A palavra pervertida


Pedro Correia,

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O progresso. Se há palavra malbaratada, desvirtuada, pervertida, vilipendiada é a palavra progresso – sempre pronta a ser usada e abusada por todos os vendedores de ilusões. Alguns dos maiores torcionários de que há memória usaram-na em discursos e até em livros. Em nome do progresso, matou-se e torturou-se. Sob a bandeira do progresso, o homem é constantemente empurrado com excessiva frequência de regresso às cavernas. Invoca-se o progresso como se fosse um dogma, pratica-se o retrocesso como se fosse inevitável.

Nada há de tão perverso na política como esta novilíngua destinada a iludir as mais legítimas aspirações dos povos. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional e símbolo de um futuro radioso. «O verbo “guilhotinar”, notai, não se pode conjugar no passado. Não se diz: “Fui guilhotinado”.»

Palavras proferidas na véspera da sua morte, a 5 de Abril de 1794: foi vítima da guilhotina, na sequência de uma conspiração liderada por Saint-Just, que costumava proclamar: «Ninguém pode governar inocentemente.» Provavelmente tinha razão: o próprio Saint-Just – apelidado de Anjo da Morte – viria a ser executado a 28 de Julho (10 do Thermidor do ano II, segundo o calendário revolucionário), com apenas 26 anos, acusado de “inimigo do povo”. Com ele morria Robespierre – outro protagonista dos alvores da Revolução Francesa, outra vítima crepuscular da guilhotina.

De nada valera a Saint-Just o brilhantismo das suas intervenções enquanto mais jovem deputado eleito para a Convenção Nacional, em 1792, com a ardente apologia da revolução permanente. «Àqueles que o povo (não o voto, porque o voto é um acto de Estado, de subserviência) derruba, não devem ser conferidos quaisquer direitos», proclamou, entre apelos à execução sumária de Luís XVI, o monarca deposto três anos antes. Sem imaginar que viria a ser vítima da sua própria oratória, tão implacável, tão intransigente, tão incendiária.

Foi a primeira revolução de grande envergadura a devorar vários dos seus filhos – e esteve muito longe de ser a última. Nenhum discurso inflamado por cartilhas partidárias é capaz de atingir os abismos que moldam e condicionam a natureza humana.

 

Imagem.

Execução de Saint-Just e Robespierre, em 28 de Julho de 1794 (10 do Thermidor): a Revolução Francesa devorando os seus filhos

16 comentários em “A palavra pervertida”

  1. eu chovo, tu choves, ele chove …

    o homem nunca saiu das cavernas pulmonares
    « já disse um home
    que foi toureiro afamado
    mais maradas dá a fome … »

  2. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional

    E é mesmo. Basta comparar a decapitação por guilhotina com o método anterior – a deapitação à machadada.

      1. Trata-se de uma conquista civilizacional para o carrasco, que na guilhotina somente tem que largar a corda que impede a lâmina de cair – nem sequer precisa de olhar para a vítima. Para a vítima não há, evidentemente, conquista civilizacional nenhuma.

        Foi no mesmo espírito que os nazis decidiram matar as suas vítimas usando gás venenoso. Anteriormente abatiam-nos a tiro, mas esse método era penoso e traumatizante para os carrascos.

  3. Todos aqueles que são contra o progresso deviam fazer um exame à próstata, mulheres e tudo para não haver discriminações.

    1. Os homens deveriam, ademais, fazer uma contagem ao número de espermatozóides. Tem havido um retrocesso constante nesse número.

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