Como muitos outros antes dela, talvez Maria Luís Albuquerque não devesse poder aceitar o cargo que aceitou. Porém, mais lamentável do que ela tê-lo feito – às claras e aparentemente sem infringir a lei – é, uma e outra vez, estes casos apenas servirem propósitos de demagogia barata. As promiscuidades devem ser investigadas (desde logo, beneficiou Maria Luís Albuquerque a Arrow Global enquanto ministra?) e é provável que a lei das incompatibilidades deva ser alterada – mas não no sentido do populismo defendido pelo Bloco de Esquerda. Afinal, em que poderá trabalhar um ex-ministro das Finanças se lhe for vedado o acesso ao sector financeiro? Que cargo poderá aceitar um ex-ministro da Economia se a gestão de empresas privadas (a ninguém parece incomodar que possa ir contratar swaps para uma entidade pública) lhe for interdita? (Pense-se em António Pires de Lima, por exemplo.) A que actividade poderá dedicar-se um ex-ministro da Justiça se os escritórios de advocacia (e há imensos negócios cinzentos em torno deles) constituírem terreno onde não possa entrar?
Cair no populismo de impedir ex-governantes de trabalhar em empresas do sector que tutelaram nos seis anos subsequentes ao abandono do governo (como o Bloco pretende) faria com que este constituísse cada vez mais um feudo de profissionais da política, sem outra visão do mundo que a da «distrital», dos cargos públicos e dos jogos de solicitação e distribuição de benesses. Hoje mesmo, quase só aceitam integrar o governo três categorias de pessoas: as que têm posses suficientes para não ficarem demasiado incomodadas com a perda de rendimento; as que, podendo ter currículo e até boa vontade, esperam lucrar após a saída; e as que, tendo feito toda a «carreira» nos meandros da política, não ganhariam mais noutro lugar e para quem os «benefícios», obtidos durante e/ou após o desempenho do cargo, constituem frequentemente objectivo de vida. Uma lei das incompatibilidades decente necessita de conjugar eventuais «períodos de nojo» com formas de os compensar e com aumentos remuneratórios ou os governos ficarão definitivamente reduzidos a elementos da terceira categoria (sim, há aqui um duplo sentido). A categoria onde muitas vezes são colocados Pedro Passos Coelho e António Costa, onde «vultos» como João Soares têm assento cativo, e onde também encaixam os principais líderes do Bloco de Esquerda.

Mesmo no alvo.
Obrigado, cristof. Mas certamente ainda aparecerá alguém com outra opinião… 🙂
Inteiramente de acordo. Esta histeria não nos leva a lado nenhum.
É preciso parar para pensar, parece-me.
Obrigado, Tiro ao Alvo. A histeria convém a quem, por falta de alternativa, tem mesmo de fazer carreira na política e também a quem vê motivos obscuros em tudo o que seja sector privado (i.e., não directamente controlável). É um modo fácil de afastar adversários e de conquistar votos. Claro que, a prazo, ninguém fica imune. Mas, como o PS actual, o Bloco vive no (e da manipulação do) presente.
(Diabos, duas pessoas de acordo. Devo estar a tornar-me inofensivo…)
Quando se aceita um cargo de ministro têm de se ver os prós e os contras e este é um deles. A senhora como ninguém, sabe de dados que interessam à Arrow Global e ninguém, como ela, para lhos fornecer. Perante tal pedia-se à senhora Maria Luís Albuquerque que o rejeitasse porque a Arrow convidou-a não pelas suas capacidades nem pelos seus lindos olhos, mas pelo que ela lhes poderá fornecer. Ela fornece e eles dão-lhe uma choruda compensação mensal. Não é preciso pensar muito, basta pensar só um bocadinho para vermos o que está aqui em jogo. Exige-se ética, mas pelo que se vê, isso é coisa que não interessa, o que é mau. Uma sociedade desprovida de valores, é uma sociedade vazia e do safe-se quem puder.
Finalmente alguém que prefere discutir o caso particular em vez do problema de fundo. Talvez daqui a uns tempos, quando Centeno e os seus homólogos deixarem o governo, você mude de posição. Ou exige mesmo que eu mencione Jorge Coelho e a Mota-Engil, Sócrates e a não-sei-quê-pharma?
Não exijo nada. Não aceito é que só porque uns erraram, os outros, o possam fazer. Se esses erraram e o JAA refere-o e bem, logo a senhora se queria ser exemplo, não o devia fazer, como o fez sem se preocupar, está aí o reflexo da má política que é. Um bom político não aceita um cargo destes e ela e outros que tal só são notícia, pelos maus exemplos, não pelo valor. Se Centeno fizer o mesmo criticá-lo-ei com a mesma veemência com que critiquei esta, até lá, não o poderei fazer porque nada me leva a pensar isso. A crítica tem de ser feita não porque é do PS, BE, PSD… Faz-se quando não têm vergonha nem tacto no que fazem.
