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(Metangula)
“On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l’aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (…) car [on] supposait qu’un homme qui n’était pas né en France n’avait pas le sens commun”
(Voltaire, L´Ingénu, 1767)
Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.
Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.
Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!
E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.
Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.
Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.
Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.
Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.
Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…
Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?
Mandimba, 2002

1. O esbulho Abrilista não tem um pingo de vergonha.
2. Esses são os autores do Regime Abrilista. Os seus ideólogos de serviço. Em todos os Regimes há esses serventuários. O Regime cita-os e dás-lhes prémios. Faz parte da propaganda.
3. Falam de Impérios?
4. Então falar-vos-ei, do “Império Sombra Português no Sião”. Falar-vos-ei dos “Protukét”.
5. Falar-vos-ei de Taprobana (hoje Myanmar).
6. Sim aquela, a que Camões se referiu em: “As armas e os Barões assinalados/ Que da Ocidental praia Lusitana/ Por mares nunca de antes navegados/ Passaram ainda além da TAPROBANA /Em perigos e guerras esforçados/ Mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram…” (Lusíadas, Canto 1).
7. Falei disso em 5out2019, num artigo que escrevi para a UCoimbra.
8. Falemos de “O IMPÉRIO SOMBRA PORTUGUÊS NO SIÃO: UMA IDEIA DE FRATERNIDADE UNIVERSAL.
9. A exposição contribui para o estudo antropológico da diáspora portuguesa. Concretamente, para o conhecimento da miscigenação e genética protagonizada pelos portugueses no Sudoeste Asiático (Myanmar/Tailândia). Os designados Protukét.
10. Refiro-me à exposição organizada por António Luís de Vasconcelos Cunha Faria no Museu Oriente, intitulada “Império Invisível e a fotografia no Sião – Francis Chit e Joaquim António” (27out a 24nov 2019). Que junta aos seus, os textos de Miguel Castelo-Branco: «A época de ouro dos Protukét do Sião», in “Das partes do Sião. Exposição Comemorativa do 500º Aniversário das Relações Luso-Tailandesas”. Lisboa: Instituto Diplomático: Biblioteca Nacional de Portugal, 2011.
11. Passo a citar:
11.1. The Portuguese “SHADOW EMPIRE” (another scholar called it “INFORMAL EMPIRE”) located in Southeast Asian (16th and 17th centuries). Such an invisible empire was everywhere and nowhere at all, it was not regarded as such by its members or by the peoples they welcomed…
11.2. And yet, it worked like a powerful clientele network bound by affects and the defense of a certain IDEA OF UNIVERSAL FRATERNITY very similar to the resistance culture, stubborn but inaudible, of the Jewish diaspora.
11.3. It had been neither purchased, nor conquered by arms, nor financed by Goa or Lisbon, but gradually and peacefully populated by soldiers retired from active duty, as well as by adventurers and fugitives. They married, settled down and stayed.
11.4. However, unlike Jews and Armenians, (….) the mestizo Protukét lusotopia identified with a State present in the Asian continent (PORTUGAL), being tied to it by vague but powerful bonds of cultural and linguistic, but mainly religious, loyalty.”
12. Também poderia falar de “PORTUGUESE VOCABLES IN ASIATIC LANGUAGES”, 1932, Sebastião Rodolfo Dalgado (Translated into English with notes, additions and comments by Anthony Xavier Spares, M.A., LL.B., F.R.S.L Professor of English, Baroda College).
Mas por agora chega.
13. Essa narrativa anti-colonialista e anti-Lusa, desses mediáticos autores, é uma mistificação. Feita pela militância ideológica esquerdista dos serventuários do Abrilismo. Mascarada de conhecimento e ciência. Um embuste.
Julgava que Taprobana correspondia ao Ceilão/Sri Lanka
“Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.”
Isso implicava que o ambiente intelectual seria minimamente sério. Não é.
