A recusa do monopólio da verdade


Pedro Correia,

Leio a carta do Rei de Espanha suscitada pela tensa situação no país vizinho – com destaque para as movimentações pró-independentistas na Catalunha, onde apesar de tudo o eventual corte dos laços políticos com Madrid recebe apenas o apoio de metade da população – e confirmo que se trata de um modelo de concisão e eficácia comunicacional, bem reflectida nas manchetes dos mais influentes jornais, incluindo El País, na sua edição de ontem.

“Com base na união e na concórdia, temos de recuperar e reforçar os valores que se destacaram nas melhores etapas da nossa complexa história e que brilharam na nossa Transição democrática: o trabalho, o esforço, o mérito, a generosidade, o diálogo, o imperativo ético, o sacrifício dos interesses particulares ao interesse colectivo, a recusa do monopólio da verdade. São esses os valores de uma sociedade sã e viva, a sociedade que queremos ser e na qual queremos estar.”

Eis um excerto dessa carta, em que o monarca espanhol deixa claro que “só ultrapassaremos as dificuldades actuais permanecendo unidos e caminhando juntos”. Refere-se, naturalmente, à situação espanhola. Mas neste mundo sem fronteiras em que vivemos nenhum país é uma ilha: todos fazemos parte de um imenso continente. O que vale para uns, vale para outros. Seja no diagnóstico dos problemas seja na recomendação da melhor terapia para os superar.

 

4 comentários em “A recusa do monopólio da verdade”

  1. È precisamente porque estão unidos que estão num grande sarilho, se não estivessem unidos o Estado nunca teria o poder de se endividar.

    É precisamente por o colectivo se sobrepor ao interesse particular num grau extraordinário de radicalismo que o estado espanhol entrou na bancarrota. O estado teve o poder do Colectivo para se endividar.

    É precisamente porque estão unidos e porque existe o sacrificos dos interesses particulares ao interesse colectivo – que em vez de platitudes quer dizer interesse político, dos políticos e da clientela a quem eles compram votos com o dinheiro dos interesses particulares- que levarão muito mais tempo a recuperar.

    1. A unidade no essencial gerada na exemplar Transição de 1976/78, contra o sectarismo e o fraccionismo, possibilitou o mais longo período de paz e prosperidade na História de Espanha. Foi extremamente difícil construí-la, é fácil de mais dar cabo dela. Daí a intervenção do Rei Juan Carlos nestes moldes originais. Com palavras que merecem reflexão. Lá e cá.

      1. Se as pessoas pensam de maneira diferente devem poder viver de maneira diferente. O sectarismo pode ser um desejo de independência. De seguir o seu caminho.
        O que é que isso tem de mal?

        O que trouxe a paz foi uma maior tolerância à diferença, houve menos gente a querer obrigar outros.

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