A linguagem dos assassinos


Pedro Correia,

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Televisões que se presumem sérias, praticantes de um jornalismo considerado rigoroso, difundiram por estes dias a imagem de um repórter britânico que se encontra cativo do autoproclamado Estado Islâmico, funcionando portanto como porta-voz compulsivo desta organização terrorista.

Mesmo sabendo isto, as televisões emitem esta mensagem adulterada, fazendo-a passar à primeira vista por informação isenta. É um acto de lesa-jornalismo. Pior: é um alto de lesa-civilização. Estamos a recuar perigosamente em matéria de princípios sempre que pactuamos com a violência terrorista, mesmo que seja insidiosa e encapotada, como sucede neste caso.

E o problema não se centra só nas imagens que procuram banalizar o mal. Repare-se na linguagem tantas vezes adoptada para descrever os bárbaros assassínios de jornalistas, decapitados a sangue-frio depois de serem forçados a confessar aquilo que não pensam e noutras circunstâncias jamais diriam: foram “executados”, proclamam vozes neutrais na televisão, sem um assomo visível de indignação cívica. Fosse outro o contexto, fossem outros os algozes, falar-se-ia em crime, chacina, massacre. “Execução” tem uma conotação burocrática, quase legal, quase consentida, quase compreensível.

O primeiro erro, aliás, é chamar Estado Islâmico a um movimento inorgânico que utiliza a bandeira do islão como mero pretexto para dar largas ao mais básico instinto sanguinário. Um bando de pistoleiros, mesmo vasto e bem armado, não pode confundir-se com Estado algum. E nenhuma religião deve caucionar a violência homicida, aliás cometida em larga medida, neste caso, contra os próprios irmãos de fé.

Usar a linguagem dos assassinos é o primeiro passo para atenuarmos os seus crimes.

18 comentários em “A linguagem dos assassinos”

  1. Não são só as televisões que se estão a portar mal; em Portugal temos o Partido Socialista que quer ser governo e através do seu porta voz Marcos Perestrelo, preocupado com a segurança dos portugueses que se converteram ao terrorismo jihadista, e que têm colaborado no assassinio a sangue frio de jornalistas que foram raptados no exercício da sua profissão.
    Quando o PS estiver no governo podemos até esperar o reconhecimento do “estado islamico” pela República Portuguesa e a abertura da respectiva embaixada em Lisboa.
    Quanto ao Perestrelo, pode o 1º ministro Costa nomeá-lo embaixador de Portugal junto do “estado islamico”, que é onde ele está bem.

    http://observador.pt/2014/10/28/ps-teme-pela-seguranca-dos-jihadistas-portugueses/

  2. A importância é um conceito relativo. As coisas só se tornam verdadeiramente importantes, se as pessoas lhes derem muita importância. Ao auto-proclamado Estado Islâmico foi e continua a ser dada demasiada importância, de tal modo que podem continuar impunemente a cometer assassínios e outros actos de terror. A internet tem todos os dias milhares de vídeos gone viral… A escolha dos media em reproduzir alguns deles nos noticiários só confere cada vez mais protagonismo a quem o procura acima de tudo o mais. Proselitismo compartilhado?

  3. Pedro,

    não posso estar mais de acordo com sua indignação. Gostaria somente de referir-lhe que a guerra que se trava naquela região já foi declarada perdida por todos quantos dizem estar a combater um movimento terrorista.
    Na realidade eles usam também o rosto do terror, e abusam de personagens inocentes para fazer passar esse objectivo. Mas ninguém acredite que o ocidente e os aliados na região fazem esta guerra por um objectivo humanitário. Quando muito usa-se a mesma estratégia que se usou no Vietnam e outros cantos do mundo para se poder chegar a um compromisso. Isto é, usar a força para fingir que o compromisso alcançado foi fruto da derrota infligida.

    1. Adicionalmente, como já tinha referido por aqui num debate em torno dos problemas naquela região, o mundo ocidental começa a reagir ao terror que por ali se faz sentir. O terror levado a efeito anteriormente e o agora vigente.

      http://expresso.sapo.pt/promessa-cumprida-suecia-e-o-primeiro-pais-ocidental-da-ue-a-reconhecer-a-palestina=f895929

      http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=740988

      E Malala, uma vez mais, demonstra sua generosidade:

      http://expresso.sapo.pt/malala-yousafzai-doa-50-mil-dolares-para-as-escolas-em-gaza=f895947

    2. Vento: as principais vítimas do movimento terrorista que se intitula Estado Islâmico não são os habitantes do Ocidente. São sírios, curdos, iraquianos. Quase todos muçulmanos.
      Não sei o que possa ter isto a ver com o Vietname. É algo que escapa à minha compreensão.

      1. Tem sim, Pedro. Essas vítimas de que fala julgam estar a ser ajudadas pelo ocidente. O ocidente só está a ganhar tempo para ver em que param as modas.

        Nenhum país da região nem tampouco o ocidente colocará um só soldado nesta luta.
        Eu não defendo o EI, simplesmente afirmo que a situação já não tem controlo possível. A não ser que pretendam uma terceira guerra.

        Agora explico o porquê: O Egipto, a Turquia, a Arábia Saudita se entrarem directamente nesta guerra sujeitam-se a que os extremistas internos boicotem todo o processo. E nesta situação não haveria tropas suficientes para combater em duas frentes.
        Os desgraçados dos curdos, sírios, iraquianos e outros mais são a carne para canhão.
        Termino já afirmando uma vez mais o que já uma vez disse: a solução é política e não militar. E tanto que é que as pressões que veremos agora recairão sobre Israel no sentido de mostrar aos terroristas que todos estão empenhados numa solução para a Palestina. Sendo este o mote para sentá-los à mesa do diálogo.

  4. Só agora é que descobriu que o Terrorismo é noticiado dessa maneira?

    O Terrorismo existe por causa do Jornalismo Ocidental. De Esquerda.

    Ainda há poucos dias um “carro atingiu uma multidão” em Jerusalém.
    Como se não bastasse os festejos publicos pelo Hamas e Jihad Islamica pelo facto, ficaram com conivência dos Jornalismo Ocidental, na gaveta.

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