Por recomendação de um amigo, deixei que se me abrisse a mente e anteontem experimentei o meu primeiro áudio livro.
À primeira busca tropecei imediatamente no clássico A Cidade e as Serras de Eça de Queirós. Já tinha ficado com ele debaixo de olho há algum tempo e em especial após este postal do Pedro Correia. Estava no topo da lista no Spotify e escolhi-o de imediato.
Os capítulos estão organizados em ficheiros separados sendo que os mais extensos estão distribuídos em três partes. A dicção é clara e bem perceptível. Enquanto tratava de outros afazeres, de pá e enxada na mão, fui ouvindo a história do Jacinto e do seu amigo e nosso narrador José Fernandes. Uma vez ou outra recuei uns segundos para não perder a sequência e quase que virei o livro ao longo do dia. Sobraram apenas dois capítulos, que ouvi ontem de manhã, num passeio de bicicleta até à Nazaré.
Por não estar a olhar para a evolução da recta temporal no écran, senti que estava a chegar ao final, mas acabei por ficar surpreendido quando ouvi a última frase. Se estivesse a ler materialmente, com o livro na mão, a antecipação do encerramento da obra seria muito mais notória e, por isso, menos surpreendente. Mas esta é uma diferença com a qual se pode viver.
Logo de seguida, quando chegava à Lagoa de Fanhais, quase como se de um novo capítulo se tratasse, lá arrancou o Singularidades de uma Rapariga Loura e ainda não tinha chegado ao Porto de Abrigo da Nazaré e já podia contabilizar mais uma obra deste romancista maior da nossa língua.
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No regresso, após um pastel de nata e um abatanado num bar dentro do areal (a praia estava enovoada e quase deserta) comecei a ouvir o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. A edição (o leitor) é brasileiro e bem menos profissional que a experiência proporcionada pela Neolivros das obras anteriores. Além de algumas gafes de dicção, em que o Rei Lear passou a ser Rei Liár, durante algumas passagens ouve-se um cão a ladrar ao fundo, e que não pertence à história. Uma vez ou outra ouve-se também o virar das páginas, o que até pode ser interessante. Apesar disso consegue-se acompanhar o desenrolar da acção.
Este meu amigo que me recomendou esta experiência, trabalha dentro de um espaço povoado com muitos ruídos, onde o ferro e madeira são matérias primas e por isso tem de andar muitas vezes com protectores auriculares. Debaixo deles está quase sempre a “ler” qualquer coisa. Pelo que soube, ele nunca apreciou muito o aroma das folhas encadernadas e teve uma vida académica abaixo das suas capacidades. Acho que tem uma qualquer forma de dislexia, nunca quis questionar directamente, e isso explicará parte do seu percurso. Quando nos encontramos, a conversa passa invariavelmente por grandes obras e grandes autores. Da última vez relatou-me várias passagens do Arquipélago Gulag de Soljenitsin e com isso convenceu-me a experimentar. Importa dizer que ele é fluente em inglês e quase tudo, ou tudo mesmo, do que lê, ou ouve, é nessa língua. As opções em língua portuguesa são menos extensas, mas mesmo assim passei a ser freguês.

Um regresso a tempos mais antigos, em que a audição era bem mais valorizada.
O problema é que a literatura desde Gutenberg foi perdendo as características que a adequavam a essa forma de transmissão.
Sem Gutenberg a literatura seria bem diferente e mais pobre.
Vai de bicicleta até à Nazaré, não tem receio de ser atropelado?
Quase que soa a ameaça.
Ameaça?! Que disparate.
Ainda há dois dias um holandês e a sua mulher, ambos de alguma idade, foram atropelados de bicicleta perto de Santo André, no Alentejo. Estavam a andar de bicicleta na estrada, veio um carro e levou-os. O homem teve morte imediata, a mulher ficou muito mal. O assassino fugiu.
Espero que nunca aconteça isso ao Paulo Sousa. Nem a ninguém.
Agradeço-lhe a preocupação, mas aqui até o trânsito é sossegado.
Tentei mas não me adaptei.
Entretanto já vou a meio de A Morte de Quincas Berro de Água do Jorge Amado.
Talvez.
Mas o livro no ou de bolso dá-me maior amplitude para sentir,sonhar,repetir,ensaiar…
Serão coisas complementares e não alternativas.
Não consigo gostar de audiolivros. Os ebooks, ainda vá, não são livros, mas tendem a ser muito práticos.
A possibilidade de poder consumir literatura enquanto se faz outra coisa, pode parecer algo herético mas permite aceder a muito mais obras.
Nunca consegui ser multitasking quando se trata de ler um livro ou ver um filme, Paulo, mas admiro quem tem essa capacidade.
A leitura é o meu jardim secreto, é o meu prazer mais solitário. Não consigo conceber estar a ler e a fazer algo mais (como pedalar ou conduzir). Parece-me um sacrilégio. No que é perfeito não se mexe. 😉
Não é uma alternativa mas um complemento, Susana.
Pois, eu percebo isso Paulo. Mas para mim não daria… A leitura tem um ritmo muito pessoal. Podemos parar, voltar atrás, reflectir. É todo um ritual que se perde.
Mas se por acaso ficasse cega não tenho dúvidas que seguiria esse caminho. 🙂
PS- Para pedalar, conduzir, cozinhar, etc., inventaram-se os podcast!
“The Sandman”, de Neil Gaiman, disponível no Audible em três partes. Não será bem um audiobook mas um audio drama com uma produção incrível. Recomendo muito, quer se tenha lido a BD ou não.
