A Web Summit, um evento de “estatistas”


João Pedro Pimenta,

Aqui há uns anos, João Carlos Espada desenvolveu uma imaginativa teoria, segundo a qual o uso de gravata estava directamente ligada à (menor) intervenção do estado na sociedade e a “formas de conduta decente”: quanto mais se usava gravata – além de outros acessórios – menos se era a favor da intervenção do estado: quanto menos se usasse, mais se seria favorável ao “estatismo”.

 

Estava hoje a olhar para os intervenientes no palco e nas primeiras filas da plateia do Web Summit, a gigantesca conferência de tecnologia e empreendedorismo a decorrer em Lisboa, e a notar como a maioria usava o padrão dos grandes empreendedores do nosso tempo (leia-se também geeks ou nerds, à falta de melhor tradução portuguesa): óculos de massa, t-shirt, jeans, provavelmente sapatilhas – ténis, para os menos familiarizados. Mesmo os convidados, como Guterres, apareceram sem gravata. No meio disto tudo, o único que estava engravatado, tirando alguns orientais pouco apreciadores de informalidades, era António Costa. Usando-se a teoria de Espada, poder-se-ia considerar que toda aquela aglomeração de gente estava ali para exigir a intervenção do estado, ou seja, mendigar algo do estado. Costa, a máxima autoridade da administração pública, apoiado por toda a esquerda, seria o defensor da sociedade livre e destatizada, o paladino do governo mínimo e da defesa dos cidadãos e consumidores perante uma máquina burocrática e insaciável com o rosto do “monstro” do funcionalismo público. Até que o Primeiro-Ministro, decerto receoso das reacções dos parceiros políticos e de acusações de neoliberalismo, tirou a gravata para parecer menos desenquadrado do ambiente. O Professor Espada ficou certamente desiludido, mas António Costa lá salvou a honra de parecer não só estranho ao que o rodeava, mas sobretudo um defensor do intervencionismo mínimo do estado.

Claro que tudo isto resulta de uma teoria excêntrica e de uma situação casual, que inverte a realidade. Mas podia ser uma boa metáfora do investimento público feito até agora pelo governo mais à esquerda desde 1975.

 

5 comentários em “A Web Summit, um evento de “estatistas””

  1. Mirandela irá provavelmente organizar no início de 2018 mais uma edição da, desta vez, Alheira Summit. Sem gravata, lógico.

  2. D’antes a roupa tinha o propósito de tapar o que se tinha. Hoje ela serve sobretudo como fingimento do que não se tem.

    D’antes a roupa adornava o corpo. Hoje ela adorna espíritos vazios.

  3. Esse Espada ex udp usa,quando a media o mostra,laço e não gravata.Deve haver subtilezas político-antropológicas só dele conhecidas.

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