A metamorfose do PS e o enviado de Costa à TVI


Pedro Correia,

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O fascínio da televisão, na vertente informativa, é permitir-nos assistir à História em directo. História com agá maiúsculo, sem intermediários nem explicadores. É o que vem sucedendo na vertiginosa sucessão de acontecimentos desenrolada desde a derrota em Lisboa de Fernando Medina, delfim de António Costa.

Cada processo eleitoral tem o seu contexto e os seus protagonistas. Haverá ocasião para digerir este, iniciado com as autárquicas e que só culminará quando forem apurados os votos das legislativas antecipadas. Estamos no momento de experimentar emoções fortes, não de filosofar.

Na semana passada, no debate parlamentar que ditou o chumbo do primeiro Orçamento do Estado da democracia portuguesa, assistimos em tempo real à viragem de Costa. No discurso de encerramento, o primeiro-ministro deixou-se de salamaleques à esquerda e iniciou a campanha eleitoral. Com palavras duras para os antigos companheiros de estrada, de quem ali se despedia. Enquanto pedia aos portugueses «maioria reforçada e estável» na próxima legislatura.

É um PS já deslocado do seu eixo mais recente. Um PS com maquilhagem centrista a carpir mágoas contra a esquerda radical, que deseja ver punida pelos eleitores.

Costa pode ter muitos defeitos, mas nunca brinca em serviço quando se trata de política pura e dura. Pouco depois do chumbo, já o seu enviado especial, Augusto Santos Silva, debitava em sinal aberto, no Jornal das 8 da TVI, os traços essenciais da cartilha recauchutada.

«Foram os partidos à esquerda do PS que deram esta vitória política à direita. Nós tínhamos um grande trunfo: a nossa estabilidade. Esse trunfo, perdêmo-lo hoje. Convém recuperá-lo o mais depressa possível.» Tudo dito em poucas frases pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Que usou sem pudor a expressão “maioria absoluta”. É por ela que o PS vai lutar. Podendo, no limite, vir a formar governo com o PAN – outra novidade ali introduzida.

Minutos depois, na TVI24, Ana Catarina Mendes completava a narrativa, já totalmente adaptada às circunstâncias. Adeus frente de esquerda, adeus comunistas e bloquistas no “arco da governação»: eis a metamorfose socialista em todo o esplendor. «O PS é um partido social-democrata, de centro-esquerda, não é um partido da esquerda radical», declarou a líder parlamentar do PS enquanto alegada comentadora política.

No dia seguinte, novo marco da campanha em curso: Costa, na cimeira peninsular de Trujillo, recebia elogios do homólogo espanhol. Pedro Sánchez apontando-o como farol da estabilidade não apenas a nível interno mas à escala europeia.

Numa semana tão fértil em acontecimentos, com a História a escrever-se em directo, houve ainda lugar ao irrelevante e ao anedótico: as televisões seguindo em frenesim tablóide o Presidente da República até um terminal multibanco junto ao Palácio de Belém. Só faltou filmarem o código da conta para todo o país saber. Razão tinha o outro: quando o sábio aponta a Lua, o tonto olha para o dedo.

 

Texto publicado no semanário Novo

16 comentários em “A metamorfose do PS e o enviado de Costa à TVI”

  1. Nunca acontecerá a Rui Rio perceber que seriedade latente embrulhada em lânguida inocência é mortal com António Costa.

  2. Augusto Santos Silva necessita de ir fazer uma caçada aos elefantes para tranquilizar-se, e depois de matar um plantar uma árvore.
    O PS já tinha maioria e fez poucochinho. Isto de pedir maioria absoluta soa-me a traição a Bruxelas e a uma tentativa de golpe de estado. Eu opor-me-ei a esta intentona de derrubar os nossos governantes em Bruxelas. Como sou um tipo universalista, quero que os nossos ricos, mal remediados, pobres, miseráveis, empreendedores, especuladores e outros rapinadores continuem a receber subsídios de Bruxelas.

  3. Cada vez me sinto menos culpado por desligar dos noticiários portugueses. Tal como marido traído, devo ter sido o último a saber do directo do Professor enquanto pagava a conta do gás.
    Como dizia o outro, tudo como o senhor Alfredo.
    Rio, não sei se é competente ou não (desconheço o seu trabalho no Porto), mas uma coisa é certamente, um idiota útil. Útil a Costa. Rio preferiu a postura de estadista, pensa ele, deixando trabalhar o governante, diminuindo o atrito político. Não só perdeu hipótese de fazer boa oposição, o que seria inédito, como transmite a ideia de que espera igual tratamento do opositor caso as cadeiras mudassem, o que é apenas tolo. Ou isso, ou passou este tempo todo a fazer-se ao Bloco Central, ganhe um ou outro, o que dado o passado recente de Costa, pode bem ser o fim do PSD.
    Bloco e PCP são partidos de oposição, tentaram uma simbiose com o PS, mas é complicado uma menage a tris quando nenhuma das partes grama qualquer dos parceiros. Como sabem, ou ficam a saber, este tipo de relações é prazeirosa enquanto dá, mas traz graves consequências inter-relacionais associadas.
    Quanto ao PCP em particular, é adorável ver um Partido que nasce do totalitarismo berrar contra maiorias absolutas. Sim, eu sei que o Jerónimo não é o Estaline nem há planos secretos de construir um gulag em Cuba, mas tem o seu quê de ironia histórica.

    1. ” Jerónimo não é o Estaline”

      Não? Não consta que tenha abandonado o Marxismo-Leninismo e não parece ter problemas em apoiar o país gulag Coreia do Norte.
      Basta terem 20% de votos e vai ver que começam a falar e agir logo com outro tom. Agora imagine se tiverem todo o poder.

  4. Tudo isto pressupõe que se entenda estabilidade com o acomodamento de uma esquerdalhada que tem nos cornos uma sociedade fechada, em que o papel do Estado é regular comportamentos, definir o dizer e o sentir, e que a propósito de uma solidariedade que por definição pressupõe a diferença, tem um projecto igualitário, onde a mediocridade e a mesquinhez são virtudes cívicas.

    Esse é e será o PS e a sua estabilidade.

  5. “O fascínio da televisão, na vertente informativa, é permitir-nos assistir à História em directo.”

    Portanto, aquilo que não passa na tv nunca aconteceu? A habitual confusão mirabolante entre História, com “H”, e estória. De tal modo que uma mentira passada 100 vezes na tv se transforma em verdade absoluta. Se o seu conceito de jornalismo é esse, o que não admira, é magnífico.

  6. O olho das sucessivas tragédias envolvendo a tropa ou não, está no comandante que em vez de comandar anda a reboque.
    É só ver a lista, que quando o penteado não lhe assenta sacode a caspa.

  7. Então o PS já não é um partido marxista?
    Andaram anos a martelar com essa frase :”PS é um partido marxista, PS é um partido marxista, PS…………..”

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