Foi o primeiro filme de grande impacto que nos mostra um estadista assassinado quase em directo. Aconteceu a 9 de Outubro de 1934, em Marselha, momentos após o desembarque na segunda maior cidade francesa do Rei Alexandre da Jugoslávia. O cortejo automóvel em que seguia, ao lado do ministro francês dos Negócios Estrangeiros, rodara poucas centenas de metros quando o monarca foi assassinado à queima-roupa por um anarquista búlgaro, no banco traseiro de uma viatura parcialmente aberta.
Tudo aconteceu a curtíssima distância de um operador de câmara da Pathé, que colhia imagens para um cinejornal (precursor dos telejornais naquela época). O facto de o motorista ter também morrido de imediato, com o pé pressionando o travão do automóvel, facilitou a recolha de imagens, que não tardaram a dar a volta ao mundo, exibidas nas salas de cinema.
Tudo isto aconteceu, note-se, três décadas antes de outro magnicídio com imagens captadas em directo: o do presidente norte-americano John Kennedy, em 22 de Novembro de 1963. Apesar de haver dezenas de fotorrepórteres e operadores de câmara profissionais no local, apenas um cineasta amador, chamado Abraham Zapruder, captou o preciso instante em que o crânio do inquilino da Casa Branca era estilhaçado pelo terceiro tiro disparado da mortífera carabina de Lee Harvey Oswald.
Vinte e seis segundos que a América jamais esquecerá. Mas que só foram vistos na íntegra em 1975: na altura, as imagens foram consideradas demasiado chocantes para serem exibidas na televisão.

Ainda hoje são imagens demasiado chocantes para passar levianamente num noticiário, por exemplo.
Eu, anónima portuguesa, trabalhadora, mulher, mãe e quase avó, choro sempre que vejo estes vinte e seis segundos, e vejo estes vinte e seis segundos sempre que se me apresentam. Podia escolher não ver, mas ver esta morte em directo, esta morte que matou bem mais do que um simples alto dignitário naquele dia, fragiliza os meus ideais tão bem estruturados e faz-me chorar. Chorar faz bem. Mostra-me uma humanidade que por vezes penso que se perdeu com os anos e que afinal ainda anda por cá.
Sim, Dulce, este crime não atingiu fatalmente apenas o jovem presidente dos EUA: também matou um certo idealismo americano, uma certa inocência dos cidadãos do mundo democrático confrontados com a face mais bestial da natureza humana que pode manifestar-se a qualquer momento, em qualquer lugar.
Eu tinha 17 anos na altura e estava a acabar o liceu, como se falava mais de política do que de futebol em casa de meus Pais (mas também se falava de futebol …), toda esta situação foi vivida com alguma emoção e muito interesse.
Na altura pouca coisa se passava no mundo que fôsse objecto de grandes emoções ou interesses pela simples razão que a comunicação era lenta, imprecisa e desfasada no tempo, isso pouco tendo a ver com o regime vigente em Portugal para casos como este (claro que também tinha) mas porque as coisas funcionavam de outro modo .
Mas havia muita revista e jornal francês e inglês à venda em Lisboa para os poucos privilegiados que os podiam comprar e os sabiam ler .
O Paris-Match escreveu muito e bem sobre o assunto .
Claro que hoje também pouca coisa se passa no mundo que seja ” objecto de grandes emoções ou interesses” mas porque as resmas de informação sem formação que nos são impingidas a toda a hora também tudo banalizaram .
Daí o ridículo dos que falam do passado em termos evidentemente anacrónicos, o passado é sempre e em toda a parte “um país diferente”.
Portanto li muito sobre o assunto e ainda tenho alguns dos livros que na altura saíram, nas edições francesas, as teorias da conspiração começaram a brotar como brotam sempre e há muito quem viva delas entre os que as vendem e os que as compram .
Abraham Zapruder estava mais bem colocado que outros que também filmavam pois era o único num ponto mais alto, daí a importância do filme dele .
A máquina que ele usava era bastante boa para a época (meu Pai tinha uma igual) mas é evidente que a qualidade do filme “não editado” era o que era .
Até o filme ser liberto das investigações policiais passou por muitas mãos que o poderiam ter “prejudicado” pois as razões que levaram ao atentado e as próprias características do dito ainda estão por esclarecer .
Na minha opinião, com base em tudo o que li, nada disto pode ser dissociado do que se passou 5 anos depois com o irmão Robert, de que esta situação terá sido uma prequela, perdoe-me a simplificação.
Tudo leva a crer que Robert Kennedy, então Ministro da Justiça (Attorney General por lá , o único membro do Governo que não é Secretay of State) sabia mais do que “queriam” que soubesse , provávelmente outra teoria da cabala, nestes cargos sabe-se sempre demais).
Voltanto ao tema há de facto 2 ou 3 filmes , pois o magazine LIFE “estragou” uns bocados do original e – aparentemente – o próprio Zapruder obrigou a que fôsse eliminada a famosa “frame 313” .
O resto da história é conhecido : as questões com os herdeiros de Zapruder e a emissão de 1975 que levantou gravíssimas questões na sociedade americana que puseram em causa as conclusões da Comissão Warren , nomeadamente quanto ao facto de haver só um atirador .
Assim não descarto a hipótese da emissão do filme ser feita mais cedo ter sido “evitada” para prevenir aquela situação, dado que mesmo 12 anos depois deu no que deu .
É que – e não me canso de o repetir – o mundo e a cabeça das pessoas de há 50 anos não era de todo parecido com o que é hoje .
E até me faz confusão que uma percentagem notável dos que o viveram já nem disso tenham consciência !
Meu caro: tem muita razão em várias coisas, nomeadamente numa que é muito característica do nosso tempo (e que particularmente me indigna). Refiro-me à inevitável banalização de todas as imagens devido ao efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as “consumirmos” (palavra muito na moda) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de “famosos” a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou o enésimo homicida ovacionado por “populares” à entrada do tribunal neste país de alegados bandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se “partilha” no instagram e no facebook, e que elege as “selfies” como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.
Excelente texto em que não me parece lhe tenha escapado um único ponto fundamental .
É neste mundo que continuam a conviver os que se indignam públicamente contra tudo sem mexerem uma palha para mudar seja o que fôr e os que vão mudando umas palhas sem perderem muito tempo a indignar-se contra tudo.
Mas muita gente acha suficiente dizer e escrever que é preciso mudar o mundo – coisa fácil de fazer, como se imagina – quando nem sequer se chateia muito a mudar o seu “próprio” mundo , o que está ao seu alcance mudar e melhorar.
É que era por aí que devia começar e já muito teria feito .
Meu caro, agradeço-lhe o seu contributo até porque me permitiu escrever um texto, nesta caixa de comentários, que há muito tinha na cabeça e agora vou transformar em ‘post’.
Uma das vantagens destas nossas trocas de impressões é precisamente esta.
Também acho que seria uma pena o seu texto se ficar no DO por uma resposta a um comentário, em boa hora terá decidido dar-lhe outro protagonismo .
Muitas vezes acabamos a concluír nas visitas às caixas de comentários que estão lá textos muito mais interessantes do que nos posts que lhes deram origem.
Não era o caso aqui, o tema era outro.
Mas se veio à baila a propósito pois há que lhe dar o merecido relevo.
Já lá está, meu caro. E de novo lhe agradeço.