Muitos das classes (de argumentos) e sub-culturas formadas são mecanismos criados para alguém obter poder. Poder Politico, Social-Económico, Grupal
O que se está passar por cá é simplesmente a Esquerda e Extrema Esquerda Portuguesa – com excepção dos conservadores do PCP – seguir por facilitismo e mimetismo o percurso neo-racista, neo-sexista mascarado de anti do Partido Democrata Americano.
Um ambicioso quer poder. Arranja um problema ou inventa-o, depois aumenta-o , amplia-o. Para isso funcionar precisa de ter pessoas da sua subcultura nos media/academia que ampliem a sua mensagem.
Como é óbvio é fácil de certo modo criar classes – há sempre alguém ou grupo que foi injustiçado no passado.
Se o passado é o mundo do futuro é fácil termos uma guerra civil mundial que é isso que a Esquerda se arrisca a criar, pois toda gente tem queixas de toda a gente.
Alguém pode começar a falar de que quem nasce nos primeiros meses do ano é privilegiado e quem nasce nos últimos meses do ano é discriminado. Afinal as aulas e os desportos são classes anuais, logo as crianças nascidas em Novembro e Dezembro estão competir directamente com crianças nascidas em Janeiro e Fevereiro, ou seja mais desenvolvidas 10 ou 11 meses…
Quem vai pegar nesta?
Candidato-me a Presidente da Associação dos Nascidos perto do Fim do Ano!
Com tenho um amigo jornalista, vai dar-me um coluna semanal…
Talvez convença Cristina Ferreira a dar-me uma entrevista…
Amanhã todos vão falar das crianças que nascem nos últimos meses do ano e a “discriminação sistémica” do Ministérios da Educação e outros pela Discriminação Anualizada que praticam…
A quem quiser saber (ou lembrar-se) o que é uma ditadura, sugiro ir ao “Rotten Tomatoes” e seleccionar as críticas (enfim) dos “top critics” à série da HBO “ALLEN v. FARROW”. Lê-las, talvez seja pedir demais (ver a série, nem falo). A lógica é simples: quem tocar outra música, sabe que toca a sua última nota.
O curioso nestes “tempos interessantes” é que o Totalitarismo vem de países anglo-saxónicos supostamente imunes a tal.
O único local de África que conheci, em estada de uns dez dias, foi a Guiné Bissau, onde na altura trabalhava a nossa filha mais nova; vim agradado com a simpatia daquela gente, tão mal tratada por quem a governa. De Moçambique retenho os relatos dum bom amigo da família, já falecido, oficial da marinha, com comissão feita precisamente em Metangula. Ou o que me contaram da permanência dum tio-avô, o padre Raúl Sarreira,SJ, que por lá andou mais de 30 anos, dirigindo a missão de Noronha, distrito de Teté. Ainda o conheci, era uma inteligência superior, parece que fez obra e a deixou, não sei se a aproveitaram. Abraço. Fernando Antolin
O seu tio-avô foi director da missão de Boroma, em Tete. Foi o que me pareceu ao ler o seu comentário e pude comprovar via google: https://books.google.pt/books?id=36FRIx TEEnQC&pg=PA2759&lpg=PA2759&dq=raul+sarreira+jesu%C3%ADta&source=bl&ots=2OUayT0Uc8&sig=ACfU3U2yBjThn-m75zbI3s1-8VwRcjuRvw&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiOzOuvjYHvAhVKBGMBHd5EBU8Q6AE wEnoECA4QAw#v=onepage&q=raul%20sarreira%20jesu%C3%ADta&f=false
Obviamente um engano, Boroma e não Noronha. Obrigado, abraço
Fernando Antolin
No tempo dos meu avós escrevia-se com caneta e tinta permanente. Quando havia um borrão passava-se o Mata-Borrão. Tenho um como reliquia.
Esta corja quer passar um MT na História.
E até usam um mata-brasão