excepto se os presos não perceberem que estão presos, nem perceberem quem são os guardas.
        Pior ainda, quando há presos que julgam que são guardas, gozando com a situação dos primeiros, sem perceberem que eles são os segundos, e também há terceiros, etc.
        Quando andava pelo liceu, também havia gente que me dizia que injectar certas coisas resolvia todos os problemas e permitia entrar em novos mundos de harmonia e paz celestial.
        Nessa altura não se chamavam vacinas.
        Cumprimentos,
        da Maia

  5. Por enquanto ainda estamos na altura de obedecer, quem falava assim no início eram os negacionistas e neste momento têm um processo na ordem.
    Agora está é na altura de ajoelhar e rezar para que a economia não tussa, é que ouvi dizer que a vacina do FMI ainda não está pronta.

  6. Temos os “istas” que ninguém conhecia e agora têm palco e temos os negacionistas,que também ninguém conhecia e agora pulam por todo o lado…

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