A televisão feita cinema


Pedro Correia,

house-of-cards[1].jpg

 

Ao longo dos anos tenho visto excelentes séries na televisão. Mas poucas tão boas como House of Cards, uma impressionante e quase hipnótica digressão pelos bastidores da política. Centrada na teia de interesses que se vai tecendo em torno da Casa Branca, e com naturais particularidades da vida pública norte-americana, mas com pistas de reflexão sobre o implacável exercício do poder que podem funcionar para qualquer tempo e qualquer lugar.

 

ray-donovan-cast-season-3[1].jpg

 Ray Donovan

 

Com a viragem do século o cinema foi-se infantilizando e comercializando. Ganhou ainda maior dimensão industrial à medida que perdia fulgor criativo. Cada vez mais passou a privilegiar o embrulho pirotécnico, destinado ao consumo alucinante de pipocas. E a dimensão lúdica daquilo a que noutros tempos se chamava Sétima Arte deixou de ser um meio para se declarar um fim.

A crítica cinematográfica transformou-se num veículo de difusão publicitária, confundindo qualidade com receitas de bilheteira. E a forma de contar uma história com impacto visual, diálogos credíveis e sólida construção de personagens foi-se desvalorizando até à caricatura. O pensamento deu lugar ao divertimento acéfalo. E a mediania acabou promovida a patamares de excelência pela absoluta falta de critério dominante – como aliás ficou bem visível na recente distribuição de estatuetas douradas ocorrida em Hollywood.

 

engrenages-2005[1].jpg

 Um Crime, Um Castigo (Engrenages, no original)

 

Felizmente a televisão tem caminhado em sentido contrário. Enquanto nas décadas anteriores os realizadores faziam o percurso dos plateaux televisivos para os estúdios cinematográficos como modo de progressão artística, hoje assistimos ao fenómeno inverso: as produtoras televisivas contam com o talento comprovado dos maiores cineastas – incluindo Steven Spielberg, Martin Scorsese e Woody Allen, para nos quedarmos só nos EUA.

A televisão tornou-se mais exigente, mais criteriosa, mais adulta. E foi lá que passámos a encontrar o melhor sucedâneo do bom cinema. Em séries americanas como Os Sopranos, 24, Mad Men, Segurança Nacional, Boss, Ray Donovan, Fargo, Wayward Pines, True Detective, The Affair, Odisseia, American Crime, Olive Kitteridge. Ou nas dinamarquesas Forbrydelsen, Bron, Arvingerne e Borgen. Ou nas francesas Os Influentes e Um Crime, um Castigo (esta agora em reposição na RTP 2: espreitem a quarta temporada, talvez a melhor de todas). Ou nas britânicas The Honourable Woman e The Fall, esta com Gillian Anderson no melhor papel da sua carreira.

 

thefallseason2[1].jpg

The Fall

 

Serei o último a propor a definitiva troca da sala escura de cinema pela resignada mansidão do sofá. Mas confesso-me espectador assíduo e entusiasta de todas aquelas séries, já exibidas ou em exibição. E cada vez mais me rendo à escrita, às interpretações e aos enredos que irrompem da televisão. Já não apenas com o fito de nos distrair, mas com a intenção deliberada de nos fazer pensar.

E termino como comecei. A dar as boas-vindas ao maior aprendiz vivo de Maquiavel: o Presidente dos Estados Unidos da América, Francis J. Underwood – soberba criação de Kevin Spacey, que ultrapassou todos os seus memoráveis papéis no cinema, incluindo o Roger Kint d’Os Suspeitos do Costume e o Lester Burnham de Beleza Americana, que lhe valeram Óscares. Sem esquecer a bela, perversa e trágica Claire Underwood, tão bem interpretada por Robin Wright, belle toujours.

 

houseofcards[1].jpg

House of Cards

 

Estenda-se a passadeira vermelha à quarta temporada de House of Cards. Estreia logo à noite, a partir das 23 horas, no canal TV Séries. A televisão feita cinema. Cada vez mais arrebatadora, cada vez mais perturbante. Cada vez melhor.

0 comentários em “A televisão feita cinema”

  1. A qualidade da escrita e da filmagem, nestas series americanas é duma qualidade que me cativa (até me dá a sonhar em enveredar por tão vibrante carreira!!) ;no cinema ainda os fora da EUA conseguiam , por vezes brilhar, tanto como eles, mas aqui estão muito atrás.

