Absolutamente sarcástico: isto é serviço público


Pedro Correia,

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Com maioria absoluta em São Bento, Ricardo Araújo Pereira vai valer-nos ainda mais. É o que esperamos muitos de nós, sabendo que os espaços de ironia e sátira política são residuais numa televisão higienizada, veneradora do poder de turno. Sobretudo quando esse poder reforça o seu alegado braço protector aos meios de informação, agora diluídos numa nebulosa a que chamam «indústria mediática» vocacionada para a «produção de conteúdos», seja lá o que isso for.

Em época de evidente carência de meios humanos qualificados e de escassez de recursos financeiros para informar com isenção e rigor, sem vénias a secretários de Estado e directores-gerais, o consumidor de notícias tem de estar atento: é bem provável que lhe sirvam gato por lebre. Faz-nos falta uma DECO nesta área. Ou uma ASAE, atenta à contrafacção galopante.

Na ausência de ambas, resta-nos a sigla RAP – detectora da incompetência e garimpeira da estupidez. Pondo a nu uma cascata de afirmações delirantes, que Araújo Pereira destacou na mais recente emissão de Isto é gozar com quem trabalha, colada à prédica dominical de Marques Mendes na SIC.

Nem Mendes escapou ao olhar sarcástico do comediante, que passou em revista alguns dislates proferidos pelos tudólogos em antena nos dias precedentes às legislativas. Um hilariante estendal de pitonisas sem vocação para ler o futuro nos interstícios políticos: tombaram na noite de 30 de Janeiro, alvejadas pelas suas próprias palavras, em doloroso e humilhante ricochete. Quase nenhuma fez a autocrítica que se impunha em nome da elementar honestidade intelectual.

Mas a maior autocrítica que vai tardando é a das empresas de sondagens. Nem as realizadas à boca das urnas, no dia da votação, garantiram o essencial. Daí o histriónico José Rodrigues dos Santos ter gritado, a abrir o Telejornal da RTP: «O PS pode chegar à maioria absoluta mas não é o mais provável.» A novidade viria a ser revelada, noite adiante, por Catarina Martins, recebida com vibrantes aplausos pela claque bloquista, que parecia festejar a perda de 14 dos 19 deputados e a ultrapassagem pelo Chega e pela Iniciativa Liberal no parlamento. Foi ela a anunciar ao país a maioria absoluta rosa, vá lá saber-se porquê.

Mérito suplementar de RAP, igualmente protagonista de previsões falhadas naquele programa sem nome que tem na SIC. Ele não se pôs de fora. Lá surgiu retratado entre as sibilas que erraram o alvo.

Será mais necessário que nunca, neste novo ciclo de maioria absoluta monopartidária – a primeira desde os dias nada saudosos de José Sócrates, quando diversos órgãos de informação funcionaram como contrapeso à arrogância autoritária do presidente do Conselho de Ministros.

Há uma diferença assinalável em relação aos tempos actuais, década e meia depois: jornais e televisões estão muito mais fragilizados. Por culpa própria, em grande parte. E também por serem vítimas da vampirização das redes sociais e da imparável pirataria que prossegue impune. Ninguém tenha ilusões: vêm aí tempos difíceis.

 

Texto publicado no semanário Novo

52 comentários em “Absolutamente sarcástico: isto é serviço público”

  1. O Pedro escreveu: “Faz-nos falta uma DECO nesta área”.
    Permita-me lembrar-lhe que a DECO, não é uma associação, como se pensa, mas uma empresa de capitais privados, de responsabilidade limitada (L.da) e, como tal, o seu objectivo último é o lucro.
    Estarei eu enganado?

    1. Para o caso, é irrelevante. Coloco a questão apenas na estrita defesa dos direitos do consumidor.
      Estabelecendo o paralelo: se houvesse uma DECO (privada) no jornalismo, e uma ASAE (pública), na mesma área, todos os consumidores de informação teriam mais garantias no combate à contrafacção noticiosa.

      1. Eu cá não vejo determinados canais sensacionalistas. Apenas vejo os menos maus (porque infelizmente o jornalismo bom em Portugal é raro). Por mim a CMTV era encerrada mas duvido que haja algum mecanismo legal para o fazer.

