A Mulher


Pedro Correia,

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Elena Ossipova tem 80 anos. Nasceu em Leninegrado quando a segunda maior cidade russa se encontrava cercada por forças da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial. Conhece desde o berço a violência dos conflitos bélicos.

Chocada com a agressão do seu próprio país à Ucrânia, esta pintora e activista decidiu ostentar dois rudimentares cartazes de protesto – um a favor da paz, outro contra a utilização de armas nucleares. Onde se liam frases como estas, escritas em russo: «Filho, não vás para esta guerra! Soldado! Larga as armas e torna-te um verdadeiro herói! Não dispares!»

Discurso interdito na Rússia totalitária de Vladimir Putin onde a palavra guerra está banida do léxico público e uma mãe que chore um filho soldado morto na Ucrânia arrisca pesada pena de prisão por traição à pátria. 

Mesmo assim Elena saiu à rua, em Sampetersburgo. Exibindo as mensagens que redigiu naqueles cartazes considerados subversivos pelos esbirros do ditador. Fisicamente alquebrada mas com notável desassombro cívico – equivalente ao dos sete mil cientistas e académicos russos que se atreveram a escrever uma corajosa carta aberta ao déspota do Kremlin, pedindo-lhe que ponha fim à guerra. É quanto basta para poderem penar nos calabouços.

Durou poucos minutos, o protesto de Elena na passada quarta-feira. Oito polícias antidistúrbios, munidos de capacetes e coletes antibalas, não tardaram a comparecer no local, detiveram-na e transportaram-na para local incerto. Tal como já aconteceu a mais de dez mil pessoas indiciadas desde 24 de Fevereiro em várias cidades russas por delito de opinião. Ninguém escapa à senha persecutória dos lacaios fardados. Que também já detiveram crianças pelo «crime» de pretenderem pôr flores à porta da embaixada ucraniana em Moscovo.

Esta senhora com idade para ser avó daqueles que a prenderam deu ao mundo uma inequívoca lição de dignidade moral. Mostrando ter enorme robustez interior apesar da aparência frágil. Confirmando que é imperioso não confundir Putin com o povo russo, que sofre hoje quase tanto como os vizinhos ucranianos.

Não concebo imagem com maior força simbólica neste Dia Internacional da Mulher.

48 comentários em “A Mulher”

  1. 80 anos! A idade da minhã mãe. Poderia ser a minha mãe. Que mulher! Ao contrário dos 8 que a detiveram. Que regime fraco para ter de prender uma senhora na fragilidade dos seus 80 anos. Um regime condenado.
    Catarina Silva

  2. Sun Tzu – A arte da guerra (5)
    “Um soberano jamais deve colocar em ação um exército motivado pela raiva; um líder jamais deve iniciar uma guerra motivado pela ira”

  3. Corajosa Elena, Grande Senhora, que desacredita e faz cair por terra a teoria de que os velhos russos querem a guerra, pois esta restaurará a antiga glória o país agora fragmentado, trará de volta o império que vivia de fachadas, mas comandava meio mundo.
    A Humanidade precisa de tranquilidade. Precisa de Paz. Os velhinhos precisam ser acarinhados e cuidados e não postos a limpar o chão de museus palácios e óperas ou a servir chá e a disparar pólvora seca no Gorky Park.
    A Rússia precisa que as Elenas-Sem-Medo mostrem ao futuro o que o passado quer que o futuro seja!
    Excelente postal Pedro. Obrigada!

    1. Obrigado eu, Maria Dulce. A minha vénia agradecida sobretudo a esta senhora capaz de inspirar tantos de nós, mulheres e homens, nos quadrantes geográficos mais diversos.

  4. gosto do Ser Humano apesar da sua Condição não abonar muito em seu favor
    aprecio escritores, pintores, compositor russos do passado
    o povo tem azar de séculos de ditadura
    discordo dos dias internacionais especialmente deste que apenas mostra a fragilidade Feminina
    habituei-me a conviver com minha Mãe viúva, desde os meus 5 meses em 1931, tia, avó, primas, companheiras de brincadeira, colegas de curso
    tive uma namorada e casei com ela.
    viúvo criei uma república com uma Amiga porque ambos queríamos comprar casa para viver
    abaixo os políticos e a quem os acompanha!

  5. Comprova Vexa. que os russos também celebram o dia internacional da mulher, e com bastante protecção.
    No restante Vexa. usa a imagem para manter a mesma prosa: parte incerta, povo russo, que, em sua imparcialidade, certamente se refere aos outros que apoiam Putin etc.

    1. Imensa “protecção”. Dia da Mulher com polícia de choque munida de bastões e coletes antibalas. Investindo corajosamente contra idosas indefesas e desarmadas.
      Um exemplo para o mundo.

      1. Olá prezado Pedro!

        Excelente escolha para ilustrar um dia que se vem tornando, cada vez mais, uma caricatura consumista e até sexista do que era suposto comemorar: a força das mulheres, por frágeis que pareçam ou sejam, como o seu texto bem destaca. Por isso, obrigada.

        Não me parece que tenha qualquer relevância se a senhora tem 77, 88 ou 99 anos: é uma idosa, agarrada às suas palavras de papel, ladeada por matulões (quiçá matulonas?) de armadura integral, que a levarão para sabe-se lá onde. Acho que tem medo, o que a torna ainda mais corajosa. Quanto a eles, os sombrios corvos, dir-se-ia que a respeitam, que lhe pedem licença para a levantarem do chão pelos cotovelos magros – o que os torna ainda mais cobardes. Em fundo, o coro da tragédia, inevitavelmente agarrado ao telemóvel, aqui transformado de habitual veículo de alienação em poderoso veículo de união e denúncia.

