Julgava eu que vivíamos numa sociedade capitalista. E que uma das características das sociedades capitalistas era o consumo desenfreado concretizado na compra indiscriminada induzida pelo marketing, pela propaganda e pela publicidade, formas estas de manipulação de massas indefesas. E que só esse consumismo exacerbado permitiria ao capitalismo retroalimentar-se, sempre numa busca incessante e voraz de novas vítimas do modelo de exploração. A inovação, a vertigem tecnológica, o lançamento de novas séries, o re-styling, os ciclos cada vez mais curtos de obsolescência, tudo isto teria, supunha eu, uma lógica capitalista subjacente. Com a consequente maximização do lucro das empresas à custa de todos quantos, seduzidos pelo bombardeamento de apelos à compra do desnecessário, do supérfluo, do redundante, acabariam por funcionar como uma enorme e proletarizada população de ratinhos que teria como única missão impulsionar com as respectivas patinhas a giganteca roda da exploração. Mais, estava convencido de que tudo isto teria um nexo de causalidade com o aquecimento global, a escassez de recursos não renováveis, a poluição, a acumulação de lixos oceânicos e todo um vasto conjunto de ameaças e desastres naturais. E que, no final da estrada deste capitalismo sem freio estaria a proletarização e o empobrecimento dos iludidos, subjugados à força pelo consumismo e pelo engodo do crédito fácil concedido por banqueiros ávidos, e o esgotamento dos recursos. Pobre de mim, pensava que consumir acima das possibilidades individuais e colectivas eram a essência mesma e a sustentação do modo de ser capitalista, ainda que fossem também a semente da sua própria destruição, uma e outra vez anunciada. E que a crítica ao modelo era um património reclamado por uma certa esquerda. Depois, ouvi Isabel Jonet dizer umas tontices sobre consumismo exacerbado e a necessidade de fechar a torneira quando se lava os dentes que, se virmos bem, reproduzem esse diagnóstico dos vícios e desvios do sistema capitalista. E vi gente que se proclama de esquerda a esquartejá-la sem piedade, atirando-se-lhe aos bofes como ela se atirou aos bifes. Concluo, portanto, que Portugal é uma ilha. Que num mundo que consome como se não houvesse amanhã, fomos capazes de nos manter puros e contidos, frugais e amigos do ambiente, apesar da cupidez dos banqueiros e da codícia dos grandes grupos empresariais. E que todos aqueles que passaram anos a criticar uma sociedade consumista e desumanizada estavam afinal enganados. Tudo está bem quando acaba bem.
A sociedade consumista e desumanizada que nunca fomos
Rui Rocha,

nada é já o que julgámos ser.
Sendo certo que é necessária uma definição urgente do próprio nada.
Ainda não li mas parece prometedor e apropriado para quem sente urgência na definição do nada: http://blogoexisto.blogspot.pt/2012/11/e ste-tem-forcosamente-que-ser-o-melhor.ht ml
E parabéns pelo seu post.
Já tinha visto a referência do JPC. E estou curioso.
Para falar verdade, achei muito surpreendente a quantidade de festivais/concertos que recentemente se realizaram em Portugal, e as notícias sobre o colossal (escrevo propositadamente colossal) dispêndio em entradas, como se a crise passasse longe, quando tanta gente está desempregada, passa as maiores privações, come Nestum, recorre às IPSS, levou os seus idosos para casa para viverem das reformas deles, etc., etc.
E devo ter sido o único que reparou nas dicas que A PRÓPRIA EPAL (a empresa das águas de Lisboa) difunde sobre o consumo responsável e sem desperdícios do produto que vende.
E o que as crianças aprendem na escola sobre o consumo parcimonioso de recursos?
Aprendem, mas chegam a casa e no canal Panda, agora que o Natal está à porta, são mais que muitos os anúncios de brinquedos que estarão na arrecadação ou no lixo dos que os receberem passados dois ou três dias.
Isto anda tudo marado, é o que é.
Sim, pelo menos era o que a esquerda dizia até há pouco tempo.
Somos uns santos, Rui. Tinhas dúvidas?
Muito leves.
Diz que “tudo está bem quando acaba bem”. Mas quando a gente lê coisas destas, assusta-se: http://oinsurgente.org/2012/11/08/os-dev oristas/
Não é caso para menos.
Hélas! Enfim discordamos.
O discurso de Isabel Jonet foi para mim, ridículo. Tontices, como diz o Rui. Acredito que pressionada pelas circunstâncias, disse umas coisas que lhe vieram à cabeça. Mas que soaram muito, muito mal.
Quem são os pobres que ainda comem bifes em Portugal? Por favor, abram os olhos, acordem. A maioria das famílias – sim, a maioria, não estou a exagerar – já só faz uma refeição diária e com toda a certeza não é bife. Frango, talvez, se tiver arranjado uma promoção jeitosa. Ou Nestum.
Fechar a torneira quando lavamos os dentes resolve os problemas económicos do país? Era assim tão simples? Porque é que não disseram logo? Porque é que Isabel Jonet não ensina os filhos a respeitarem o planeta em que vivem poupando a água que corre irresponsavelmente para o cano? Eu ensino os meus, mesmo sendo pobre.
O problema que está aqui foi a leviandade com que foram feitas afirmações que deixaram no ar a ideia de que os pobres o são porque o quiseram ser, é da sua absoluta responsabilidade porque andaram a abusar, pensando que poderiam ter os mesmos privilégios (comer um bife, que pecado!) que os não-pobres.
O problema que está aqui é que – a acreditar nas suas palavras – Isabel Jonet dedicou a sua vida a uma causa na qual manifestamente não acredita. Como é possível? Algo está errado nisto tudo.
O discurso dos gastos acima das nossas possibilidades já me cansa, especialmente porque continuo a ver gastos acima das possibilidades de todo o país, mas não são os cidadãos que os fazem. A estes cabe apenas o papel ingrato de os pagar, e ainda por cima têm de ouvir dizer “Querias bife todos os dias? Não há… Alguém já o comeu.” Porque na realidade foi isso que aconteceu.
A situação é difícil? É. Tem de ser resolvida com o empenho e o trabalho de todos? Sim. De todos, e sem paternalismos ridículos de alguém que, pelo trabalho que já fez, devia ser a primeira a indignar-se com este género de comentários.