A saúde em primeiro lugar


Paulo Sousa,

Soubemos há dias que o Hospital de Santa Maria (HSM) enviou uma grávida de risco para o Hospital da CUF. A decisão médica que levou a que esta medida fosse tomada resultará da consciência da incapacidade do HSM em prestar os devidos cuidados, assim como da inquestionável opção em colocar o utente, e o bebé neste caso, no centro da acção médica.

Ao contrário do que fariam os mais empedernidos defensores da lógica pervertida de que uma decisão médica se deve centrar na natureza económica do prestador, o corpo clínico do HSM decidiu bem.

Muitos dos problemas que sentimos na saúde em Portugal seriam ultrapassados, ou significativamente reduzidos, se as ideologias saíssem desta equação e fosse possível combinar a capacidade instalada entre o sistema público e os recursos existentes no privado.

Ecografias, electrocardiogramas, raio-X, análises ao sangue e muitos outros diagnósticos funcionam nesta combinação de recursos. Para cada um destes serviços existe um preçário definido pelo SNS e o utilizador dirige-se ao prestador que considera mais adequado às suas necessidades. O critério de escolha pode ser a proximidade geográfica, o horário de funcionamento, a qualidade de atendimento, a rapidez na entrega dos resultados ou qualquer outro à sua escolha. A concorrência entre os operadores privados estimula-os a melhorar, com vantagens óbvias para quem recorre aos seus serviços. Tal e qual como acontece com os supermercados, bombas de combustível, restaurantes ou outros negócios, com a variedade de escolha é sempre o cliente que sai beneficiado.

Com diferentes nuances, é dentro desta lógica que funcionam sistemas públicos da saúde que são muito mais eficientes que o nosso. Pelo que já li, podemos aqui referir o exemplo alemão e o inglês.

No nosso rectângulo, o debate entre estas duas formas de gerir os cuidados médicos é habitual que a prioridade do serviço prestado ao cidadão seja atropelada por interesses corporativos, sindicais e políticos.

Do ponto de vista dos sindicatos é preferível concentrar o máximo número de trabalhadores sob a mesma entidade laboral. Se estes estiverem dispersos por vários empregadores, o sindicato perde poder.

Reformas que levem a mudanças de rotinas e que interrompam interesses instalados geram sempre fricções contra quem as decida fazer e o actual poder político é avesso a essas coisas.

O número, sempre crescente, de portugueses sem médico de família, as listas de espera por cirurgias e por outros actos médicos, envergonham o país. A estatística confirma que a mortalidade está a aumentar. Em resultado da falta de vontade governativa em fazer as reformas necessárias, hoje vive-se menos, vive-se pior e morre-se por causas que um sistema público de saúde centrado no cidadão, e não nos prestadores, conseguiria evitar.

O governo prefere apostar nos arranjos cosméticos, como é o caso das maternidades de serviço rotativo que colocam enorme pressão nas grávidas. Os casos de partos em ambulâncias que circulam de maternidade em maternidade, à procura de uma porta aberta, são tão frequentes que até criam a ilusão de que a natalidade está a aumentar, o que infelizmente não é verdade. Em Abril passado, soubemos da perda de um bebé, cuja mãe “esteve mais de duas horas dentro da ambulância sem saber para que unidade hospitalar iria”.

A situação que motiva este postal, um hospital que num caso complicado recorre a outro hospital, não deveria gerar qualquer espanto, mas infelizmente a notícia justifica-se.

Muitos palermas conservadores, enquistados pelo ódio ao lucro e pela inveja da não dependência do erário público, do alto do seu acesso ao ADSE, ou similar, tentam defender a situação insatisfatória em que um SNS disfuncional acaba por ser destinados apenas aos mais pobres.

Estão errados acima de tudo pela visão afunilada que têm e que os impede de tomar consciência de que quando alguém precisa de assistência médica não quer saber se quem o assiste é funcionário público ou não. Insistir numa receita que sabemos não trazer os resultados pretendidos é um sinal de burrice, de alienação da realidade e de imoralidade para com os compatriotas.