  2. Eu papa-séries me confesso…
    Vejo todos os episódios piloto e faço as minhas escolhas. Sigo quase todas as que acima referiu. Bron/Broen é muito superior a The Bridge, com a Diane Kruger, que até faz um bom papel. Tirarem o Jamie Dornan de uma série muito boa, para o ensombrarem daquela maneira no cinema, não se faz… Grande desilusão com os novos X-Files… até parece que, vistos daqui e agora, nunca valeram grande coisa.
    tenho para mim que as séries policiais britânicas, com menos espalhafato e mais substrato, como o Luther, por exemplo, são muito superiores às americanas em que muita acção é imprescindível para se poder contar uma história.
    E concordo a cento e tal porcento quando diz que o papel do Underwood foi o melhor papel de todos os que o Kaiser Soze interpretou, assim como Tom Kane foi a melhor interpretação do Frasier.
    Comecei a ver The Nigh Manager… ainda não sei se gosto.

    1. ‘Ficheiros Secretos’ é uma das séries da minha vida. Detestei o primeiro filme (já nem vi o segundo) e fiquei muito decepcionado com o episódio que já vi da novíssima temporada.
      Li há pouco que também ‘Twin Peaks’ vai ter uma nova versão. Esta mania das reposições estraga quase sempre a boa memória que conservamos das versões originais.

    1. Happy Valley teve uma excelente primeira temporada. Os quatro primeiros episódios da segunda temporada, já os tenho, o que não tenho é tempo. Broadchurch, por exemplo, teve uma excelente primeira temporada; já da segunda não gostei tanto, tampouco da americanização da série, Gracepoint, mesmo com o David Tennant como protagonista, perdeu-se completamente…

      1. José António: nunca tive intenção de elaborar uma lista exaustiva das séries televisivas de que mais tenho gostado ao longo desta década e meia, embora possa fazer isso um dia destes: julgo mesmo que daria uma excelente série colectiva aqui no blogue – tipo As séries das nossas vidas.

        Dulce: houve outras de que gostei muito mas que me decepcionaram a partir de certa altura porque não souberam parar a tempo ou se descaracterizaram irremediavelmente – do ‘CSI’ original a ‘Prison Break’.

        1. Toda uma série sobre séries de TV era de valor, Pedro 🙂
          Deu dois excelentes exemplos de como a quantidade é prejudicial à qualidade.
          Prison Break , só mesmo a primeira temporada. Ponto.
          O CSI foi completamente canibalizado e só o original de las Vegas conseguiu manter a identidade. Acabou mal. Não gostei do fim. Num computo geral, salvou-se sempre e somente o tema dos genéricos, com excelentes excertos dos The Who em todos os spin-offs.
          Por exemplo ( e mais uma vez) as séries britânicas têm de entre 6 a 10 episódios cada…
          Costumo exemplificar com Twin Peaks: Primeira temporada, um boom, uma coisa fora de série com 8 episódios. Segunda temporada, bom de ver, mas a tornar-se cada vez mais secante com os seus 22 episódios…

          1. Adoro aquele breve jingle do genérico com o tema do Peter Townshend, ‘Who Are You’: ficou como imagem de marca do ‘CSI’ – que quando começou em 2000, salvo erro, era uma excelente série. Um policial diferente, como nunca tínhamos visto.
            Se quisermos fazer uma série sobre séries teremos de ir buscar outras já bastante mais antigas – do velho ‘Colombo’ aos imperdíveis ‘Ficheiros Secretos’ (que ao contrário de ‘Prison Break’ foi melhorando até nas temporadas seguintes até sucumbir ao inevitável e natural cansaço).

        2. Na-na-na. Não penses que te safas assim tão facilmente. Fazer uma lista de séries televisivas sem mencionar “The Wire” e “Breaking Bad” é como fazer uma lista de marcas de automóveis desportivos – e ainda que se idolatre a Aston Martin acima de qualquer outra – sem mencionar Ferrari e Porsche.

          1. Prefiro falar de algumas das maiores decepções que fui tendo. Destaco ‘Mr Robot’, que ainda comecei a ver esforçadamente antes de desistir perante tanto desconchavo e tanta teoria da conspiração. Nunca vi um episódio inteiro de ‘Donas de Casa Desesperadas’ (não integro o público-alvo da série, admito). E desinteressei-me da premiadíssima ‘Anjos na América’ a partir do episódio 2: já não acompanhei o resto.

  3. Grato por algumas sugestões que, a avaliar pelas que conheço e que recomenda, terei que ver. Em troca, recomendaria as britânicas “Broadchurch” e “Happy Valley”

    1. Agradeço as dicas. Estou longe de ser um ‘expert’ na matéria porque em regra só vejo as séries bastante depois da estreia, evitando as momentâneas ondas de euforia e estridência que costumam acompanhá-las. Mas há que reconhecer a evidência: nos últimos anos estrearam-se várias que podem ombrear com os melhores filmes produzidos neste século.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *