Passaram mais umas eleições, com a inevitável abstenção estratosférica e com os não menos habituais comentários, oficiais ou oficiosos, a tratar os abstencionistas como leprosos. Ouve-se e lê-se de tudo. Que a culpa é do sol e da praia (ou da chuva e do sofá, se estamos no Outono). Ou da bola, quando rola. Que falta “educação para a cidadania”, o que quer que isso signifique. Que quem não vota não tem direito de se queixar. Que isto ia lá era com o voto obrigatório e com multas pesadas para os malandros dos incumpridores – passe a lei de Godwin à portuguesa, o nosso salazarito colectivo emerge sempre nestas situações.
(já agora: não, o voto não devia ser obrigatório – haver países em que o é não justifica coisa alguma, o voto é um direito que se conquistou e não um dever que foi imposto, e consigo pensar em vários motivos perfeitamente válidos para não se ir às urnas que não poderiam ser justificados perante uma “Autoridade Eleitoral”. Já nos basta a Tributária e as suas derivas kafkianas.)
Tanto se fala e escreve, e poucos arriscam explicações mais simples. Se calhar a meteorologia, a bola, a cidadania ou falta dela, ou apenas a preguiça, não são tanto causas como pretextos. Dito de outra forma: é possível que os portugueses não votem porque os candidatos, escolhidos de forma opaca e com méritos na sua maioria duvidosos, por partidos mais virados para dentro do que para fora, não entusiasmam ninguém. Rigorosamente ninguém. Nem antes da campanha, quando ainda estão mais ou menos calados e se pode pensar que têm algo interessante para dizer, e muito menos durante a campanha, quando abrem por fim a boca e se percebe que dali não sai nada de jeito – e o pouco que sai, regra geral, sai num português sofrível. Olhe-se para o PS: levou para a Europa Pedro Silva Pereira, esse Sócrates da loja dos 300, numa lista liderada por Pedro Marques. Pedro Marques: um homem com o carisma, a personalidade, e a eloquência de uma tábua de contraplacado (a sério: uma estante “Billy” da Ikea dá mais vida a uma sala*). E a lista dele foi a mais votada, pelo que ninguém das outras listas se ficará a rir com propriedade.
É-me mesmo muito difícil criticar alguém que diga “eu até ia às urnas, mas para votar no Pedro Marques ou no Nuno Melo mais vale ir à praia.” Ou alguém que, após um debate televisivo de umas eleições europeias onde ninguém fala da Europa e do qual não se retira nada para além de uma bela dor de ouvido, decida que ficar em casa a ver um jogo da segunda liga checa num canal do cabo é capaz de ser mais interessante. Eu, gostando pouco de praia e cada vez menos de futebol, percebo perfeitamente o impulso.
Sim, há a opção de ir e votar branco (para a qual devia mesmo haver um quadradinho no boletim) ou de anular o voto rabiscando qualquer coisa no papel. Mas o autismo dos comentários aos abstencionistas (esses malandros) não deixa antever interpretações especialmente sagazes ao fenómeno, caso tivesse relevância. Com toda a probabilidade, os partidos vencedores diriam: “rejeitaram os outros”. E os vencidos responderiam: “a maioria dos eleitores não vos escolheu”. O Presidente, tal como agora manifesta (manifesta?) preocupação pela abstenção, congratular-se-ia pela afluência às urnas. E tudo ficaria na mesma.
Mal por mal, venha a praia ou o sofá.
(Já agora, e em jeito de declaração de interesses: fui votar nas Europeias do último domingo, e se a memória não me falha desde os dezoito anos apenas faltei a um acto eleitoral; possivelmente as Europeias de 2004. Terá sido a bola, lá está.)
*Garanto que os suecos não me pagaram para dizer isto.

O sistema ainda está no século passado. Presentemente não faz sentido eleições ao domingo. Não faz sentido a obrigatoriedade de ter de votar num local especifico tendo disponível meios e tecnologia que permitiriam fazê-lo em qualquer parte do país ou até mesmo no estrangeiro.
PS:
Até à data votei sempre.
Pensei nisso durante anos, quando estudava (e já trabalhava) em Lisboa, mas continuava com morada oficial na aldeia lá no Alentejo (onde, convenhamos, o meu contava incomparavelmente mais do que conta na capital). Foi das coisas que mais me irritou na dita “modernização administrativa” do governo Sócrates: tanta cagança com os sistemas electrónicos e afinal ficou tudo na mesma.
Com 15 movimentos /partidos não me parece que a abstenção tenha surgido por falta de representatividade do eleitorado. Com 80% de abstenção, brancos e nulos não há legitimidade democrática
Depende. Eu votei num partido/movimento pequeno sem especial convicção. Entre aqueles 15 quadrados não havia um que me entusiasmasse minimamente. E duvido muito de que estivesse sozinho.
Fiz exactamente como o João.
Eu não votei porque estou longe mas se estivesse aí teria sido o mesmo, votar num pequeno (e novo) sem qualquer entusiasmo.
João, para si que se interessa por estes temas:
https://youtu.be/Fv_oCn0BR4I
https://www.nytimes.com/2019/05/26/us/p olitics/ufo-sightings-navy-pilots.html
Nisto dos extraterrestres partilho a sabedoria de uma tira célebre de “Calvin & Hobbes”: a prova definitiva de que existe vida inteligente fora da Terra é o facto de nunca ter tentado contactar-nos.
Isto de votar em compatriotas…é que nós conhecemo-nos…
Recordando o Eça, isto se calhar precisa é da invasão espanhola…
Ah, a Catástrofe.
É mais o sarcasmo..!
Perfeitamente. Votei, também, no domingo passado. Minutos antes do limite para tanto, estafado depois de um intenso dia de trabalho e por me sentir vinculado a já não sei que sentido de dever (afinal, como bem escreve, um direito; como tal estando o seu exercício na minha insindicável disponibilidade e sem ter eu que a justificar, antes cabendo a outros saber merecê-la) que teimosamente subsiste apesar do flagrante, impune e impenitente desmerecimento dos que nos pastoreiam ou pretendem vir a fazê-lo. Talvez esse “sentido de dever” venha dos tempos em que, pela mão de meu pai, me vi manifestante à porta do “República”. E de ver por estes dias um PS que pactua interesseira e avidamente com essa gente contra quem nos manifestávamos.
Do resultado de tudo isto, não desculpo os abstencionistas. Culpo os políticos – culpo-nos a todos – que arranjaram forma de validar qualquer resultado eleitoral. Nem que vote apenas um eleitor. Ou nenhum.
Costa
“Do resultado de tudo isto, não desculpo os abstencionistas. Culpo os políticos – culpo-nos a todos – que arranjaram forma de validar qualquer resultado eleitoral. Nem que vote apenas um eleitor. Ou nenhum.”
Assino por baixo.
Vem a propósito do que escreveste: ensamento-da-semana-10689864
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/p
Muito mesmo.