        E se for verdade (eu sou da escola da dúvida metódica, já deve ter reparado…), se for verdade que se trata de uma sobrevivente da mártir Leningrado, a quem russos e não só tanto devem, poderá Putin ter dado um valente tiro no pé com o caso da velhinha, que não vejo nenhum russo a achar piada ao dislate – tantas foram as vítimas do cerco à cidade que praticamente todos têm, mais ou menos diretamente, ascendentes lá sacrificados e glorificados como heróis…

        1. Esta senhora, como tantos russos, não aceita ver soldados do seu país, que foi mártir em cercos como o de Leninegrado, fazer agora o mesmo em cidades ucranianas.
          A força da razão está com ela. Enquanto a outros só resta a “razão” da força.

  6. Estas coisas não se passam somente na Rússia.
    Na generalidade dos países, quando se está em guerra, há censura e não são permitidas manifestações anti-guerra.
    E os soldados que de alguma forma abandonam a frente de batalha, ou se recusam a disparar, arriscam-se a ser abatidos pelos seus comandantes.
    Também na Ucrânia, atualmente, qualquer homem que prefira esquivar-se à guerra, é proibido disso. Os homens são forçados a ir combater, mesmo que não o queiram fazer.

    1. No país dos “maus”, houve enormes (médias e pequenas) manifestações contra a guerra antes e durante a invasão do Iraque. A imprensa era livre de criticar e denunciar a invasão (incluindo de denunciar a falsidade dos pretextos invocados pelo governo), e podia-se estar a par da catástrofe humanitária que resultou da invasão (o programa Democracy Now! foi exemplar). No bairro onde então morava, havia um grupo de pessoas que fazia uma pequena manifestação contra a guerra todos os sábados de manhã, isto durou meses e eu juntei-me a eles algumas vezes sem qualquer problema.

      1. Sim, eu tenho isso em mente, aliás isso já foi verdade durante a guerra do Vietname.
        Mas os Estados Unidos atuais são uma exceção aos costumes que vigoraram na generalidade dos países durante a maior parte da História. Até à Segunda Guerra Mundial, mesmo nos países democráticos (que até essa altura eram poucos…), durante o tempo de guerra havia censura, as pessoas não se podiam esquivar a ir para a guerra e, nela, não se podiam esquivar a dar tiros contra o inimigo – ou então candidatavam-se a serem abatidas a sangue frio pelo seu superior hierárquico.
        A Rússia (e a Ucrânia) nesta guerra estão a seguir as normas usuais.

    2. Tenho pena que não esteja na Rússia. Chamar guerra à Operação Militar Especial dava direito imediato a prisão.

      1. A fotografia tem força, o visionamento do vídeo é mais calminho.
        E quanto à idade da senhora a confusão é geral, com ‘ desde o berço conhece a violência dos conflitos bélicos’ quase que diz que andou aos tiros contra os nazis, italianos e filandeses no cerco dos 900 dias a Leninegrado
        Uns dizem que nasceu em 1945 você diz 1942. Como ela milhões de russos ‘conhecem desde o berço’ o que aconteceu em Leninegrado e os milhões de mortos pelos nazis na operação barbarossa.

      2. Não digo que não. Também já li noutros lados que ela tinha 77 anos. Digo a idade apenas pelo aspecto da senhora que é parecida com a minha sogra e que me parece ser mais real.

  7. Muito bem dito, caro Pedro!
    No meio de tanta insanidade e crueldade sem nome, o exemplo das mulheres ucranianas ( e dos homens, claro, mas hoje é o dia delas) é algo para lá de comovente e admirável!
    Mulher, não combina com guerra. Mulher é Paz, Amor, Casa, Risos. Mas também é luta e coragem, como elas nos mostram.
    Hoje, ergamos a nossa taça e pensamento para essas mulheres.

    1. O exemplo é fantástico.
      Substancialmente diferente mas também como homenagem no dia da mulher, impressionou-me particularmente aquela mulher que, retida para cuidar da mãe inválida, enviou o filho de 11 anos sozinho de comboio para a Polónia. Deve ter sido uma angústia dilacerante.

      1. enviou o filho de 11 anos sozinho de comboio para a Polónia

        Não vejo nada de mais nisso.

        As afegãs ou as somalis enviam filhos mais novos que isso para a Europa.

        Um miúdo de 11 anos é perfeitamente capaz de fazer uma viagem de comboio sozinho.

        1. Não vejo nada de mais nisso.
          É por isso que a prisão russa lhe ficava bem Não via mesmo mais nada.

  8. tive dificuldade em concentrar-me plenamente no post da anabela mota ribeiro, blog tambem em destaque, porque ao mesmo tempo a ouvir na comercial a conversa da simone e da catarina furtado.
    No post tambem é abordado o poder.
    Mas a simone foi mais categorica : o dinheiro compra tudo.

    E isto sobre a mulher.

  9. Esta senhora de figura apenas frágil de aparência, mostra que a coragem não precisa de muito para se mostrar com toda a sua força. Talvez por já ter vivido na primeira pessoa as consequências que todas as guerras trazem para o comum do cidadão, sabe que o preço desta guerra será muito alto e deixará sequelas por muito tempo. Em boa verdade, se lermos um pouco da historia recente, facilmente se percebe que a Ucrânia está longe de ser um regime transparente, e o Kremlin jamais abdicará da sua agenda expansionista como qualquer regime ditatorial. No imediato, as mães (de ambos os lados) vão pagar a factura da perda dos filhos e o mundo apanha com os estilhaços económicos da subida de preços. All quiet on the western front, como sempre.

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