          1. Estou de acordo. A questão é se se pode chamar à CMTV e ao Correio da Manhã televisões e jornais, respetivamente.

  2. Há mais diferenças assinaláveis em relação aos tempos actuais; o primeiro-ministro é diferente, o presidente é diferente, o governo é diferente e as contas batem certo.
    Jornais e revistas estão mais fragilizados porque são subsídio dependentes e têm como objectivo manipular a opinião pública a favor do regime vigente.
    O R.A.P. é uma lufada de ar fresco num ambiente completamente poluído.

  3. Deus nos acuda!
    Um ex-comunista, defensor e praticante do cordão sanitário a uma força política que representa 385 mil eleitores, é o recurso que nos resta para filtrar a comunicação social.

    1. Quem souber de melhor, indique, sff.
      Eu gosto de elogiar, mas sei que nas redes o que “está a dar” é dar porrada em tudo e todos.
      No fim, por essa lógica, não sobra ninguém.

      1. Acho que não me fiz entender.
        Não sei de melhor nem sequer de igual (nas televisões) e é isso que lamento.
        Se o direito à informação existisse, eu teria direito, pelo menos na televisão pública, a informação e comentários isentos, mas isso não existe. E acho grave que o quase único (nas televisões) contraponto, seja um humorista, culto e a roçar o genial mas com um assumido viés de esquerda. Não duvido que terá a frontalidade de fazer críticas à gestão política da esquerda mas também não duvido que ajudará a divulgar mitos iliberais e a demonização do Chega.
        Mais uma vez, sejamos claros. O estado de direito precede a democracia, que sem ele nem faz sentido nem é possível. O direito vigente legalizou o Chega, pelo Tribunal Constitucional.
        Quem entende que o TC errou, é livre de exprimir essa opinião mas não é livre de tratar o Chega de formas legais e institucionais diferentes dos outros partidos, pelo menos sem estar a pôr em causa o estado de direito.
        Quem entende que o TC não levou em consideração factos extra-programa – o programa foi escrutinado – que o Chega tenha praticado é livre de fazer participações ao ministério Público (como creio ter sido feito, pelo menos pelo deputado José Magalhães) mas não é livre de, por exemplo, ouvir todos os partidos menos o Chega, como fez António Costa, dando mote ao que se vai seguir e ao colossal disparate do boicote à eleição do vice-presidente da AR.
        RAP, como cidadão responsável por um programa, é inteiramente livre de não convidar o Chega e apenas poderá comprometer a SIC com essa discriminação. Mas se o programa fosse transmitido na televisão pública, continuaria livre de não convidar o Chega mas já não de o publicitar na pantalha. Nesse particular RAP assumiu-se como activista e eu continuo sem informação nem comentários isentos.
        É exactamente como disse Pedro Correia, no fim não sobra ninguém (nas televisões).

        1. não é livre de ouvir todos os partidos menos o Chega, como fez António Costa

          António Costa fez audições não obrigatórias (pela lei) aos partidos. Ou seja, ouviu os partidos que lhe apeteceu ouvir. Nada na lei obrigava António Costa a ter ouvido os partidos nesta ocasião. Nestas condições, António Costa não podia ser obrigado a ouvir qualquer partido em particular. Rejeitou ouvir o Chega, está no seu direito.

          Uma coisa é uma pessoa institucional ouvir os partidos porque a isso é obrigado pela lei, outra coisa muito diferente é ouvi-los de motu proprio porque acha conveniente ouvi-los. No primeiro caso, é obrigado (pela lei) a ouvir todos os partidos. No segundo caso, só ouve aqueles que quer.

          1. Nada na lei diz que o primeiro-ministro o é de todos os portugueses mas apenas daqueles que lhe apetece. Bravo Balio.

          2. Exatamente. Se o primeiro-ministro não quer governar para os portugueses do Chega, então não precisa de falar com eles.
            Um governo não pode ser como uma prostituta, que dá um bocadinho de si a todos os homens. Um governo deve optar: por uns, contra os outros.

          3. Então para quê chamar o Chega se o Ventura afirmou quando cantou vitória ‘Costa vou andar atrás de ti’.

          4. Todos os outros menos o Chega. Com seis mas não com sete. Isso faz dele menos prostituta?

            P.S. Por sanidade mental e algum cansaço nem falo do que poderá esconder-se atrás da noção (optar=governar) “contra os outros”.