Vou espreitar João,
Obrigado
Gosto imenso deles e confesso que até hoje ainda só ouvi em inglês (excepto um em alemão). O problema está em encontrar em português de forma que goste, dado que os dois que tentei até agora me soaram mal.
A pior experiência que tive até agora foi tentar ouvir o High Fidelity de Nick Hornby narrado por um tipo que soava como o Rees-Mogg. Pode funcionar para alguns autores, mas não par Hornby. As melhores são muitas. Desde Stephen Fry em qualquer coisa a que dê voz, passando pelo The Martian (melhor em audiolivro que livro ou filme) e recentemente até ouvi o Postwar de Tony Judt (que já tinha lido).
Só evito romances de maior qualidade, porque temo perder partes quando a minha mente vagueia. Num livro é mais fácil parar e/ou voltar atrás. N audiolivro podemos não o notar até uns 10 minutos mais tarde e depois não sabemos onde estávamos. Fico-me por obras que já li, algumas menos “sensíveis” a perder o fio ou a algumas que, devido à qualidade da leitura em si, mereçam o risco.
Entretanto irei procurar literatura em língua inglesa. Entretanto já vou noutro clássico de Jorge Amado, Dona Flor e os seus dois maridos.
Falta de paciência, para ouvir, salvo excepções.. Prefiro ler.
Fez-me recordar o Teatro Radiofónico que desde os anos 20 até quase aos 90 “colava ” ouvintes às telefonias.
A leitura poderia ser a várias vozes mas isso só seria poderia ser aproveitado mesmo em texto de teatro, Ana. Os audiolivros que ouvi têm apenas um leitor, como se estivéssemos a ouvir alguém a ler para nós, o que acaba por ser verdade.
Nunca me aventurei em audiolivros, mas hei-de lá chegar – embora ache que não consiga estar a fazer algo que exija concentração da minha parte e estar a ouvir, simultaneamente, o livro com a atenção que acho devida. A ver vamos.
Entretanto, do que tenho lido e ouvido, uma das coisas mais famosas nesta área são os livros lidos pelos próprios autores – mas em inglês, em Portugal creio que não é prática. Principalmente nas auto biografias (tipo Michelle Obama, entre outras), dizem que é particularmente interessante ouvir aquela história na voz a quem ela pertence. Fica eventualmente a sugestão.
Boas audio-leituras!
Ouvir a obra pela voz de quem a escreveu parece ser interessante, mas nem todos os escritores terão a dicção necessária. Estou a escrever isto e estou a lembrar-me das imitações do António Lobo Antunes feitas pelo Portugalex
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Tendo um blog sobre livros e literatura, decidi também há pouco tempo experimentar os audiobooks…
Conheço um site chamado NetGalley, que ajuda os livros a terem sucesso no mercado, enviando cópias aos leitores para darmos feedback em retorno. Além de ter vários e-books também começou a ter audiobooks, utilizando a aplicação própria do site, que está no smartphone. Maioritariamente dos livros são em inglês, mas é uma experiência muito gira para quem fala e compreende o inglês, sempre se descobre algum livro que seja interessante. Neste momento estou a ouvir através do NetGalley o “Relentless” de Natasha Miller (narrado pela própria), e tem sido uma ótima experiência a nível de audio e narração. Irei fazer review desse audiobook muito em breve.
Tudo de bom!
Esta realidade em língua inglesa tem uma dimensão incrivelmente superior. Na nossa língua, o que encontrei com maior abundância é em brasileiro, mas alguns autores brasileiros têm mesmo de ser ouvidos assim.
Obrigado
Em brasileiro, encontro muitos e-books gratuitos para o meu Kindle da Amazon. Também é bom conhecer outros livros e outros autores…
Ouvi há dias Machado de Assis. Adorei o Dom Casmurro, que li em livro, mas achei o Alienista algo inferior. Em audiolivro passei a conhecer a obra, sem um esforço tão grande para tal.
Se houvesse uma abordagem pro-activa e inovador do Plano Nacional de Leitura, estou certo que os audiolivros poderiam alavancar um gosto mais alargado pela leitura.
Até hoje ainda não experimentei, mas a minha mulher é uma ávida consumidora de audiolivros. A diferença é que na sua língua nativa existe muita oferta, ainda por cima gratuita, em Português nem por isso.
Já agora, pode dar-me a informação onde adquire os seus?
Um abraço e obrigado.
A minha experiência resume-se ao relatado no postal, e também à descarga da App da Amazon (Audible) que é gratuita nos primeiros 30 dias. Encontra-se mais alguma coisa em brasileiro, mas não muito.
Obrigado também
Descobri os audiolivros á já alguns anos e eles salvaram a leitora que estava a morrer dentro de mim, por falta de tempo e cansaço do tipo “não consigo manter os olhos abertos”. Primeiro foram os CDs para ouvir no carro, agora andam comigo no telemóvel.
É sempre positivo. Hajam mais títulos disponíveis em português
sou do tempo…ainda estou a ver uma charrua de-a lavrar mas puxada por homem …por nao haver outro animal.
Chego aqui e espanto com o tamanho desenvolvimento que leva a lavoura. Nem imaginava. Volto ao meu tempo…levava um rádio a pilhas…para o pao com manteiga (programa de rádio, se estou lucido).
Fixe a cena do cao.
Conclusao : mesmo com as novas tecnologias a tradiçao (pá e enxada) nao se perderam. A lavoura, afinal, tem futuro.