Na homilia de hoje proferida pela senhora oficialmente nomeada para a importante função de mãezinha da Nação, ficaram os crentes cientes de que “as medidas de desconfinamento decretadas pelo Governo não tiveram impacto na curva epidemiológica”.
Olha que bom. E, do quadrante confinocéptico, que com grande tolerância as autoridades consentem ainda exista desde que sem acesso relevante aos grandes meios de comunicação, Henrique Pereira dos Santos sossega-nos: as medidas tomadas não nos garantiram a imortalidade, uma falha difícil de engolir, mas caminha a Europa para a normalidade.
Não há falta de gente que, com ou sem a albarda das competentes credenciais académicas, previu que o desconfinamento não teria efeitos deletérios apreciáveis: é a mesma escumalha infecta e antissocial que achou que o confinamento repleto de medidas arbitrárias, tributárias apenas da imaginação de burocratas autoritários para sossegar o pânico que a comunicação social induziu em leitores e espectadores crédulos, apenas poderia atrasar a evolução da pandemia. Objectivo nobilíssimo, decerto, mas que poderia ser atingido sem causar o alucinante processo de destruição de riqueza cujos custos, incluindo em vidas humanas, ainda nem começaram a ser estimados.
Alguns fizeram-no muito cedo, como André Dias, diligentemente ignorado e por isso reduzido a falar para tribos de selvagens que têm o tique original de pensarem pela própria cabeça, e um respeito excessivamente moderado pela autoridade do discurso oficial. E o moço nem sequer se pode gabar de ter falta de companhia: são legião os académicos e especialistas em virologia, epidemiologia, pneumologia e ciências correlatas e ancilares que navegam nas mesmas águas negacionistas da “maior pandemia desde há cem anos”.
Uma legião não é o exército. E a corrente principal, em Portugal e em quase toda a parte (a excepção mais conhecida é a da Suécia) juntou-se à procissão histérica dos malagridas do fim dos tempos.
Não vale muito a pena tentar fazer o esquisso das razões de uns e outros: são demasiados os argumentos, alguns herméticos por fazerem apelo a conhecimentos especializados, e no fim, como no princípio, as pessoas acham bons aqueles que ilustram o seu parti-pris, e maus os outros. Resta que, quando a Covid se juntar às doenças que no curso das nossas vidas apanhamos ou não, quer exista ou não vacina, quer se encontrem anti-virais eficientes quer não, alguém terá tido razão, e não podem ser todos: houve muitos que tentaram suster o estouro da boiada e houve quem gritasse fogo! quando havia apenas umas chamazinhas que se podiam maneirar.
Nada do que foi, e continua a fazer-se, apelou à compreensão, inteligência e boa-vontade das pessoas. Antes às polícias foram dados poderes majestáticos, durante o estado de excepção, e se torpedearam direitos constitucionais, durante o de calamidade, um e outro deixando nas consciências e nos hábitos a ideia perniciosa de que os direitos de cidadania podem ser comprimidos sempre que o poder político de serviço, e o longo braço das agências que o servem, invoque a Saúde – como noutro tempo e lugares, ainda que com diferença de grau, se invocou a Raça, ou a Pátria, ou a construção da sociedade socialista.
Exagero, claro. Mas ainda hoje a DGS (um nome adequadamente evocativo) pariu um manual com 35 páginas sobre “Saúde e Actividades Diárias”, que é apenas o primeiro tomo de uma série. TODOS SOMOS AGENTES DE SAÚDE PÚBLICA, diz-se no Prefácio, assim, grafado com maiúsculas (o resto não li, por uma questão de sanidade). Aguardam-se ansiosamente os manuais em que, nas aulas de educação cívica, as crianças serão industriadas a fiscalizarem o comportamento sanitário dos pais iletrados; os do INATEL para os trabalhadores ocuparem o seu tempo livre de forma socialmente responsável, abstendo-se de espirrar e de bebidas perniciosas; e da Ordem dos Urologistas, se existe, para acabar com a anarquia na forma como se aparta o pénis após micção, para evitar a disseminação pelo ambiente de gotículas carregadinhas de micro-organismos potencialmente patógenos.
Mas são só os poderes formalmente públicos que se rebolam com prazer no esterco das normas arbitrárias e minuciosas, e no ambiente velado (quando não é descarado) de intimidação de qualquer comportamento desviante do padrão que com desvelo, ignorância criminosa e despudorado abuso as autoridades estabelecem como obrigatório?