        2. se o programa fosse transmitido na televisão pública

          Parece que, no seu entender, a televisão pública tem deveres diferentes, e superiores, aos das televisões privadas.

          Se tem deveres superiores, então também deve ter direitos superiores, em particular receber uma subvenção pública (através da contribuição audiovisual e/ou de qualquer outro meio).

          1. Enquanto qualquer empresa privada pode apenas visar o lucro, as empresas públicas não devem/podem actuar contra o que está definido como interesse público.
            Enquanto as televisões privadas podem apenas visar as audiências, as televisões públicas não devem/podem agredir interesses públicos ou discriminar interesses políticos. Exige-se-lhes neutralidade.
            São deveres que derivam suficientemente de se terem formado com capitais públicos e nada têm a ver com formas de financiamento operacional. Se é exigido que as televisões identifiquem a publicidade, no exemplo que dei a televisão pública seria obrigada a um “disclaimer” tipo “as opiniões, inclusões e exclusões do autor do programa apenas o vinculam a ele e não à entidade transmissora.
            A falácia de inventar deveres “superiores” para justificar a imoral taxa do audiovisual é de muito baixa argumentação. Um claro paradigma de baixeza intelectual.

          2. Eu posso ser intelectualmente baixo, mas é isso mesmo que eu penso: se o Estado impõe a um qualquer canal de televisão (ou rádio) deveres superiores àqueles que impõe à generalidade deles, então deve compensá-lo financeiramente – naturalmente que a expensas dos contribuintes. Pode ser através de uma taxa cobrada aos consumidores de eletricidade ou através de outro meio qualquer, mas tem que dar a esse canal uma compensação financeira.

          3. Um “liberal” a defender taxas e taxinhas num país em que já existem centenas delas.
            Mais depressa se apanha um falso liberal do que um coxo.

          4. Erro. Eu não defendo a taxa do audiovisual. Eu defendo a privatização da RTP. Tal como o partido a que pertenço.

          5. Você “pertence” a um partido?
            Não será, presumo, um partido de orientação liberal. Só um partido totalitário se apropria dos militantes a esse ponto.

    2. Não sei se Deus é a entidade certa para nos vir acudir.
      Quando houve o cordão sanitário em Odemira Ele não ligou nenhuma, só se ninguém o chamou.

      1. Quando houve o cordão sanitário em Odemira Ele não ligou nenhuma, só se ninguém o chamou.
        Quando houve o cordão sanitário em Odemira Ele não ligou nenhuma, só se ninguém Ochamou.

        1. ” Quando houve o cordão sanitário em Odemira Ele não ligou nenhuma, só se ninguém Ochamou.”

          Quando houve o cordão sanitário em Odemira Ele não ligou nenhuma, só se ninguém O chamou.

          Isto é o que chama justiça divina.

          1. Espero sinceramente que isso não seja já uma sequela da vacina mRNA. Paciência de santo em estrutura de demónio parece alteração genética.

      1. Tenho dúvidas de existam 385 mil pessoas de bem em Portugal. Já anónimos, serão provavelmente mais.

          1. Os incógnitos já vem de longe para o filho da criada não ser herdeiro.
            O salazar e o cerejeira não queriam filhos de gente solteira e vá que ainda tinha o nome da mãe.
            Um antigo jogador do belenenses era filho de mãe incógnita.

  4. Concordo em absoluto. Penso mesmo que até em relação aos designados “fact checking” como é o caso do Polígrafo SIC, seria necessário perceber qual o modelo padrão para seleccionar os factos que evidenciam. A manipulação de tudo isto precisa, como o Pedro diz, de uma qualquer ASAE que proteja os consumidores de notícias.

    1. Os consumidores não precisam de ser protegidos de notícias, os consumidores precisam de ser protegidos é dos censores de notícias; que escondem e manipulam os dados, eliminam informação contraditória, promovem o discurso do ódio, discriminam sectores da população e lançam o pânico só para gerar confusão.
      Nunca houve tanta censura como agora. Nunca houve tanta manipulação como agora.
      Neste momento os órgãos de informação tradicionais estão transformados em correias de transmissão de lóbis manhosos.
      A verdadeira informação não está naquilo que alguns iluminados entendem que devem divulgar, a verdadeira informação é tudo o que é notícia, e o correcto é a escolha ser feita por cada um de nós.

