A mercearia reabriu


Teresa Ribeiro,

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

0 comentários em “A mercearia reabriu”

  1. Das situações que mais me confrangem e revoltam é ver casais com 30-40 anos de convivência destratarem-se aos trambolhões. É humilhante quando nada mais existe que o hábito da união. Deveríam todos os pretendentes a partilhar -se frequentar um curso de sobrevivência cujo critério de frequência fosse o de acharem-se a si mesmos uma boa companhia.

  2. Excelente “postal” do quotidiano, Teresa. Mantendo um estilo que o DELITO sempre cultivou: o de nunca ignorar o mundo concreto em que vivemos. Começando pelo que temos à nossa porta.

  3. Como os via ou conhecia, saberá mais e melhor que eu… Mas, com “features” de traste, venenos e deserções, foi ele que foi primeiro…:

  4. Seria ele um traste? Sê-lo-ia ela (porquê sempre a presunção de culpa no homem)? Seria apenas a sua forma, a forma deles, de levar a vida em comum, quem sabe com bem menos quezílias lá onde não era mercearia?

    Desertores seremos todos e todas. Um dia. Nada mais havendo, pelo simples curso da Natureza. Egoísta digo-o: ainda bem, talvez. Se ninguém houver para quem nessa hora sejamos desertores, infeliz vida terá sido a nossa. Ou o seu fim.

    Costa

  5. Como dizia o outro, um casamento é um fardo que pode precisar de três pessoas para carregar.

    Graças ao progresso, hoje em dia é mais provável que o terceiro seja polícia ou psicólogo.

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