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Postal destinado aos que querem banir palavras e, especialmente, aos que estão, e irão, ser proibidos de as utilizar.
Na sequência do postal do Pedro Correia de ontem, e do meu que o seguiu, e para não perder o balanço passo a transcrever mais algumas passagens do já referido “1984” de George Orwell.
Excerto de uma conversa de almoço entre Winston e o seu camarada Syme, que trabalha na Décima Primeira Edição do dicionário da Novilíngua.
“– Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia.
(…)
– Coisa magnífica, a destruição de palavras.
(…)
– Tu não aprecias verdadeiramente a novilíngua, Winston – disse quase com tristeza. – Mesmo quando nelas escreves continuas a pensar em velhilíngua. (…) Não compreendes a beleza da destruição das palavras. Sabias que a novilíngua é a única língua do mundo cujo vocabulário diminui ano após ano?
(…)
– Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer que o crimepensar[i] seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir.
(…)
– Em 2050 (provavelmente até antes) todo o conhecimento da velhilíngua terá desaparecido. Chauser, Shakespeare, Milton, Byron só existirão em versões da novilíngua, não simplesmente transformados numa coisa diversa, mas no contrário daquilo que eram. Até a literatura do Partido mudará. Mesmo as palavras-de-ordem mudarão. Poderá substituir um slogan “liberdade é escravidão” quando o próprio conceito de liberdade tiver sido abolido? Toda a atmosfera mental será diferente. No fundo, não haverá pensamento, tal como hoje o entendemos. A ortodoxia significa a ausência de pensamento: a ausência de necessidade de pensar. A ortodoxia é inconsciência.”
[i] Pensamentos punidos pela Polícia do Pensamento

Guarde carinhosamente esse livrinho, quem o tenha (esse e outros). Faculte a sua leitura apenas aos seus mais próximos e de maior confiança; e a esses procure empenhadamente garantir essa leitura. Não é, não é de todo, de afastar a possibilidade de que num futuro não muito distante – num tempo sem mãe, sem pai, sem homem ou mulher, sem sexo, sem pretos, brancos ou o que seja (e em qualquer caso com a infinita culpa branca e cristã dogmaticamente consagrada), sem uma infinidade de coisas naturais e com uma infinidade de outras, aberrantes em si mesmas e na sua imposição -, livros como esse sejam coisas clandestinas, sinais de uma bem clandestina resistência. E seja crime a sua simples posse.
No livro, e no excerto transcrito, já consta o tratamento a dar às obras anteriores à revolução.
“não simplesmente transformados numa coisa diversa, mas no contrário daquilo que eram”.
Está na altura de reler o 1984. Para me preparar. Mas a realidade é melhor que a ficção. Nunca pensei que as palavras a abolir fossem mãe e pai. MAs, lá está, a negação da importância e do papel da família não é algo inédito. Já aconteceu no passado.
Esta moda um dia irá ser anulada, mas ainda falta até que isso aconteça. Até lá ainda estão a ganhar terreno.
Nunca percebi este continuo drag queen(ar) das palavras. Esta obsessão mórbida de renegar o passado.
Estou quase a concordar com o Syme é preciso começar a destruir as palavras. Quando se começam a introduzir novas palavras para transvestir aquelas que já existem, chegamos à conclusão que são necessárias cada vez mais para definir as novas definições (passe o pleonasmo).
Uma pessoa LGBT pode ter progenitores mas pode não ser progenitora gestante, terá de ser introduzida a designação de progenitora adoptante. Assim como os filhos.
Os “filhos”de um casal LGBT” terão de ter um certificado de origem passada por um laboratório oficial onde conste o género do ser híbrido geneticamente modificado.
E o ser híbrido geneticamente modificado um dia vai descobrir que os seus progenitores gestantes e não gestantes não passam de uma pipeta e um tubo de ensaio.
O sexo é eliminado, deixa de haver filhos, e a reprodução faz-se por clonagem.
Espero que estas alterações nunca passem das palavras. Só de imaginar como seria Portugal se fosse habitado por clones; na Madeira eram só Ronaldos, e no Continente eram só Marcelos.
No 1984 também é relatado como se deve tratar e ajustar o passado de forma a concordar com a narrativa conveniente na actualidade. É mesmo um manual de perversões.
Penso ter sido Ray Bradbury quem disse não querer, com os seus livros, prever o futuro mas sim preveni-lo. Os neo-puritanos que andam por aí, a vigiar o pensamento e a linguagem, não lêem as distopias de Bradbury e Orwell como avisos mas sim como manuais.
Os guias que levam as sociedades rumo ao totalitarismo são infelizmente abundantes. O Gramsci explica como fazer a revolução sem recorrer à força. Basta corroer e descredibilizar as instituições. Quando se perderam as referências tudo se torna mais fácil.