      1. Os consumidores de notícias, tal como em qualquer outra área, devem ser alertados para a informação fraudulenta que agora aí circula a todo o momento, tendo como veículo principal as redes sociais que badalam não importa o quê. Disparam primeiro e conferem depois. Ou não conferem nada, pois trabalhar em informação credível e rigorosa dá muito trabalho e envolve alguma chatice. E requer formação especializada para o efeito.
        É mais fácil carregar no gatilho ou no autoclismo: no caso, muitas vezes, vem a dar no mesmo.

        Mas o problema não se coloca só ao nível do transmissor. Coloca-se também ao nível do receptor. Há cada vez mais gente a consumir pseudo-notícias e a propagá-las. Parecem gostar da contrafacção.
        É gente que faz questão de comer saudável e vestir bem. Mas, por outro lado, é gente que faz gala em andar mal informada e até parece orgulhar-se disso.
        Vá lá saber-se porquê.

        1. Concordo que os consumidores de notícias devam ser alertados para a informação fraudulenta, o que não concordo é que os consumidores de noticias sejam privados de ter acesso a essa informação fraudulenta.
          Não aceito qualquer forma de censura, nem aceito que alguém escolha por mim a informação que eu devo ler.
          É sempre tudo muito relativo, porque se quisermos ser sérios, o que é que foram as sondagens senão informação fraudulenta?
          Não façam dos receptores débeis mentais, porque quem se quer manter informado sabe perfeitamente onde deve procurar. E é por causa desse tipo de policiamento da moral e bons costumes que os partidos populistas conseguem chegar aos revoltados das redes sociais.

          1. Isso não, claro. Sou também contra todas as formas de censura. E por isso mencionei a DECO. Por entender que este escrutínio não deve ser feito por entidades públicas – o paralelo com a ASAE visa, concretamente, o combate à contrafacção noticiosa. Esclarecendo as pessoas, não policiando.

            Por ser contra todas as formas de censura militei no DELITO contra a “Carta dos Direitos Humanos na Era Digital” apresentada em 2021 pela bancada do PS no parlamento – e sobretudo contra o famigerado artigo 6.º, que reintroduzia a censura em Portugal, a pretexto da defesa dos “bons costumes” informativos. Estas coisas começam sempre com o anúncio de excelentes intenções – e acabam sabe-se lá onde.
            https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/os-novos-censores-andam-ai-12728989

    2. Viva, Luís. É um gosto vê-lo por cá. Como uma vez lhe disse, considero-o um “delituoso” honorário. Quando quiser juntar-se a nós como autor, será muito bem acolhido nesta casa.
      Forte abraço, com votos de boa saúde e o ânimo de sempre.

  5. O PS conseguiu o poder político absoluto em Portugal por mais quase 5 anos, com 2,4 milhões votos favoráveis, 1/4 do eleitorado. É de Lei.
    Outro 1/4 do eleitorado optou votar, expressamente, contra este PS. Expressamete.
    E como bem sabemos 1/2 do eleitorado não se comove. Provavelmente já percebeu que votar neste sistema eleitoral -em que o vencedor vai fazer o que bem lhe apetece sem dar cavaco a ninguém- é um exercício cívico inconsequente.

    Daí ser claro concluir que este poder político será frágil. Típico, nos poderes políticos frágeis, abusará.
    Daí a primeira coisinha que o futuro primeiro ministro disse foi declara-se um desabusador nato. Óbvio, não é?.

  6. Este comediante tinha mais graça quando era um palhaço Pobre. Agora que é um palhaço rico armado em torquemada trostkista caviar nem por isso.

    1. Não sei o que é um “torquemada trostkista caviar”.
      Torquemada, grande inquisidor espanhol do século XV, tinha poder religioso e político. Ricardo Araújo Pereira tem apenas o poder… de fazer rir os portugueses.

      Vai fazer-nos ainda mais falta nestes anos de maioria absoluta PS.
      Oxalá não seja afastado dos ecrãs um dia destes.

      Se alguém não gosta dele, tem bom remédio. Muda de canal. E escolhe… não sei o quê. Porque não encontro melhor.

    1. Nem mais, João Pedro. É isso.
      Alguns leitores apareceram aqui a dizer que não gostam. Estão no seu direito. Mas quando lhes peço algum exemplo de alguém que faça hoje mais e melhor sátira política em Portugal, incomodando realmente o poder, ficam em silêncio.

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