Portanto você é fã de governos de apparatchiks? Confere.
Estamos a falar de pessoas e não de governos. Estamos a falar de pessoas que não sabem estar na política. Estamos a falar de políticos que não o são, mas usam a política para atingirem os seus fins. É disto que falamos, de políticos sem ética e desses, estamos fartos. Todos somos políticos, mas infelizmente muito poucos o sabem ser. É a realidade quer queira quer não e está bem à nossa frente.
Eu não vi nada de mal ou vergonhoso quando Jorge Coelho foi traballhar para a Mota-Engil e José Sócrates para a Octapharma.
(Bom, parece que o caso de Sócrates é algo diferente na medida em que a justiça viu indicios sérios de que se tratava de um emprego ficticio para justificar pagamentos não declarados em retribuição de eventuais favores feitos quando tinha funções governativas. De qualquer modo, é um caso de justiça ainda em curso pelo que não tiro conclusões antes de tempo.)
Muitos dos que agora defendem ou desculpam Maria Luis Albuquerque lembram estes e outros casos de personalidades politicas de esquerda que foram depois trabalhar para entidades privadas não tanto para os condenarem por o terem feito mas antes para chamarem a atenção para a dualidade de critérios (“dois pesos, duas medidas”) que a esquerda usa e abusa consoante se trate de pessoas conotadas à direita ou à esquerda.
Sempre que não se quer discutir um caso particular, chama-se o problema de fundo.
Em abstrato não há desonestos, logo todas as soluções são boas.
Não, quando não se querem discutir os problemas berra-se muito acerca de casos específicos e aproveita-se para avançar com soluções demagógicas. Enfim, na verdade, do ponto de vista de quem as propõe, nem são demagógicas: correspondem a uma visão concreta e, para essas pessoas, desejável, de circunscrever os cargos governativos a elementos afectos à lógica partidária e/ou da função pública.
MM : “a Arrow convidou-a [Maria Luis Albuquerque] não pelas suas capacidades nem pelos seus lindos olhos, mas pelo que ela lhes poderá fornecer. (…) Não é preciso pensar muito, basta pensar só um bocadinho para vermos o que está aqui em jogo.”
O MM é porta-voz da Arrow para saber porque é que esta empresa contratou Maria Luis Albuquerque ??!!…
Mas já que insinua, o que é que Maria Luis Albuquerque poderia “fornecer” à Arrow para além das suas “capacidades” ??…
O que é que “pensa” (poucoxinho) que “está aqui em jogo” ??…
O que é que é éticamente condenável ??…
Por favor, procure ser concreto e preciso nas respostas e não ficar-se por considerações gerais sobre hipotéticos e vagos “interêsses e segredos de Estado” !…
De outro modo não é sequer possivel analizar e discutir objectivamente a sua posição.
Hoje mesmo, quase só aceitam integrar o governo três categorias de pessoas
Há uma quarta e importante categoria de pessoas que se esqueceu de referir: os funcionários públicos de carreira, especialmente os professores universitários.
Inclui-os na segunda: “as que, podendo ter currículo e até boa vontade, esperam lucrar após a saída”. Embora seja verdade que em algumas – veja-se Centeno – há algo que talvez se possa chamar “vaidade em impor uma teoria” (no caso dele, estraçalhada pelas mudanças que o obrigaram a fazer). Ou seja, algumas parecem considerar o lugar de ministro como apogeu de uma carreira académica – mas estou convencido de que ainda assim não perdem de vista os ganhos posteriores, decorrentes da notoriedade e dos «contactos».
“Incluí-os” (com acento).
“impedir ex-governantes de trabalhar em empresas do sector que tutelaram nos seis anos subsequentes ao abandono do governo…faria com que este constituísse cada vez mais um feudo de profissionais da política…”
Mas é mesmo esse o objectivo da Esquerda. O Totalitarismo da Política.
Yep. De acordo.
A política tem de ser exercida por profissionais e não por amadores. É aí que começa o erro. Ser político não é para qualquer um, ser político é saber o que tem de fazer e o que não pode fazer. Diria mais, é uma missão e como a maioria dos políticos fazem política por amadorismo temos as consequências à vista.
A política apenas para os políticos… Gente que percebe tanto como a Economia funciona como Lysenko percebia de agricultura e genética. Que bonita visão.
E muito democrática, claro.
Meu caro a politica para quem a sabe fazer e viver. Disse-lhe: todos somos políticos amadores, em que uns sabem mais, outros menos. Um político profissional pode ser economista, advogado, médico…o que não pode, é ser um político de faz de conta porque se o for, sai asneira. A sua resposta tem muito que se lhe diga. Faz-me lembrar o José Gomes Ferreira que é um jornalista, mas sabe de economia como se fosse um catedrático.