Que nada, a procissão ainda vai no adro. Ainda há pouco vi um “Código de Boas Práticas de Higiene e Segurança Alimentar Para a Pequena Restauração e Bebidas” da AHRESP, com 64 páginas. Extraordinário: inúmeros pequenos restaurantes e bares não vão reabrir, por não poderem sobreviver cumprindo as regras oficiais, e muitos outros tentarão funcionar e serão assolados pela ASAE e outras polícias, que os soterrarão em multas, interditos, notificações e processos. E os sócios daquela agremiação, com incompreensível pusilanimidade, não atiram com o Código à cabeça da Direcção, como adjuvante dos merecidos pontapés com que a expulsem do miserável poleiro?
A Covid tem menos de 200 nanómetros de diâmetro. Mas tem as costas largas.

O JMG tem uma ideia curiosa da noção geral de responsabilidade nacional. Temos o presidente Marcelo e o ministro Costa, eleitos, com a popularidade na estratosfera. Acha que estão onde estão porque isto é um país de gente responsável? Você recorda as imagens das marafonas à porta da prisão onde Sócrates pernoitou uns tempos? Aquelas fêmeas aos berros “Ai meu querido, ai que prenderam o meu querido!”. Eram família? Não. Eram groupies. E é isto que temos. E é disto que espera o quê?
inúmeros pequenos restaurantes e bares não vão reabrir, por não poderem sobreviver cumprindo as regras oficiais
Isto não é assim. Eles não vão reabrir, mas é por já não terem mercado, isto é, clientela. Isso é que os vai fazer ficar fechados.
Houve uma maciça destruição de procura na economia.
Ainda há poucos dias vi um restaurante que tentou reabrir, em serviço de take-away. Esteve três dias aberto. Depois voltou a fechar. A razão foi óbvia: não teve clientes.
No apartamento do pénis convém não abanar muito não vá a disseminação assumir-se em cabeças flageladas, com consequências só conhecidas dos namoros às janelas!
Smoreira
Gostaria também de ver as estatísticas sobre mortes ocorridas em casa por falta de acompanhamento médico, que não aquelas causadas pelo bicharoco. Como é obrigatória a autópsia sempre que as mortes ocorrem sem acompanhamento médico, gostaria que o Instituto de Medicina Legal nos revelasse os dados sobre quantas autópsias foram feitas e a causa de morte.
Adicionalmente, gostaria de ver as estatísticas hospitalares sobre esses mesmos doentes que vieram a falecer e que aí chegaram já em estado irrecuperável. Qual o motivo da morte e não só do que morreram.
Obrigatória? Não diga asneiras. A autópsia só é obrigatória por dois motivos:
Se a polícia que transporta o cadáver, porque sempre que se dá uma morte fora do hospital, a polícia tem de estar presente, encontrar indícios de crime e por isso, informa o ministério público, que não dispensa a autópsia.
Ou se os familiares não submeterem pedido de dispensa de autópsia, junto no MP.
Em todos os outros casos, o cadáver é entregue no IML e submetido a autópsia.
Uma morte natural em casa tem de ser verificada pelo inem, depois, poderá ser certificada pelo médico de família. Se apenas houver verificação de óbito, o corpo vai para o iml e a família, através das funerárias, pedem dispensa de autópsia e o mp se aceitar, manda o iml entregar o corpo à família.
Se houver verificação e certificação de óbito por parte do médico de família e não houver indícios de crime, a polícia contacta o mp e pede autorização para entregar o corpo à família. Se o mp aceitar, o corpo é entregue sem autópsia, se não aceitar, vai para o iml e o procedimento é o mesmo, solicita-se dispensa através da funerária e caso seja dispensada a autópsia, entrega-se à família.
Em todo o caso, o corpo só não vai para a morgue, se o mp decidir assim.
O Iml só não faz autópsia se o mp lhes der essa indicação.
O procedimento é este, por isso antes de escrever asneiras, com essa convicção toda, informe-se.
O que você escreve é uma tolice, El professor. E escreve muito para fingir que não é tolice.
Para não ter de o enfardar com leis e disposições legais, deixo aqui uma ligação: ais-sem-autopsia-magistrados-pedem-flexi bilizacao-da-lei/noticia/188457/
https://rr.sapo.pt/2020/04/08/pais/funer
Meu caro amigo, só escrevi o mais completo possível para não deixar para dúvidas.
Em todo o caso, fico feliz por o meu caro não saber nada do assunto, excpeto aquilo que vai lendo… é sinal de que o infortúnio da morte ainda não bateu à porta de alguém próximo.
A notícia que leu tem a haver com o caso específico de mortes de pessoas com suspeitas de covid.
Nesses casos há sempre autópsia se a vítima não tiver outras patologias, diagnosticadas pelo médico de família e não houver confirmação de contágio.
No entanto aconselho-o a contactar uma esquadra da PSP ou da GNR e de certeza que o polícia de serviço lhe vai explicar direitinho.
Não preciso do polícia.