17 comentários em “A saúde em primeiro lugar”

  1. A situação que motiva o postal acima cria espanto e é digna de notícia porque contraria o que quase sempre acontece: em caso de risco elevado, o privado chuta para o público.

  2. tivemos a pandemia ao som da Internacional para mal de muitos.
    mais de 3 milhões com seguro de saúde ou a ‘coisa tá preta’.
    cansado de bater no ceguinho.
    ”Saúde e Fraternidade”

      1. foge quem pode:
        («Uno necesita un país, aunque sea solamente para marcharse de él»), dijo una vez Cesare Pavese.

  3. o corpo clínico do HSM, decidiu bem

    Não sei se sim se não. Depende das tecnologias existentes no hospital privado para onde a parturiente foi enviada. Atualmente não sei qual é a situação, mas no passado havia hospitais privados cuja tecnologia era notoriamente inferior à dos públicos, e que recambiavam para os hospitais públicos clientes sempre que algo corria mal.

  4. A situação que motiva este postal, um hospital que num caso complicado recorre a um outro hospital, não deveria gerar qualquer espanto

    Hmmm. Será que há casos em que um hospital privado recorre a um outro hospital privado, de um grupo diferente? Eu duvido que haja.

  5. Então mas qual é o problema de ser uma grávida de risco? Não dizem que o hospital privado é tão bom ou melhor que o público?
    Então e quando o hospital privado envia doentes para o hospital público, por manifesta incapacidade? Isso também é notícia?

      1. Não sei quem é que está a debitar mais, estar a comparar os seguros de saúde da Alemanha com serviço nacional de saúde português é a mesma coisa que dizer que a estrada da Beira é igual à beira da estrada.

    1. Pergunta tola: há hospitais privados uns melhores do que outros, assim como há hospitais públicos bons e medíocres, uns bem apetrechados, outros menos bem, todos com grande dificuldade em recrutar técnicos competentes. A notícia de que um hospital público recorreu a um hospital privado para resolver pontualmente o problema de uma sua doente, não devia criar espanto, nem cair no lamaçal das lutas partidárias/ideológicas; e o contrário também deveria encarado com naturalidade: um hospital privado recorrer a um hospital público, às vezes bem diferenciado (e bem referenciado), com melhores condições para resolver um problema de um seu utente, é coisa que não devia espantar, mas espanta, por cauda dos Carlos Sousas e das palas de outros Sousas.
      O Estado devia era concentrar-se no seu papel de controlador, mesmo da actividade dos privados, em especial dos hospitais públicos que, parece-me, andam com a rédea solta.

      1. Não sei o que é que é pior, se é a pala dos Sousas se é o olho aberto dos tiro ao alvo que se escondem atrás do anonimato com medo de assumir o que dizem.

        1. Medo, amigo? Medo de quê? Assumo tufo o que digo.
          Qual é a diferença entre o meu nickename e Carlos Sousa? Eu adoptei este nome para saberem “quem” escreve, fugindo do “anonimato puro”; outros assinam com nome de gente, que pode não ser do próprio, mas não escodem o papel que andam a fazer, militante e profissionalmente, ao serviço de outrém, nada interessados na verdade e no bem comum.

        2. Conheço o Tiro ao Alvo desta caixa de comentários desde sempre e isto é como ele diz, põe-se um nome para que os outros sigam as linhas de raciocínio porque aqui somos todos anónimos.
          O Carlos Sousa é mais recente nestas lides ou então assinava com outro nome, quem o sabe?
          Mas é como o Tiro ao Alvo diz, o Carlos Sousa todos sabemos ao que vem e é pena, quando o caso não mete a política atual até escreve coisas acertadas e com humor.
          Ninguém é perfeito.

  6. Nunca me esqueci, aquando de um familiar ser operado numa clínica privada e, o cirurgião lhe dizer que o operava num local onde houve um Hospital Público, porque poderi surgir qualquer problema e assim o transferia para o Hospital Público.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *