O impasse político em Espanha continua sem fim à vista. Pedro Sánchez, secretário-geral dos socialistas espanhóis, deixou claro que não apoiará Rajoy e iniciou diligências para formar um governo à esquerda. Ora à esquerda está o Podemos, que exige um referendo sobre a independência da Catalunha como condição para viabilizar um governo liderado pelo PSOE. Como escrevi aqui, o referendo é inconstitucional e os barões socialistas, capitaneados pela Presidente da Junta da Andaluzia, Susana Díaz, embora concordem com o veto a Rajoy, não admitem soluções que ponham em causa a unidade de Espanha.
Portanto, Pedro Sánchez tem um problema para resolver e parece estar sozinho nessa batalha. Isto porque o Podemos, feita a exigência inconstitucional de referendo, anda entretido com a constituição de quatro grupos parlamentares, o que vai contra o regulamento do Congresso espanhol. Como é evidente, quatro grupos parlamentares traduzem-se em mais intervenções no plenário e sobretudo no acesso a mais subvenções estatais. Contra as “castas” e contra o sistema, mas dinheiro é dinheiro. E como há entraves legais, o Podemos decidiu aproveitar o poder que Sánchez lhe deu. Segundo Íñigo Errejón, secretário político do Podemos, a constituição destes quatro grupos parlamentares é um “elemento fundamental” para as negociações com os socialistas. Se a vida de Sánchez já era difícil, pior ficou. Um acordo com o Podemos implica um referendo inconstitucional e quatro grupos parlamentares que violam o regulamento do Congresso. Por outras palavras, o acordo só se faz à margem da lei.
Eis então que Pedro Sánchez vem a Lisboa falar com António Costa. Não foi propriamente um sinal de deferência por Costa e, por maioria de razão, Sánchez não quis fazer do Primeiro-Ministro português o grande educador da esquerda ibérica. A vinda a Lisboa foi um recado para Madrid, especificamente para o interior do PSOE: um governo à esquerda é possível e funciona. Susana Díaz não perdeu tempo. Confirma o seu apoio a Sánchez, vê a visita a Lisboa como “legítima” – palavra curiosa para o contexto em apreço – mas reitera que não se pode formar governo “a qualquer preço”.
Diz o ditado espanhol que a instabilidade do rio é uma oportunidade para os pescadores. Terá sido esta a ambição de Pedro Sánchez. O problema é os pescadores também se afogam. Como escreve José Ignacio Torreblanca, alguns partidos “no sólo diseñan estrategias electorales y estructuras organizativas que les llevan a la derrota sino que, peor aún, perseveran en ellas una vez constatado su fracaso.”


Se partissem o Estado espanhol em bocadinhos um dos problemas – o dos nacionalismos – ficaria resolvido. Poderiam então debruçar-se sobre o problema político.
“Partir” raramente resolve problemas. Normalmente estraga (ainda mais).
Para quem já teve Salazar e Franco, que formaram governos “legítimos”…
Afinal não estamos tão de “costas” voltadas… ibericamente falando, claro.
São várias as semelhanças entre os dois países. Mas neste assunto seguimos caminhos diferentes.
Um “vago” perfume à primeira parte da década de trita, sec. transacto…
O descontraído à vontade com que estas questões ( que se arrastam desde o secXVIII) são encaradas dá-me calafrios.
Trata-se de Espanha. senhores !
Já se esqueceram do que se passou, ” à instantes”, na ex-Jugoslávia?…
O problema é, de facto, sério e preocupante, mas creio que estamos ainda bastante longe de um cenário balcânico. Aguardemos as cenas dos próximos episódios.
“há instantes”.
Mea culpa.
Que grande paella se está ali a cozinhar. Parece não haver outra saída: novas eleições…
Se tudo continuar como está, vão mesmo a novas eleições. Mas, consciente disso, o eleitorado responde em sondagens que manterá o seu voto. Esperam-se tempos interessantes.
Parece que a senhora tem carácter. Devia inspirar alguns dos nossos políticos, neste caso do ps que recentemente não concordaram com a coligação, mas sempre a bem do partido engoliram (porque o interesse do País vem apenas depois).
Carácter não lhe falta. Nem coragem. Resta saber se é o suficiente para derrotar Pedro Sánchez.
Boa análise, Diogo. Pela minha parte, aposto desde já em duas mulheres como elementos-chave da política espanhola em 2016. Susana Díaz à esquerda, Soraya Sáenz de Santamaria à direita.
Boa aposta, sobretudo pela qualidade das pessoas em causa. Uma e outra são dos melhores talentos políticos que os respectivos partidos têm para oferecer.
Creio que está difícil compreender que os catalães também querem Europa, pois são europeus. A Catalunha pretende ir a Bruxelas sem ter de passar por Madrid; e os acordos surgirão. atalunya/1452362147_115792.html?rel=cx_a rticulo#cxrecs_s
http://ccaa.elpais.com/ccaa/2016/01/09/c
http://ccaa.elpais.com/ccaa/2016/01/09/c atalunya/1452342436_489507.html
No restante, verificaremos que os partidos encontrarão a fórmula para os unir.
Espanha necessita compreender que há necessidade de alguém para liderar a unidade. Não o podem fazer todos por si, mas cada um com todos. O acordo na Catalunha ajudará os restantes a entenderem-se.
O grande problema que encontro nos mais diversos analistas políticos, e também políticos, reside no facto de admitirem que o mundo mudou mas pretenderem continuar na mesma.
É este conflito entre a “carne” e o espírito que necessitam superar. Pois o espírito reconhece, mas a carne é fraca.
Acabou-se a certeza neoliberal de que a riqueza gerada beneficiaria todos.