Afinal havia outra – a terceira


escafandro,

Discutir se foi a direita ou a esquerda que nos meteu na crise é ignorar a hipótese que até na designação tem a resposta: a famosa «terceira via». Com nuances, quase todos os países europeus a aplicaram e até antes do termo existir. A ideia era apostar na iniciativa privada, na globalização e na desregulamentação do sector financeiro (a parte que faz a esquerda acusar a direita e acrescentar o agora infame adjectivo «liberal»), de modo a gerar crescimento passível de ser aproveitado para aumentar o papel do Estado (a parte que faz a direita acusar a esquerda e negar que qualquer liberalismo tenha existido). No fundo, era usar o capitalismo (num reconhecimento de que a liberdade que lhe está subjacente permite crescimentos superiores) para fazer socialismo (no sentido de garantir igualdade de rendimentos entre sectores da sociedade). Em tese, a ideia tinha – e tem – méritos. Então por que não resultou?

1. Desde logo, por alguns factores difíceis de controlar (mas não de prever), como as pressões sobre o emprego (e respectivo «valor») causadas pela globalização e a evolução demográfica que desequilibrou os sistemas de segurança social.

2. Depois porque os governos não resistiram a privilegiar facções nem – e uma coisa está ligada à outra – a investir (ou estimular o investimento) nas áreas de retorno rápido mas efémero (obras públicas, construção civil em geral) e nas de grande retorno mediático mas benefícios concretos muito duvidosos dentro de prazos razoáveis (gestão de resíduos, energias renováveis, formação profissional, Magalhães e afins). Isto terá a ver com o prazer que os governantes sentem em surgir associados a «grandes» projectos (de que o «povo» também gosta), mas também com questões de corrupção, um fenómeno inevitável quando o Estado atribui um papel forte à iniciativa privada mas se mantém indispensável para quase tudo (foi certamente na construção civil, na gestão de resíduos, nas renováveis e no fornecimento de serviços e equipamentos ao próprio Estado que partidos e governantes, a nível central, regional ou local, obtiveram as maiores fatias de rendimentos «paralelos» – e se disserem que eu escrevi isto, eu nego).

3. Também porque, na área financeira, os governos, deslumbrados com aquilo que o crédito barato lhes permitia fazer, com a simpatia dos banqueiros e com o modo como os cidadãos andavam felizes com os juros baixos, fizeram exactamente o contrário e demitiram-se das suas responsabilidades na regulação do sistema financeiro (mas, no fundo, isto não foi um desvio ao plano: constituía parte dele, uma vez que, desde o início, era o sistema financeiro que suportava o «crescimento»).

4. Ainda porque os governos não perceberam que o sistema, cada vez menos assente nos rendimentos ligados à produção de bens e serviços com capacidade para fazer entrar o dinheiro que as vantagens da globalização – produtos baratos, facilidade de circulação de capitais – fazia sair, estava rapidamente a tornar-se insustentável e continuaram, através de impostos, taxas e quejandos, a desviar recursos da parte da economia verdadeiramente produtiva para a menos produtiva. (Com atraso, alguns até perceberam: o problema é que, por essa altura, o sector público e as prestações sociais pesavam demasiado no jogo político-eleitoral para permitir a imposição de restrições significativas).

5. Finalmente porque, quando se tornou claro que a situação era explosiva, os governos escolheram fugir para a frente.

Terceira via. O melhor e o pior da direita e da esquerda num só pacote. Como é óbvio, sendo o maniqueísmo a mais confortável das posições, iremos continuar a culpar apenas a direita ou apenas a esquerda, consoante as preferências individuais.

 

Adenda: Mas, por favor, não lhe chamem liberalismo. Liberalismo é outra coisa.

 

(Imagem roubada aqui.

No fundo, é mais ao contrário:

cada qual tenta empurrar a responsabilidade.)

11 comentários em “Afinal havia outra – a terceira”

    1. Qual outra coisa? O Comunismo é controlo sobre Tudo. Foi isso que aconteceu.

      Liberalismo é o contrário: Limites ao Poder.
      Coisa que é impossível de acontecer enquanto os Governos tiverem poder económico total.
      Enquanto os votos da maior minoria bastarem para taxar uma menor minoria até ao infinito assim será.
      Teremos sempre Socialismo.
      Não existe Republica Económica, ou seja limites ao Poder Económico dos Governos.
      Por isso os Governo têm caminho livre para mais e mais poder, pois podem impostar cada vez mais. O controlo de recursos de um País passa cada vez pelas mãos dos Governos.
      Basta olhar para o Governo PSD+CDS:
      Ferozmente Socialista.
      Mais e mais impostos. Mais Estado.

      O mais significativo que aconteceu foi o falhanço completo, total dos Bancos Centrais e a demonstração da sua inutilidade para travar a Politica Social Populista. Feche-se.

    1. Não há nada neo-liberalismo algum.

      No máximo encontra parcialmente no Chile. Esses que têm por obrigação não ter mais de 0.5% de défice e quando o passam têm a seguir de ter superavites.
      Por isso a dívida publica anda à volta de 10-15%.
      Ou seja não fazem tantos negócios com os “malvados” Bancos como os Países Socialistas Ocidentais.

      O melhor que aconteceu aos Bancos são os Países Socialistas. Endividam-se e para pagarem, os Governos podem sempre aumentar impostos, fazer QE ou imprimir…vida dourada para os Bancos, recebem sempre e é só um interlocutor.
      Ao contrário emprestar a empresas ou mesmo pessoas é uma carga de trabalhos, vão à falência, não pagam…é uma quantidade enorme de recursos ter de analisar todos os projectos de investimento dessa gente toda…

  1. “No fundo, era usar o capitalismo (num reconhecimento de que a liberdade que lhe está subjacente permite crescimentos superiores) para fazer socialismo (no sentido de garantir igualdade de rendimentos entre sectores da sociedade). Em tese, a ideia tinha – e tem – méritos”.
    Concordo com a tua análise, Jaa. O problema é quando a natureza humana interfere com o mundo perfeito que se desenha no papel. Também fujo das análises maniqueístas. São redutoras e desonestas. Mas é o que a maioria dos opinion makers fazem, prestando um serviço aos partidos políticos cujas disputas ideológicas em tempo de crise são particularmente irritantes. No limite, irresponsáveis.

  2. “No que diz respeito a política económica, existem diversas correntes. Cada uma destas tendem para o seu lado. Umas dizem direita, outras apregoam esquerda. Os que recomendam direita, abominam o lado esquerdo. E os que dizem esquerda, acusam a direita de ser fonte de todos os males. Eu não consigo compreender estas quezílias. Todavia, há uma coisa que eu sei, quando saio de casa para ir ao trabalho, ou para qualquer outro destino, sou obrigado, primeiro, a virar à direita, para depois virar à esquerda e, assim, sucessivamente, ao longo de todo o meu percurso. Se virasse só para a direita, nunca chegaria ao meu objectivo. Se me dirigisse sempre para a esquerda, igual. Da mesma forma que falamos de flexibilidade laboral, devemos reflectir sobre a flexibilidade para tomar decisões. Cada problema, uma solução. Não existe nenhum modelo – ou corrente – que saiba todas as respostas.”

  3. O que levou a esta situação, em Portugal, foi o estatismo indígena.
    Simplesmente, no tempo do Estado Novo a qualidade intelectual de quem decidia era maior, e menores a corrupção e os meios.
    O socratismo é uma forma de estatismo gangster, possível num país que não construiu instituições democráticas que limitem o poder e defendam a coisa pública e a privada.

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