“Todas as causas de morte de natureza desconhecida, ou morte não apurada, obrigam à autopsia mesmo sem suspeita do crime”.
http://www.ministeriopublico.pt/pergunta s-frequentes/outras-intervencoes-do-mini sterio-publico
Você quer confundir a questão colocada no meu primeiro comentário. Mas só não foram feitas autópsias ou pedido de autópsias porque o público não está esclarecido.
Portanto, regresso ao meu primeiro comentário para dizer-lhe que importava avaliar correctamente tais dados para impedir ou prevenir eventualidades semelhantes no futuro.
O seu comentário deve estar aí para, por partidarismo, procurar suavizar erros ocorridos e tentar dizer que tudo correu bem. Mas não correu. Importa saber, então, quem dispensou o pedido de autópsia e em que circunstâncias e quantas foram efectuadas?
E você continua a dizer asneiras, para fazer valer o seu post repleto de falsidades.
O público não tem de estar esclarecido, porque na questão das autópsias só uma entidade tem poder para as dispensar, o MP.
Não há nada de partidarismos no meu post, que só teve a intenção de corrigir uma informação errada dada por si.
Sobre o esclarecimento, sim deve haver esclarecimento, mas infelizmente o que se faz a nível de MP não é do domínio público.
Se o MP deveria ser mais esclarecedor? Sim deveria.
Mas o MP é famoso por ser sigiloso quanto a procedimentos.
E quanto a erros, não há ninguém que os identifique mais do que eu e prova disso é aquilo que escrevi acima:
O MP dispensa autópsias a pessoas que, apesar de serem suspeitas de covid, padecem de doenças crónicas, e essas pessoas podem ser dispensadas de autópsia.
Ou seja, até podem ter morrido de covid, mas nunca se irá saber, porque a autópsia não é efectuada, só é efetuada se o cadáver não tiver histórico de doenças crónicas.
Parece que estamos os dois a tentar explicar que os números de mortes poderão ser errados, mas de forma diferente.
Eu não sou seu adversário, eu estou a ajudar o meu caro amigo a fundamentar a sua idéia.
Eu não o vejo como adversário, apesar de insistir que foi uma tolice no contexto que volto a reafirmar.
Ex: se concluir-se que um doente que se encontrava em casa, não obstante poder sofrer de outras patologias, chega ao hospital e falece de uma septicemia, fica-se a saber que ele faleceu de uma infecção generalizada que originou a falência de seus órgãos. Porém é necessário saber as causas da infecção generalizada, que podiam ter ocorrido por um infecção “simples” que se detectada atempadamente corrigiria o destino dessa pessoa.
Portanto, o que esta em causa avaliar não é o de uma negligência médica ou qualquer outra questão, mas sim se no esquema adoptado face à pandemia comtemplaram-se as necessárias salvaguardas de assistência à população inclusive nos meios de diagnóstico.
A estes exemplos somar-se-iam muitos outros. Assim, a avaliação das ocorrências, incluindo as autópsias que deveriam ser feitas, facultaria a compreensão do fenómeno e das medidas.
Sobre o MP, ele agiu, e agiu publicamente. A notícia
Estava a responder a este comentário e algo ocorreu que não sei se o fez chegar. Na dúvida, volto a comentar de forma breve.
Aqui não se trata de sermos adversários, mas de analisar o fenómeno face à pandemia.
O exemplo de um doente que chegue a um hospital ou até mesmo que falecesse em casa com uma septicemia, não obstante poder sofrer de outras patologias, indica que ele faleceu por falência de órgãos em função de uma infecção.
Porém importa avaliar o que originou isso e se o auxílio para contrariar o desfecho foi proporcionado: o uso de meios de diagnóstico e a disponibilização dos mesmos em tempo útil para se poder agir.
Um doente em casa e seus familiares não estão aptos a diagnosticar situações cujos sinais por vezes aparentam ser assintomáticos e cujos distúrbios também se confundem com razões aparentemente sem importância.
Portanto, o que propus era aferir-se as ocorrência para evitar situações futuras e corrigir medidas futuras face a problemática semelhante.
Pelo que conheço, o MP pronunciou-se, questionou medidas e propôs alternativas. Daí ter anexado a notícia.
Nota: Faço notar que o que subjaz em meu primeiro comentário não é a responsabilização de pessoas nem de profissionais, mas, isto sim, colher elementos para futuramente melhor delinear. O exemplo aleatório acima procura simplesmente buscar uma situação comum em doentes idosos e outros também acamados que merecem uma melhor atenção e devem ser alvos prioritários em situações também desta magnitude.
Depois do primeiro comentário , tudo o mais será retórica.
É o que somos, não dá para mais.
Um redil que se crê país.
JSP
Como é que o André Dias, o PhD referido, poderia ser levado a sério se nem sequer tem uma estante com livros para emoldurar uma video-chamada?