A río revuelto, ganancia de pescadores. Pero alguno se ahoga.


Diogo Novo,

 

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O impasse político em Espanha continua sem fim à vista. Pedro Sánchez, secretário-geral dos socialistas espanhóis, deixou claro que não apoiará Rajoy e iniciou diligências para formar um governo à esquerda. Ora à esquerda está o Podemos, que exige um referendo sobre a independência da Catalunha como condição para viabilizar um governo liderado pelo PSOE.  Como escrevi aqui, o referendo é inconstitucional e os barões socialistas, capitaneados pela Presidente da Junta da Andaluzia, Susana Díaz, embora concordem com o veto a Rajoy, não admitem soluções que ponham em causa a unidade de Espanha.

Portanto, Pedro Sánchez tem um problema para resolver e parece estar sozinho nessa batalha. Isto porque o Podemos, feita a exigência inconstitucional de referendo, anda entretido com a constituição de quatro grupos parlamentares, o que vai contra o regulamento do Congresso espanhol. Como é evidente, quatro grupos parlamentares traduzem-se em mais intervenções no plenário e sobretudo no acesso a mais subvenções estatais. Contra as “castas” e contra o sistema, mas dinheiro é dinheiro. E como há entraves legais, o Podemos decidiu aproveitar o poder que Sánchez lhe deu. Segundo Íñigo Errejón, secretário político do Podemos, a constituição destes quatro grupos parlamentares é um “elemento fundamental” para as negociações com os socialistas. Se a vida de Sánchez já era difícil, pior ficou. Um acordo com o Podemos implica um referendo inconstitucional e quatro grupos parlamentares que violam o regulamento do Congresso. Por outras palavras, o acordo só se faz à margem da lei.

Eis então que Pedro Sánchez vem a Lisboa falar com António Costa. Não foi propriamente um sinal de deferência por Costa e, por maioria de razão, Sánchez não quis fazer do Primeiro-Ministro português o grande educador da esquerda ibérica. A vinda a Lisboa foi um recado para Madrid, especificamente para o interior do PSOE: um governo à esquerda é possível e funciona. Susana Díaz não perdeu tempo. Confirma o seu apoio a Sánchez, vê a visita a Lisboa como “legítima” – palavra curiosa para o contexto em apreço – mas reitera que não se pode formar governo “a qualquer preço”.

Diz o ditado espanhol que a instabilidade do rio é uma oportunidade para os pescadores. Terá sido esta a ambição de Pedro Sánchez. O problema é os pescadores também se afogam. Como escreve José Ignacio Torreblanca, alguns partidos “no sólo diseñan estrategias electorales y estructuras organizativas que les llevan a la derrota sino que, peor aún, perseveran en ellas una vez constatado su fracaso.”

0 comentários em “A río revuelto, ganancia de pescadores. Pero alguno se ahoga.”

  1. Para quem já teve Salazar e Franco, que formaram governos “legítimos”…
    Afinal não estamos tão de “costas” voltadas… ibericamente falando, claro.

  2. Um “vago” perfume à primeira parte da década de trita, sec. transacto…
    O descontraído à vontade com que estas questões ( que se arrastam desde o secXVIII) são encaradas dá-me calafrios.
    Trata-se de Espanha. senhores !
    Já se esqueceram do que se passou, ” à instantes”, na ex-Jugoslávia?…

    1. O problema é, de facto, sério e preocupante, mas creio que estamos ainda bastante longe de um cenário balcânico. Aguardemos as cenas dos próximos episódios.

    1. Se tudo continuar como está, vão mesmo a novas eleições. Mas, consciente disso, o eleitorado responde em sondagens que manterá o seu voto. Esperam-se tempos interessantes.

  3. Parece que a senhora tem carácter. Devia inspirar alguns dos nossos políticos, neste caso do ps que recentemente não concordaram com a coligação, mas sempre a bem do partido engoliram (porque o interesse do País vem apenas depois).

  4. Boa análise, Diogo. Pela minha parte, aposto desde já em duas mulheres como elementos-chave da política espanhola em 2016. Susana Díaz à esquerda, Soraya Sáenz de Santamaria à direita.

  5. Creio que está difícil compreender que os catalães também querem Europa, pois são europeus. A Catalunha pretende ir a Bruxelas sem ter de passar por Madrid; e os acordos surgirão.
    http://ccaa.elpais.com/ccaa/2016/01/09/catalunya/1452362147_115792.html?rel=cx_articulo#cxrecs_s

    http://ccaa.elpais.com/ccaa/2016/01/09/catalunya/1452342436_489507.html

    No restante, verificaremos que os partidos encontrarão a fórmula para os unir.

    Espanha necessita compreender que há necessidade de alguém para liderar a unidade. Não o podem fazer todos por si, mas cada um com todos. O acordo na Catalunha ajudará os restantes a entenderem-se.

    O grande problema que encontro nos mais diversos analistas políticos, e também políticos, reside no facto de admitirem que o mundo mudou mas pretenderem continuar na mesma.
    É este conflito entre a “carne” e o espírito que necessitam superar. Pois o espírito reconhece, mas a carne é fraca.

    Acabou-se a certeza neoliberal de que a riqueza gerada beneficiaria todos.

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