Abel Escoto (1919 – 2014)


Teresa Ribeiro,

 

Terias gostado de lhe fazer um close up? Que tal a achaste? Porventura lembra a convidativa Jessica Lange em All That Jazz ou faz mais o género maternal ao estilo da Audrey Hepburn em Always?

A Audrey era uma rapariga do teu tempo. Enquanto ela rodava o “Boneca de Luxo”  e o “Férias em Roma” andavas tu aqui a fazer os possíveis e principalmente os impossíveis para rodar “fitas de fundo”, como dizias. Sem dinheiro – nesse tempo não havia subsídios para ninguém – sem material decente, com actores que viviam do teatro e para o teatro e por isso nem se davam ao trabalho de decorar os textos que tinham de debitar no plateau. Até porque sabiam que o faziam para câmaras que não sincronizavam imagem e som. Para quê então decorar o papel? Por um trabalho que até podia nunca vir a ser pago. 

Foi assim logo após a “época de ouro do cinema”. Nos anos 50, 60 e 70 foi a travessia do deserto. Uma miséria franciscana, a que só por paixão obstinada alguém se sujeitaria. Mas se chegaste com tanta lucidez e vontade de viver aos 95 anos, não foi por acaso. É porque apesar de tudo gostaste. E se calhar parte desse gozo tiraste-o  dessa luta insana pelo reconhecimento da tua arte.

Agora, que a tia não está a ouvir, diz-me: essa senhora que te levou é tão fotogénica como a Jessica e a Audrey?

6 comentários em “Abel Escoto (1919 – 2014)”

  1. Um beijo sentido pela morte do teu tio, Teresa. O texto que aqui lhe dedicaste em devido tempo – e que foi lido numa cerimónia realizada na Cinemateca – prestou-lhe justiça em vida. Ele trabalhou com grandes nomes do cinema português, numa época que ainda era de pioneiros (participou como director de fotografia na primeira longa-metragem portuguesa na cores, por exemplo). Era um grande nome do cinema português também. Mais antigo que ele, creio, só mesmo o Manoel de Oliveira.
    Ainda recentemente vi o nome dele na ficha técnica de um filme de 1950, rodado no bairro de Alvalade e no Saldanha, com o António Silva, a Milu e o Eugénio Salvador. Há um aspecto documental nesses filmes que os revalorizam aos olhos dos espectadores de hoje. Um olhar de documentarista que Abel Escoto nunca perdeu.

    1. Obrigada pelas tuas palavras, Pedro. Registei com agrado as manifestações de carinho e admiração que a notícia do seu desaparecimento suscitou. Ele mereceu esse reconhecimento.

  2. Teresa,

    Apesar do meu conhecimento, das glórias e misérias, do Abel serem muito reduzidas, devido aos muitos anos de afastamento, gostava de lhe oferecer uma coisa que escrevi e que me parece apropriado ao momento…

    VIDA

    É melhor dar do que pedir.
    É melhor rir do que chorar.
    É melhor somar que dividir.
    É melhor comer que jejuar.
    É melhor curar do que ferir.
    É melhor a luz que a escuridão.
    É melhor falar do que omitir.
    É melhor o Benfica que o Leão.
    É melhor amar do que odiar.
    É melhor ser bom do que ser mau.
    É melhor saber que ignorar.
    É melhor a sardinha que o bacalhau.
    É melhor o perfume do que a peste.
    É melhor conceber que aniquilar.
    É melhor ser alegre que ser triste.
    É melhor acolher que desprezar.
    Mas a melhor coisa que existe,
    Nesta grande vida de cão.
    É vivê-la como um triste
    Mas amá-la com paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *